Antonia Pozzi - Pausa


Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.


in, Morte de uma estação 

      As conchas têm sido símbolo de fecundidade e renovação desde o mito de Afrodite. Nessa viagem de alma com vida e morte, cada um pode encontrar o tesouro procurado numa pérola. A autora do poema é italiana, por vezes comparada a Emily Dickinson, nasceu na cidade de Milão em 1912 e suicidou-se com 26 anos. Deixou uma obra breve, mas intensa.  

Sem comentários:

Arquivo do blogue