Sebastião Antunes - Sabes eu também


Estava difícil combinar um café, mas desta vez lá foi
Talvez possamos falar do que já lá vai que as vezes ainda dói
Da coragem esquecida que já se perdeu
Quem deixou por dizer foste tu ou fui eu
Da lembrança guardada num canto qualquer
Da palavra apagada por não se entender
E dizer-te num gesto mais enternecido
Sabes, eu também ando um bocado perdido.

Vou preparar-te um jantar, com certeza vou ser original
E vou escolher-te um bom vinho. Tu sabes, nunca me saí mal
Vou falar-te das voltas que a vida trocou
Das verdades que o tempo já entrelaçou
Entre sonhos queimados lançados ao vento
Entre a cor de um sorriso e o tom de um lamento
E dizer-te de um sopro empurrado pela sorte
Sabes, eu também ando um bocado sem norte.

Olha, não fiz sobremesa. Deixa lá, fica para a outra vez
Vamos deixar mais um copo a falar dos quês e dos porquês
Uma história que nos apeteça lembrar
Um episódio que nunca nos deu para contar
Um segredo guardado pelo cair do pano
Um encontro marcado no cais do engano
E dizer-te na hora em que a voz fraquejar
Sabes, eu também me apetece chorar.

E vou chamar um táxi. É hora para te levar a casa
Era suposto um de nos nesta altura ficar com a alma em brasa
Mas a vida é assim, não aconteceu
Pouco importa dizer, foste tu ou fui eu
O que importa é o abraço que estava por dar
Há-de haver uma próxima e mais um jantar e
E dizer-te a sorrir já passa das três
Dorme bem, quem sabe … um dia talvez.

'Não nos devemos juntar a alguém por solidão'- Mas, e se for ela a razão porque nos juntamos? 

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