
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por soldada pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel, lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada sua pastora,
como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
dizendo: – "Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta vida!"
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por soldada pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel, lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada sua pastora,
como se a não tivera merecida,
Começa de servir outros sete anos,
dizendo: – "Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta vida!"
Jacob serviu Labão durante sete anos para receber Raquel, que amava,
como prémio desse trabalho. Enquanto os dias passavam vagarosamente, o sofrido
pastor tinha só o sustento da visão da amada, com a esperança de a alcançar no
futuro. Contudo, quando acabou esse longo período, Labão decidiu que Jacob
recebesse Lia, outra filha, e não Raquel, tal como era o seu desejo.
Jacob não ficou desiludido e começou a servir Labão durante mais sete anos. As palavras finais do soneto, pronunciadas pela própria personagem emotivamente em estilo directo, manifestam o ânimo firme de Jacob, que exprime que estaria disposto a servir Labão ainda mais tempo para conseguir Raquel.
O episódio ocorre no livro do Génesis, capítulo XXIX. Mas Camões pôs de
parte muitas circunstâncias que o estorvavam, e de todo o capítulo espremeu
apenas o sumo de poesia eterna que ele contém. A poligamia de Jacob, a sua
idade avançada de 77 anos, a menoridade de Raquel, a sua esterilidade
posterior, a preferência que Lia afinal alcançou, apesar dos seus olhos
ramelosos, por ser fecunda, todos estes e outros elementos prosaicos desaparecem,
ficando no espírito e no sentimento do leitor ignorante das fontes a impressão
de um moço pastor que ama, espera fielmente, e algum dia terá o prémio único, e
a tudo preferido, da sua constância heróica e exemplar.
A pintura é de William Dyce, The Meeting of Jacob and Rachel.
A pintura é de William Dyce, The Meeting of Jacob and Rachel.
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