Migue-Manso - Nem tanta coisa depende


preferes o canto, o lugar oculto
a folhagem, a sombra, o quarto, este
saco de trigo: ouro de um texto
sobre a velha escrivaninha do real

lá fora o clarão do arvoredo
atalhos para a tingidura da paisagem
cá dentro menos caminho, outro

panorama; a presença tão-só
desabitada de uma pessoa, mistério sem
atributo ou função

sempre a desfeita de um coração
o cultivo intensivo das figuras
e sobram tristeza e dias ao corpo que escreve
no calabouço de uma manhã muito larga

reluzente de gotas de mel
enquanto os gatos lambem o sábado
e sentado, sapo de ouro, permites-te pôr no mundo
(mas porquê)outro poema

in, Ensinar o caminho ao diabo

Marta Gómez - Tierra, tan sólo tierra



Tierra, tan solo tierra para las heridas recientes.
Tierra, tan solo tierra para el nulo pensamiento.
Tierra, tan solo tierra para el que huye de la tierra.

Tierra, tan solo tierra; tierra desnuda y alegre.
Tierra, tan solo tierra; tierra que ya no se mueve.
Tierra, tan solo tierra de noches inmensa.

No es la ceniza en vil de las cosas quemadas
lo que yo vengo buscando, es tierra.

Tierra, tan solo tierra; tierra desnuda y alegre.
Tierra, tan solo tierra, tierra que ya no se mueve.
Tierra, tan solo tierra de noches inmensa.

No es la cenizas en vil de las cosas quemadas
lo que yo vengo buscando, es tierra.
Viento en el olivar. Viento en la sierra.

      Federico García Lorca

Dora Ferreira da Silva


voltamos ao jardim
ao banco lavado pela chuva.
Pedimos o verde ao verde
a flor à flor
sem quebrar-lhe a haste. Bastaria a manhã
(Nossa presença desalinha ar e folhas
num frémito.)

Mas se nada pedimos
como quem dorme seguindo a linha natural
do corpo
respiramos o puro abandono:
um pássaro alveja o azul (sem par)
ultrapassa o muro do possível
e assim damos um ao outro
a súbita presença
do Céu.

Marco Meloni - The Stories of Abraham. 1504





Sai da tua terra!

Ana Hatherly - Sem Amor


Viver sem amor
É como não ter para onde ir
Em nenhum lugar
Encontrar casa ou mundo

É contemplar o não-acontecer
O lugar onde tudo já não é
Onde tudo se transforma
No recinto
De onde tudo se mudou

Sem amor andamos errantes
De nós mesmos desconhecidos

Descobrimos que nunca se tem ninguém
Além de nós próprios
E nem isso se tem.

Miguel Torga


Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio,
Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.

in, Diário XV

T.S.Eliot

Aquele cadáver que plantaste o ano passado
no teu jardim já começou a despontar?
Dará flor este ano?

José Luís Peixoto

Tudo o que te sobreviveu me agride.

Björk, por Laura Levine

Ano 1991

Tempo


A maior parte da nossa vida
é gasta
a convencer a mente
do que o coração


há muito sabe.

      in, xilre. 

Paco Ibáñez - Palabras para Julia




De un poema de José Agustín Goytisolo, dedicado a su hija.

Tú no puedes volver atrás,
porque la vida ya te empuja,
como un aullido interminable,
interminable.
Te sentirás acorralada,
te sentirás, perdida o sola,
tal vez querrás no haber nacido,
no haber nacido.
Pero tú siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí
pensando en ti, pensando en ti,
como ahora pienso.
La vida es bella ya verás,
como a pesar de los pesares,
tendrás amigos, tendrás amor,
tendrás amigos.
Un hombre solo, una mujer,
así tomados, de uno en uno,
son como polvo, no son nada,
no son nada.
Entonces siempre acuérdate,
de lo que un día yo escribí,
pensando en ti, pensando en ti,
como ahora pienso.
Nunca te entregues, ni te apartes,
junto al camino, nunca digas
no puedo más y aquí me quedo,
y aquí me quedo.
Otros esperan que resistas,
que les ayude tu alegría,
que les ayude tu canción,
entre sus canciones.
Entonces siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí,
pensando en tí, pensando en tí,
como ahora pienso.
La vida es bella ya verás,
como a pesar de los pesares,
tendrás amigos, tendrás amor,
tendrás amigos.
No sé decirte nada más,
pero tú debes comprender,
que yo aún estoy en el camino,
en el camino.
Pero tú siempre acuérdate
de lo que un día yo escribí,
pensando en tí, pensando en tí,
como ahora pienso.

      Dedico este poema-canção à Mariana, à Lara e à Dolores.

José Ricardo Nunes


Entrar em casa, ligar o portátil
e a impressora, rasgar
o que não se aproveita, pegar de novo
no que pode ter alternativa, carregar
de um lado para o outro, do corpo
para o papel e do papel
para o corpo, esmagar uma revolta e propagar
a respectiva contra-revolta, vingar os mortos
e os feridos de ambos os partidos,
jogar o corpo fora, estragar papel.

Luís Filipe Parrado


Estar vivo
é abrir uma gaveta
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não o esqueces. 

Peter Paul Rubens - Old Woman and Boy with Candles - 1616-1617



      An old woman gazes ahead, shielding her eyes from the candlelight, while the boy behind her holds his candle, ready to be lit.

Amalia Bautista


Se me dizem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e me esperes,
atravessarei a ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e atravessá-la-ei.

Jacques Prevért


Três fósforos acesos um a um durante a noite
O primeiro para ver o teu rosto inteiro
O segundo para ver os teus olhos
O último para ver a tua boca
E a escuridão inteira para recordar isso tudo
Enquanto te aperto nos meus braços.

Xuefei Yang - Manhã de Carnaval by Luiz Bonfá




Enchanting.

Domingos da Mota


No princípio era um bidão
Acasalou com uma bomba de gasolina
que pariu um rancho de jerricãs.

Dalai Lima


Lia lia lia lia
Lia lia todo o dia
Sucede que Lia,
Parece,
Não percebia
Patavina
Do que lia.

Inês Lourenço - Para um livro


O tempo que passei fechado sem
nenhum leitor, justificou ser
imolado pelas traças.

Claude Gaveau



A serenidade do belo.

João de Deus - Boas noites


Estava uma lavadeira
A lavar numa ribeira
Quando chega um caçador:
- Boas tardes, lavadeira!
- Boas tardes, caçador!

- Sumiu-se-me a perdigueira
Ali naquela ladeira;
Não me fazeis o favor
De me dizer se a brejeira
Passou aqui a ribeira?

- Olhai que, dessa maneira,
Até um dia, senhor,
Perdereis a calçadeira,
Que ainda é perda maior.

- Que me importa, lavadeira!
Aqui na minha algibeira
Trago dobrado valor...
Assim eu fora senhor
De levar a vida inteira
Só a ver o meu amor
Lavar roupa na ribeira!

- Talvez que fosse melhor...
Ver coser a costureira!
Vir de ladeira em ladeira
Apanhar esta canseira,
E tudo só por amor
De ver uma lavadeira
Lavar roupa na ribeira...
É escusado, senhor!

- Boas noites,... lavadeira!
- Boas noites, caçador!...

Mário-Henrique Leiria - Luz da lâmpada


A lâmpada é igual,
a luz é igual.
Mas a diferença operou-se em mim.
A lâmpada é igual,
a luz é igual.
Mas já não vejo o que via.
Acendia a lâmpada uma, duas vezes
e uma, duas vezes via a imagem d'Ela.
Acendo a lâmpada uma, duas vezes
e uma, duas vezes encontro o vácuo da moldura.
Acendo a lâmpada e nada vejo do que via sempre.
Apago a lâmpada
para criar, na escuridão,
o que não posso encontrar na realidade.
Nunca mais acenderei a lâmpada
porque me quero lembrar da outra luz.

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