A Alegoria da Árvore da Vida de Ignacio de Ries
Não existe uma rigorosa
distinção entre símbolo e alegoria, na medida em que a alegoria é a própria
simbologia em decomposição, morta por hipertrofia. Todavia, nessa decomposição
do símbolo liberta-se um poder imenso, o frio sentido algébrico, o que permite
criar com soberano arbítrio as convenções, impor que qualquer coisa possa
substituir qualquer outra coisa. «A alegoria seiscentista não é convenção da
expressão, mas expressão da convenção»: assim se cria também o mito da escrita,
perene festim de morte, entregue à «volúpia com que o significado domina, como
um tenebroso sultão, no harém das coisas». A alegoria incontrolável, agora
subtraída a uma ordem viva do sentido, mera obrigação de procurar imagens e de
ir elaborando sempre o seu significado através de lacerações combinatórias,
provoca acima de tudo o extravasar das próprias imagens: tal como os objectos
invadem obsessivamente a cena do teatro barroco, até se converterem nos
verdadeiros protagonistas, também as figuras irrompem como ameaças nos livros
de emblemas, comemorando a cisão progrediente entre imagem e significado. Quem
é que, ao abrir Emblematum Liber de Alciato e ao ver uma mão cortada com um
olho na palma, pousada em pleno céu, numa paisagem campestre, poderá pensar na
prudência, como pretendia o texto do emblema? Reconhecerá, pelo contrário, a
vivisecção do corpo humano, uma muda alusão ao estado de natureza como obra de
alvenaria e a inconsciente instauração do fragmento como categoria dominante
do estético. Com a acumulação destes materiais prepara-se a ribalta do moderno.
A história de então prefigura a verdadeira história dos nossos dias: aquelas
imagens, então saídas para o mundo, como feras saídas da jaula, continuam a
vaguear pelo mundo. Kafka descreveu-as: «Leopardos irrompem pelo templo e
esvaziam os vasos dos sacrifícios; isso repete-se sempre; no fim, pode
prever-se, e torna-se uma parte da cerimónia». Alegoricamente, o escritor é
aquele que assiste a essa cena.
in, Os Quarenta e Nove Degraus
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