Pablo António Cuadra - A noite é uma mulher desconhecida


Indaga uma moça
ao homem que passa
e ouve o seu falar
lento e surpreso:
- Porque não entras?
Em minha casa.
A porta está aberta e tem o fogo aceso.
Desdenhando a oferta,
responde o peregrino,
em tom de pejo:
- Sou poeta!
E conhecer a noite
é só o meu desejo.
Ela, com cinzas apaga o fogo.
e franzindo a fronte,
Aproxima na sombra
o seu corpo todo,
dizendo ao forasteiro:
- Toca-me! Conhecerás a noite!

Joseph von Fuhrich (1800-1876) - Jacob encontra Raquel



Jacob disse ao pai de Raquel: – Sete anos te servirei pela tua filha mais nova.

Gil T. Sousa


não há nada tão triste
como a primeira coisa
que escondemos numa gaveta

ou a última pessoa
que enterrámos num papel

Gil T. Sousa


quando a maré se afasta
é possível escrever tudo

outra vez

Gil T. Sousa - Aguarela


a beleza da árvore
que finge seguir o vento
quando ele passa

e os muros caiados
que guardam o sol
para quando nos falta

a água fresca
a respiração da janela larga
sobre o campo

e este caminho
que cresce tanto
até ser estrada

as mãos ainda abertas
para os frutos
e para as flores

os pássaros e o mundo
o tempo a rasgar-se
no corpo

no meu, no teu corpo

Les Canards Chantants - John Dowland | Now, O Now | Lute Song




Now, O now, I needs must part
Parting though I absent mourn
Absence can no joy impart:
Joy once fled cannot return
While I live I needs must love
Love lives not when Hope is gone
Now at last Despair doth prove
Love divided loveth none
Sad despair doth drive me hence
This despair unkindness sends
If that parting be offence
It is she which then offends
Dear, when I am from thee gone
Gone are all my joys at once
I loved thee and thee alone
In whose love I joyed once
And although your sight I leave
Sight wherein my joys do lie
Till that death do sense bereave
Never shall affection die
Sad despair doth drive me hence, etc
Dear, if I do not return
Love and I shall die together
For my absence never mourn
Whom you might have joyed ever:
Part we must though now I die
Die I do to part with you
Him Despair doth cause to lie
Who both liv'd and dieth true.

      "A thing of beauty is a joy forever." John Keats

Leonardo Boff


A onda não é o mar. É o mar porque sem o mar não há onda. Não é o mar porque é uma manifestação do mar, entre outras. O mar é sempre maior do que as suas ondas e as suas manifestações.
A onda é o mar-oceano manifestado, o mar-oceano que se realiza numa consciência pessoal. Há ondas que se esquecem de que são o mar-oceano manifestado. Entendem-se a si-mesmas, independentes, sem referência ao mar-oceano. É a sua ilusão.
Há ondas que sabem que vêm do mar-oceano. São expressões do mar-oceano e voltam ao mar-oceano. É a sua realização.
Felizes, vivem a diferença. E a união na diferença.
Necessitamos, portanto, oceanizar a nossa existência.
Vivenciar a Fonte donde tudo jorra e para onde tudo desagua. Caminhar à luz do Sol primordial. Regressar ao seu Seio luminoso.
Eis o termo da jornada humana: a auto-transcendência. O mergulho no insondável Mistério de vida, de consciência, de comunhão e de amor.

in, A águia e a galinha

Lya Luft


Não é verdade a tua solidão. A um canto,
do lado de fora, o meu coração espera:
fénix dolorosa, consome-se e renasce, fiel.
Quem sabe,
quando abrires uma fresta da tua porta,
te alegrarás vendo-o aí, guardando
essa luz que se alastrará por rios sem fim
de uma geografia desconhecida:
e só os escolhidos entenderão.

José Tolentino de Mendonça - Seta


A verdade é que não conseguia curar-se
de uma delicadeza infinita
senão consigo
ao menos para com o mundo
a glória desejava semelhante
no escuro e à luz dos campos
embora tanto se achasse incapaz

preferiu sempre a seta que desaparece
ao nome breve que se guarda.

The Line Between - Son of Town Hall




The vocal harmonies are on point.

Uberto Stabile


Dizem que a última coisa a perder-se é a esperança,
mas se tiveres perdido o sentido de humor,
de que te serve a esperança?
Tenho o dobro da idade
durmo metade de ti
fumo o triplo
ganho dia a dia a paciência que tu perdes,
e ainda dizes que somos almas gémeas.
Após o amor vem sempre o sono
e enquanto tu roncas eu devoro cigarros,
a tua ansiedade tem um limite
a minha tem um termo.
Quando perderes o sono
verás que o amor é sempre outra coisa,
o que é para ti um mito
para mim é só uma lenda.
É a idade que não perdoa
não admite créditos, devoluções, nem transferências,
podemos partilhar a vida
mas da morte temos de nos rir a sós.

    Tradução A.M.

Valeria Pariso


Dorme, dorida minha.

É justiça poética
se não há esquecimento.

Vladimir Dunjic




Consequences.

Mestre Hanshan (Zen Budista)


Dentro da cidadela fortificada existe uma cortesã de beleza inacreditável;
As pérolas brilhantes em sua barriga descansam contra o cetim de sua pele nua.
Reclinada num fundo de flores, ela brinca com um papagaio,
E toca o violão sob o luar.
Aqueles que sua canção ouvem não a podem esquecer, mesmo depois de três meses;
Sua adorável e breve dança, não há quem não a queira ver.
Mas o fato é que isto não pode durar para sempre;
A flor de lótus não aguenta o inverno de gelo.

David Mourão-Ferreira


Mal fora iniciada a secreta viagem
um deus me segredou que eu não iria só.
Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que deus me segredou.

Amparo Osorio - Resurrécción


Caminaré de nuevo.
Levantaré las ruinas de mi casa
y las ruinas de mi corazón.
Me vestiré de alas y de soles
de presencias amadas.
Hallaré en otros labios
aguas para mi sed
y en otros ojos
prolongaré caminos.
Yo signada de viento
desafiando conjuros...
ceñiré nuevamente mi relámpago.

Domenico Gnoli, Itália 1933-1969



Viver.

Antonio Sem - Poema por Ti


No espaço do meu corpo
há um cheiro de maça verde
e eu habituei-me
a esperar-te inteira
à beira do tempo
enquanto as esquinas
se dobram de espanto

Tu és a certeza nesta viagem
pelo amanhecer tranquilo
em que a madrugada se despe
das palavras quietas que cheiram a ti

Eu sou a incerteza
da partida que sabe a desejo.

Pomme - Je t'emmènerais bien




Je t'emmènerais bien de l'autre côté de l'Atlantique
longer quelques chemins perdus outre Amérique
J'te dirais bien qu'on restera encore ensemble
jusqu'à la fin des jours et même si le sol tremble.

Je t'emmènerais bien de l'autre côté de l'Atlantique
Plus près des neiges de nos rêves chimériques
Et qui nous retiendront debout jusqu'au bout des ravins,
Qui nous feront courir encore longtemps.

Jusqu'à demain, jusqu'à demain.
Il est bientôt temps de partir. Retiens-moi.
Il est bientôt temps de partir.
Reste là. Regarde-moi.

Car dans tes yeux que je ne pourrais bientôt plus voir,
Il y a ces choses qui ressemblent à l'espoir
Et tu supportes encore mon corps entre tes bras.
Faudrait aussi que j'apprenne seule à marcher droit, à marcher droit.

Il est bientôt temps de partir.
Retiens-moi.
Il est bientôt temps de partir.
Reste là. Garde moi.

je t'emmènerais bien ô gué refaire le tour du monde
Au bord du ciel où nos amours vagabondent.
J'oublierais bien la ville et ses murs de ciment
Où va la vie passée le long du sang noir.

      O regresso à melodia.

Millôr Fernandes


Deixámos de beber
e em cada esquina
abriram um novo bar.
Abandonámos o fumo;
passam homens, crianças
e navios
a fumar.
A rua, como nunca, está cheia de mulheres
jovens, lindas de corpo, sedutoras de andar.
Ah, mas já deixamos de amar.

Francisco Véjar - Sem despertar a folhagem


Contemplamos as folhas das árvores
onde estão nossos vestígios de humanidade
com mais apreensão que quietude
pois o vento tratará de apagar tudo,
inclusive o ventoso do teu cabelo
em cujo bosque desejo desaparecer.

Se a magia não fosse passageira, dirias:
"Espera-nos, tempo inexorável!
E deixa que a árvore diga árvore
quando move as folhas.

Ferdinand Hodler



"I came so far for beauty, I left so much behind." Leonard Cohen

José Tolentino Mendonça



O silêncio é a partilha
do furtivo
lume.

Natália Correia - Do sentimento trágico da vida



Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.

      "Embora eu traga vestido um uniforme, eu não vim ao mundo para lutar." Leonard Cohen

Gentle On My Mind - Glen Campbell (Cover by The Petersens)




It's knowin' that your door is always open
And your path is free to walk
That makes me tend to leave my sleepin' bag
Rolled up and stashed behind your couch.

And it's knowin' I'm not shackled
By forgotten words and bonds
And the ink stains that have dried upon some line
That keeps you in the back roads
By the rivers of my memory
That keeps you ever gentle on my mind.

It's not clingin' to the rocks and ivy
Planted on their columns now that bind me
Or something that somebody said because
They thought we fit together walkin'.

It's just knowing that the world
Will not be cursing or forgiving
When I walk along some railroad track and find
That you're movin' on the back roads
By the rivers of my memory
And for hours you're just gentle on my mind.

Though the wheat fields and the clothes lines
And the junkyards and the highways come between us
And some other woman's cryin' to her mother
'Cause she turned and I was gone.

I still might run in silence
Tears of joy might stain my face
And the summer sun might burn me till I'm blind
But not to where I cannot see
You walkin' on the back roads
By the rivers flowin' gentle on my mind.

I dip my cup of soup back from a gurglin' cracklin' cauldron
In some train yard
My beard a rustlin' coal pile
And a dirty hat pulled low across my face.

Through cupped hands 'round a tin can
I pretend to hold you to my breast and find
That you're waitin' from the back roads
By the rivers of my memory
Ever smilin', ever gentle on my mind.

      Music is a thread that binds our souls together. Some people have pretty thin threads.

Manoel de Barros


Prefiro as máquinas que servem para não funcionar:

quando cheias de areia de formiga e musgo - elas
podem um dia milagrar de flores.
(Os objetos sem função têm muito apego pelo abandono.)

Também as latrinas desprezadas que servem para ter
grilos dentro - elas podem um dia milagrar violetas.
(Eu sou beato em violetas.)

Todas as coisas apropriadas ao abandono me religam a Deus.
Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!
(O abandono me protege.)

Ana Hatherly


Ó doçura
porque amargas tanto
a nossa tentação de florir
ao mesmo tempo sendo tudo
e nada?

Revista Querida, 1955



"O lugar da mulher é no lar. O trabalho fora de casa masculiniza."

Mário Cezar - Puta, por um segundo


Os seios ali,
troncos virgens, sem baptismo.
nenhuma boca, mesmo desconhecida,
insana
pousa sobre este aluvião de carnes.
quer um gozo. grunhir
húmida.
arrebentar toda castidade imposta.

Nicolas Poussin - Fuga para o Egipto



      Teremos de fazer o mesmo com os nossos filhos.

Albano Martins


Só o luto corrompe.
De amoras
maduras não te falo - trago-te
o verão num cesto
de morangos e papoilas, um
candelabro de medronhos
para as pulsões do inverno.
Digo-te:
a morte não nos pertence.

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