Roberto Juarroz




uma invasão de palavras
tenta encurralar o silêncio
mas, como sempre, fracassa.

tenta de seguida encurralar as coisas
que habitam o silêncio,
mas também não o consegue.
e vai por fim cercar as palavras
que convivem com o silêncio,
mas então produz-se o imprevisto:
o silêncio converte-se em palavra
para proteger melhor as palavras
que convivem com ele.

e enquanto a invasão das outras palavras
se desvanece como um sopro furtivo,
completa-se o insólito:
as palavras que restam
assemelham-se agora muito mais ao silêncio
que as outras palavras.

Carlos Drummond de Andrade - A Porta


a porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só fazia o perfil de meia verdade.
e sua segunda segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
e os meios perfis não coincidiam.

arrebentaram a porta. derrubaram a porta.
chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
era dividida em metades
diferentes uma da outra.

chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
nenhuma das duas era totalmente bela.
e carecia optar. cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

Joan Baez performs The Carter Family's "I Will Never Marry."




Beauty is in her slightest breth.

Rui Caeiro (1943-2019)


Um sinaleiro invisível manda parar o trânsito
há uma pausa brutal no bulício da cidade
Soa a campainha da porta, entras furtiva-
mente, sorris acanhada e logo começas
a abandonar sapatos e a despir a roupa em gestos
sacudidos. Grande é a importância que me dás
Por momentos tudo vais trocar pelas minhas mãos.

in, O Quarto Azul e outros poemas

João Luís Barreto Guimarães - Um quarto de hotel


Não se chega a pertencer nunca a
quarto de hotel. Não se lhe ganha afecto (não
é nosso por inteiro) se é
certo que amanhã outro dono estará
emoldurado
ao espelho. Não se chega a confiar nele
(não se lhe lega segredos) sequer a
palavra impudica expurgada
da pele
pela toalha de banho. Não chega a
ser nossa a cama (não se molda
a nosso jeito) melhor que
nem te despeças dessa alcova pela manhã
quando sabes como é lesta a
entregar-se ao próximo viandante
por dinheiro.

Zoo










É pena o cachimbo de René Magritte. 

Raul de Carvalho


Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Sandy Denny - The Quiet Joys of Brotherhood



As gentle tides go rolling by,
Along the salt sea strand
The colours blend and roll as one
Together in the sand.
And often do the winds entwine
Do send their distant call,
The quiet joys of brotherhood,
And love is lord of all.

The oak and weed together rise,
Along the common ground.
The mare and stallion light and dark
Have thunder in their sound.
The rainbow sign, the blended flower
Still have my heart in thrall.
The quiet joys of brotherhood,
And love is lord of all.

But man has come to plough the tide,
The oak lies on the ground.
I hear their tires in the fields,
They drive the stallion down.
The roses bleed both light and dark,
The winds do seldom call.
The running sands recall the time
When love was lord of all.

      Conheci a canção na altura em que Sandy morreu. Hoje, com 62 anos, entendo melhor a mudança do tempo verbal na última estrofe. É difícil fazer melhor na arte das canções. "We miss you Sandy". 

Eugénio de Andrade - O Inominável


Nunca
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silêncio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos
e nada nos une
- nem sequer sabemos se tens nome.

Inês Lourenço - Para um livro


O tempo que passei fechado sem
nenhum leitor, justificou ser
imolado pelas traças.

Inês Lourenço


Ganhar é quase sempre
um verbo obsceno. Porque para um vencedor
há sempre outro que perde a quem chamam
vencido. E assim a sábia Natureza
e as coisas que a habitam
estão provavelmente enganadas. Porque
uns se derrotam aos outros sendo
que alguns muito ganham e outros
muito perdem. Mas
os perdedores são sempre o sal da Terra.

Correggio - Noli Me Tangere. 1525



      Após a ressurreição, ao encontrar Maria Madalena, Jesus terá dito "Não me toques!" (João 20, 17). Com Tomé, Jesus tem uma atitude diferente. 

Donovan Leich - Isle of Islay




How high the gulls fly o'er I lay
How sad the farm lad deep in play
Felt like a grain on your sand

How well the sheep's bell music makes
Roving the cliff when fancy takes
Felt like a tide left me here

How blessed the forest with birdsong
How neat the cut peat laid so long
Felt like a seed on your land.

      The song is for those who love secret sacred creation.

Emanuel Félix


Um homem pode amar uma pedra
uma pedra amada por um homem não é uma pedra
mas uma pedra amada por um homem

O amor não pode modificar uma pedra
uma pedra é um objecto duro e inanimado
uma pedra é uma pedra e pronto

Um homem pode amar
o espaço sagrado que vai de um homem a uma pedra

uma pedra onde comece qualquer coisa ou acabe
onde pouse a cabeça por uma noite
ou sobre a qual edifique uma escada para o alto

Uma pedra é uma pedra
(não pode o amor modificá-la nem o ódio)

Mas se a um homem lhe der para amar uma pedra
não seja uma pedra e mais nada
mas uma pedra amada por um homem

Ame o homem a pedra
e pronto.

Matilde Rosa Araújo


Chuva, porque cais?
Vento, aonde vais?
Pingue... Pingue... Pingue...
Vu... vu...vu...

Chuva, porque cais?
Vento, aonde vais?
Pingue... Pingue... Pingue...
Vu... vu...vu...

Ó vento que vais,
Vai devagarinho.
Ó chuva que cais,
Mas cai de mansinho.
Pingue... Pingue...
vu... vu…

Muito de mansinho
Em meu coração
Já não tenho lenha
Nem tenho carvão...
Pingue... Pingue...
vu... vu…

Que canto tão frio,
Que canto tão terno,
O canto da água,
O canto do Inverno...
Pingue...

Que triste lamento,
Embora tão terno,
O canto do vento
O canto do Inverno...
vu...

E os pássaros cantam
E as nuvens levantam.

      O Inverno não chegou mas o poema contém os segredos sacros da estação.

Eugénio de Andrade


Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: "Não sujes
a toalha"; "Não comes a maçã?"
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.

English Cottages





      Originally in the Middle Ages, cottages housed agricultural workers and their families. The term cottage denoted the dwelling of a cotter. Thus, cottages were smaller peasant units. In that early period, a documentary reference to a cottage would most often mean, not a small stand-alone dwelling as today, but a complete farmhouse and yard.

      in, Wikipedia

António Franco Alexandre


Quero dizer-te: não morras.
Nem me digas quem és, quem foste, como sabes a língua que se fala sobre a terra.
Ao lume lanço
toda a vontade de viver, ser vivo,
a cautela do ar, ardendo em torno.
Passarei, terás passado em mim, só quero
dizer-te: não morras nunca, agora, nunca mais.

Federico Garcia Lorca


- Mamá.
Yo quiero ser de plata.
- Hijo,tendrás mucho frío.

- Mamá.
Yo quiero ser de agua.
- Hijo, tendrás mucho frío.

- Mamá.
Bórdame en tu almohada.
- ¡Eso sí!¡Ahora mismo!

Santo Agostinho


      Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.

Iron & Wine - Naked as We Came




She says 'wake up, it's no use pretending'
I'll keep stealing, breathing her.
Birds are leaving over autumn's ending
One of us will die inside these arms
Eyes wide open, naked as we came
One will spread our ashes 'round the yard.

She says 'If I leave before you, darling
Don't you waste me in the ground'
I lay smiling like our sleeping children
One of us will die inside these arms
Eyes wide open, naked as we came
One will spread our ashes round the yard.

      Sam Beam entoa canções folk com o nome curioso de Iron and Wine. É um criador de pérolas, punhados de canções-poema lo-fi que não são lo-folk. Nesta, a infância e a velhice sorriem da mesma maneira em corpos nus.

José Carlos Capinan


Quero te dar um vestido com um desenho que ainda
não sei como será
Penso frutas, dragões, sereias
Fantasias que nem ainda sei bordar
Mas quero te dar um vestido, quem sabe de areia
Quem sabe de uma linha que não se saiba coser
Penso te dar um vestido bordado de ambos os lados
do querer
Nem te quero vestir
Nem quero que o vejas nem que o queiras talvez
quero te dar um vestido que a minha alma deseja.

Sandro Botticelli - Agony in the Garden



      É uma tela de Botticelli diferente do padrão. De acordo com os evangelhos, logo após a Ceia, Jesus resolveu retirar-se para orar no jardim conhecido por Getsémani. Pediu aos discípulos que permanecessem acordados e rezassem também. Retirou-se à distância de "um tiro de pedra" e, ali, sentiu uma angústia enorme, dizendo «Pai, se é do teu agrado, afasta de mim este cálice; contudo não se faça a minha vontade, mas a tua.» Entretanto, os apóstolos dormiam. Um anjo vem do céu para fortalecê-Lo.

Alberto Pimenta - Beau Monde


Vejo as flores,
não sei o nome,
não figura nas pétalas,
vejo dentro da minha cabeça
onde passeia o aroma nocturno
de Verão,
mas já não o respiro.

O que neste momento respiro
pertence à temporada petrolífera.
Até os gatos se foram embora.

Tanto abandono
à minha volta.

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