David Duarte

Zenda:

Chama-lhe o que quiseres. Mas a verdade é que as pessoas arruínam a sua vida de um modo estúpido e inútil. É-nos dada esta oportunidade única de viver; por quanto tempo? Uma fração de segundo, ou nem isso, se medida a partir da duração do universo, e o que fazemos? Zero, zero. Arranja-se um emprego medíocre, e diga-se que quase todos não têm sentido, apenas servem para fazer funcionar um sistema mecanizado e neurótico que corre não se sabe para onde. Casamo-nos para sobreviver numa caixa de fósforos de um subúrbio qualquer, encurralados por vizinhos que se detestam. Aos fins-de-semana, arrastamo-nos em multidão pelos centros comerciais, comprando inutilidades. E se, por dificuldades financeiras, não compramos, ainda é pior, porque o que nos resta da alma já está tão dependente do consumismo, que a frustração e o ressentimento envenenam-nos para o resto da semana. E só assim se explica a fúria com que investimos por essas estradas fora, matando-nos uns aos outros como loucos. As pessoas vão-se suicidando de mágoa. Têm apenas a infância e a adolescência como um tempo de alegria. E nem todos. Basta reparar na pressa de tantos jovens em entrar para o clube dos vencidos da vida. Ora, eu quero ficar de fora desta corrida de loucos. O mundo dos adultos é um pesadelo. É uma espécie de manicómio. Tudo alienado. Aliás, o que é que se pode esperar de uma sociedade em que a competição é tida como o valor supremo? A cooperação? A beleza? A compaixão? São apenas conceitos decorativos nos discursos para iludir idiotas em tempo de eleições. Temos que nos defender. Não chegou ainda o tempo do ataque. É preciso que a podridão continue a sua tarefa. A ressaca desta idade estúpida não chegou ao fim. Mas acredito que chegará o tempo da mudança. É por isso que penso que, por enquanto, se trata sobretudo de um trabalho pessoal, de conversão interior, de preservação da nossa integridade, de salvação da nossa alma. Porque há um terrorismo neste nosso século, aquele que nos contamina de mediocridade e vazio. E tu deves compreender bem isto, Dinis, com a tua vocação para a poesia e a santidade.

Nota: A santidade está no mais simples da vida.

Do livro "O Elogio da Fragilidade"

Sem comentários:

Arquivo do blogue