O Baile

 
A primeira vez que vi a Lara tinha passado uma hora de ela ter visto a luz. Entrei na sala dos bebés de parto de cesariana, não sem antes a enfermeira me lavar as mãos, a cara e me vestir de roupa branca até me pulverizar com uma espécie de incenso. Outra enfermeira trouxe-a ao alto, pendurada por mãos debaixo dos ombros, vestida num embrulho de linho com capuz e cinto a pender. Parecia um frade pequenito. Olhei-a nos olhitos e já nos conhecíamos. Flor, ainda nas mãos da enfermeira, assobiei-lhe baixinho a melodia 'An die Freude' de Beethoven e pareceu sorrir.
 
Ontem, passados 18 anos, no baile de finalistas com os amigos, brindámos com champanhe à vida, ao amor, ao trabalho, ao conhecimento, à beleza - e dentro de mim a companhia violenta de uma família dividida. Ao sair do recinto, já na direção do carro, trautei os velhos versos de Schiller com as notas musicais de anos atrás, a sentir como a vida não tem sido justa. "Freude, schöner Götterfunken, Tochter aus Elisium, wir betreten feuertrunken himmlische, dein Heiligthum. Deine Zauber binden wieder, was der Mode Schwerd getheilt; bettler werden Fürstenbrüder, wo dein sanfter Flügel weilt."

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