Tonino Guerra


Antes que as gotas fizessem baloiçar os ramos
nós, por trás da janela, esperávamos
que a água lavasse as folhas escondidas.
Depois chovia que Deus a dava
e pusemos um copo no peitoril
a medir a água pluvial em centímetros.

Às quatro o sol apareceu
e sobre a janela o copo cintilava
pleno até à borda.

Eu e o meu irmão bebemos metade cada um
e comparámos a água do poço
com a do céu que é mais escorregadia
e contudo tem o sabor a relâmpagos.

in, O Mel
Trad. Mário Rui de Oliveira

Christ on the Lake of Gennesaret - Eugene Delacroix



      O mar da Galileia, também conhecido como mar de Tiberíades ou lago de Genesaré, é uma extensão de água doce localizada no Distrito Norte de IsraelOs evangelhos de Marcos e Mateus descrevem como Jesus recrutou quatro dos seus apóstolos nas suas margens: o pescador Pedro e seu irmão André, e os irmãos João e Tiago.
       A tela descreve um momento de aflição e falta de fé.

Fernanda de Castro


Tão só!
Cada vez são mais longos os caminhos
que me levam à gente.
(E os pensamentos fechados em gaiolas,
as ideias em jaulas.)
Ah, não fujam de mim!
Não mordo, não arranho.
Direi:
— «Pois não! Ora essa! Tem razão».
Entanto, na gaiola,
cantarão em silêncio
os sonhos, as ideias,
como pássaros mudos.

Octavio Paz - A ponte


Entre instante e instante,
entre eu sou e tu és,
a palavra ponte.

Entras em ti mesma
ao entrar nela:
como um anel
o mundo fecha-se.

De uma margem à outra
há sempre um corpo que se estende,
um arco-íris.

Eu dormirei sob os seus arcos.

Katia Guerreiro - Ate ao fim




intensamente, amor
intensamente
ponho na minha voz esta saudade
que é feita de futuro no presente
e na ilusão é feita de verdade

intensamente, amor
intensamente

desesperando, amor
desesperando
por mesmo assim eu não te dizer tudo
mesmo ao lembrar-me de onde e como e quando
teu coração mudou
mas eu não mudo

desesperando, amor
desesperando

até ao fim, amor
até ao fim do mundo
tal qual Pedro e Inês
aqui te espero
aqui me tens a mim
neste mísero estado em que me vês

até ao fim, amor
até ao fim

      Letra: Vasco Graça Moura 
      Música: Tiago Bettencourt

Janelas do ser humano



Selecione as legendas (CC) para conhecer os países onde as imagens foram filmadas e o nome dos entrevistados.

Ricardo Reis - Vem Sentar-te Comigo, Lídia, à Beira do Rio


Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.
Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
                   (Enlacemos as mãos.)

Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
                   Mais longe que os deuses.

Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio.
Mais vale saber passar silenciosamente
                   E sem desassosegos grandes.

Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,
                   E sempre iria ter ao mar.

Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos,
Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro
                   Ouvindo correr o rio e vendo-o.

Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
No colo, e que o seu perfume suavize o momento —
Este momento em que sossegadamente não cremos em nada,
                   Pagãos inocentes da decadência.

Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois
Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos
                   Nem fomos mais do que crianças.

E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim — à beira-rio,
                   Pagã triste e com flores no regaço.

in, Odes

Glória de Sant'Anna - Poema Agreste


Não sei por que buscas palavras longas
para as coisas breves que nos assombram.

Não sei por que teces teias enormes
para as incertezas que nos envolvem.

Não sei por que insistes. Não sei porque insistes
em prender meus passos nesse limite.

Jaime Rocha


Não há cigarras nas árvores. Os besouros
fugiram. Apenas os grilos vêm beber aos
degraus das casas. O cão rodopia sobre
si mesmo encantado com a luz, mas a
mulher vive indiferente a tudo isso

Se houvesse aqui monumentos antigos
junto ao mar, ruínas arcos, cemitérios,
mas não, não existe nada,
diz a mulher.

É o seu corpo agora que se enrola no
vento à procura de um espaço pequeno
onde possa esconder os objectos e rezar.

in, Mulher inclinada com cântaro

Bartolomeo Veneto - The Circumcision of Christ. 1506




      No Antigo Israel, a circuncisão tinha de ser realizada no 8.º dia do nascimento. Tem o sentido de um sinal da aliança entre Deus e Abraão e seus descendentes e de um rito de inserção no povo eleito.

Armando Silva Carvalho - Terra navegável


Vamos pela tarde fora à procura de deus.
Depois do dia ter falhado com as suas promessas
o que nos sobra é tudo o que vai daqui até ao mar.

Transporto no coração a contagem dos passos

e na cabeça a língua que se prende
por engano ao céu da boca.

Será sempre preciso navegar em terra,

agarrar o que resta pela cintura e disfarçar o corpo
nu entre os rochedos.

Cada palavra é um remo, cada abraço perdido

uma bóia a menos no costado.
Os aparelhos da fala excrementos das gaivotas.

A tarde recolheu os últimos sinais da divindade.

Avançamos à procura da água
prometida.

Confundimos as ondas com os limos da garganta,

as cavernas com as muitas moradas, o destino
com mais um precipício antes da noite.

Antony and the Johnsons - Bird Gerhl




I am a bird girl
I am a bird girl
I am a bird girl now
I've got my heart
Here in my hands
I've got my heart
Here in my hands now
I've been searching
For my wings
I've been searching
For my wings some time
I'm gonna be born
Gonna be born
Into soon the sky
I'm gonna be born
Into soon the sky
'Cause I'm a bird girl
And the bird girls go to heaven
I'm a bird girl
And the bird girls can fly
Bird girls can fly.

      Images of Kaya Scodelario taken from Wuthering Heights

Alberto Pimenta - elegia


já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
é deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja

Harald Sohlberg







Harald Oskar Sohlberg (1869–1935) was a Norwegian neo-romantic painter.

Manuel Gusmão


aprende a falar - diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos. põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. então falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue, de assombro em
assombro.

Migue-Manso - Nem tanta coisa depende


preferes o canto, o lugar oculto
a folhagem, a sombra, o quarto, este
saco de trigo: ouro de um texto
sobre a velha escrivaninha do real

lá fora o clarão do arvoredo
atalhos para a tingidura da paisagem
cá dentro menos caminho, outro

panorama; a presença tão-só
desabitada de uma pessoa, mistério sem
atributo ou função

sempre a desfeita de um coração
o cultivo intensivo das figuras
e sobram tristeza e dias ao corpo que escreve
no calabouço de uma manhã muito larga

reluzente de gotas de mel
enquanto os gatos lambem o sábado
e sentado, sapo de ouro, permites-te pôr no mundo
(mas porquê)outro poema

in, Ensinar o caminho ao diabo

Marta Gómez - Tierra, tan sólo tierra



Tierra, tan solo tierra para las heridas recientes.
Tierra, tan solo tierra para el nulo pensamiento.
Tierra, tan solo tierra para el que huye de la tierra.

Tierra, tan solo tierra; tierra desnuda y alegre.
Tierra, tan solo tierra; tierra que ya no se mueve.
Tierra, tan solo tierra de noches inmensa.

No es la ceniza en vil de las cosas quemadas
lo que yo vengo buscando, es tierra.

Tierra, tan solo tierra; tierra desnuda y alegre.
Tierra, tan solo tierra, tierra que ya no se mueve.
Tierra, tan solo tierra de noches inmensa.

No es la cenizas en vil de las cosas quemadas
lo que yo vengo buscando, es tierra.
Viento en el olivar. Viento en la sierra.

      Federico García Lorca

Dora Ferreira da Silva


voltamos ao jardim
ao banco lavado pela chuva.
Pedimos o verde ao verde
a flor à flor
sem quebrar-lhe a haste. Bastaria a manhã
(Nossa presença desalinha ar e folhas
num frémito.)

Mas se nada pedimos
como quem dorme seguindo a linha natural
do corpo
respiramos o puro abandono:
um pássaro alveja o azul (sem par)
ultrapassa o muro do possível
e assim damos um ao outro
a súbita presença
do Céu.

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