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..Inspirado no livro 'Meninos Milionários', da autoria de José Rodrigues de Freitas, Aniki Bóbó (1942) é um conto de impressionante dimensão poética sobre as dores e as alegrias do primeiro amor, das primeiras amizades e das primeiras pequenas grandes escolhas da vida.
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No Porto dos anos 40, entre a escola, a brincadeira e os mergulhos nas águas do Douro com as outras crianças, na Ribeira, Carlitos disputa a atenção de Terezinha com Eduardo, o líder do seu grupo de amigos. Cedendo às ânsias do coração, Carlitos rouba da 'Loja das Tentações' a boneca dos sonhos de Terezinha. Orgulhoso a princípio, depressa percebe que o bem que lhe fez não é tão grande como o mal provocado pelo acto cometido. A situação piora quando um acontecimento trágico o torna suspeito de um crime que não cometeu.
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Duma certa ingenuidade tocante, a história de Carlitos encerra um drama moral, desenvolvido num jogo de dicotomias, em que os conceitos de amor e ódio, amizade e ingratidão, desejo e interdição, culpa e perdão, vida e morte se confrontam, naturalmente, como partes integrantes da pessoa.
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Neste filme, a imagem tem uma força extraordinária, muito mais do que a palavra – mesmo quando as crianças se juntam e discorrem, de noite sob a luz de um lampião, sobre a morte e a vida -, oferecendo-nos uma belíssima lição sobre o uso, magistral, da luz, com jogos de sombras fantásticos. E a acompanhar a essência natural do conteúdo, a naturalidade técnica, dos desempenhos das crianças e dos cenários.
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Percursor, na assumpção da crítica europeia à data da sua estreia, do neorealismo italiano, Aniki Bóbó perpetua, no discurso cinematográfico uma modernidade intemporal.
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Margarida Ataíde
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Nota: O filme está limpo como merece.
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