Amalia Bautista



Não sabemos nada.
Nunca saberemos se os enganados
são os sentidos ou os sentimentos,
se viaja o comboio ou a nossa vontade
se as cidades mudam de lugar
ou se todas as casas são a mesma.
Nunca saberemos se quem nos espera
é quem nos deve esperar, nem sequer
quem temos de aguardar no meio de um cais frio.
Não sabemos nada.
Avançamos às cegas e duvidamos
se isto que se parece com a alegria
é só o sinal definitivo
de que nos voltámos a enganar.

 O cepticismo que nos traz a filosofia.

4 comentários:

David Barbosa disse...

A filosofia não é um ceticismo.
O ceticismo é uma filosofia.
Assim como o otimismo é uma filosofia.
A filosofia, enquanto atitude de abertura e de procura, usa a dúvida como método, não como fim.
Só duvida quem crê. E quem pensa.
Quem não crê e não pensa, não duvida. Não tem de quê.

António disse...

Não, o credo não aceita a dúvida. Ou se acredita, ou se tem dúvidas. Um crente não é um agnóstico. O que queria dizer é que o "meio" filosófico de estar sempre a duvidar não gera certezas, credo. Relembro a Celina quando dizia "Se eu saltar desta janela, sei lá se caio para baixo?!"

David Barbosa disse...

A vida não é assim tão linear, retilínea.
É verdade que há uma fase na vida cheia de certezas, a da infância. Também é certo que há quem permaneça numa eterna infância, ao nível intelectual.
Eu creio que a dúvida, que se quer como o sal na comida, ajuda-nos a crescer, a filtrar as ideias, a superar preconceitos, a iluminar a inteligência, a superar o erro. É assim na ciência, na política, é assim na teologia, etc. Repara como já se identificou o divino com os elementos naturais e como se foi afinando esse conceito até à sua espiritualização.
Concluindo, há em tudo uma mistura de tudo: no amor há dor e morte, na alegria há sempre o pressentimento da sua finitude, no próprio nascimento está logo em semente a potência da morte.

Depois, em paralelo com os eternos otimistas e crédulos, há os eternos céticos, ressentidos talvez da tranquilidade perdida da infância.

António disse...

O que me preocupa é a facilidade com que hoje se diz "esta crise é uma bênção", "é pelo conflito que se constrói a disciplina", "é no erro que o aluno aprende", "é na dúvida que se constrói o conhecimento e a verdade". Na infância e adolescência ensinaram-se a virtude, os valores, a ternura e a moral descobertos, limpos, aos quais juntei os modelos perfeitos do cristianismo. Nesse ambiente construí certezas e verdades que nunca mudei. Apenas as retoco. Por isso, confesso que tenho medo, ou pelo menos receio, das dúvidas, dos conflitos, das crises, da filosofia.

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