Não, não me peças nada que tenha princípio
e fim.
Madre Teresa
"Não
podemos esquecer que a pele se enruga, o cabelo embranquece, os
dias se convertem em anos... mas o que é importante não muda."
Diz-se,
que só muda quem é inteligente. Para provar que são "inteligentes", há
gentes a dar cambalhotas na vida de poucos em poucos anos, alguns de poucos em
poucos meses. A Sra. Teresa diz-nos que "o importante, não muda".
Apenas, o que é assessório.
Alejandra Pizarnik - Quarto Solitário
Se te
atreveres a surpreender
a
verdade desta velha parede;
e as
suas fissuras, fendas,
formando
rostos, esfinges,
mãos,
clepsidras,
seguramente
virá
uma
presença para a tua sede,
provavelmente
partirá
esta
ausência que te bebe.
Ana Martins Marques - Poema de trás para frente
A
memória lê o dia
de
trás para frente
acendo
um poema em outro poema
como
quem acende um cigarro no outro
que
vestígio deixamos
do que
não fizemos?
como
os buracos funcionam?
somos
cada vez mais jovens
nas
fotografias
de
trás para frente
a
memória lê o dia.
David Mourão-Ferreira
Nós
temos cinco sentidos:
são dois pares e meio d'asas.
- Como quereis o equilíbrio?
são dois pares e meio d'asas.
- Como quereis o equilíbrio?
A Blonde comes into the library
The Clean Energy Project is sponsored by
Statoil, Shell and Total. Oil companies.
Andrea Previtali - The Annunciation. 1508
Lucas 1:38 "Disse, então, Maria: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em
mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela."
João Rasteiro
Ambiciono
o relâmpago nu.
Só o
silêncio acorda a sílaba
e a
desperta para a pestilência.
Domingos da Mota
Não
pude ir ao lançamento,
não
assisti à sessão.
- Isto
serve de lamento?
- Não.
Pudesse
ir, e tinha ido,
mas
não pude, e a razão
ultrapassa
o sentido
da
pior cogitação.
Aurelino Costa
é
comovente, a tua poesia
chego a ter pena de ti e às vezes medo
ardes-me na mão como uma brasa ao rubro
e eu sinto-a e apetece-me levá-la à boca, queimar-me.
adorava que me visitasses mais vezes
tens um quarto cá em casa, louceiro, agasalho
e pão, ainda fresco, coberto com um pano, na masseira de pinho
aguardarei todos os dias, enquanto pascerei vacas até que venhas
e ordenharei úberes brancos, de leite branco e espumoso, meu poeta.
não te esqueças, às vezes tenho fome, muita fome e o jejum mata-me.
chego a ter pena de ti e às vezes medo
ardes-me na mão como uma brasa ao rubro
e eu sinto-a e apetece-me levá-la à boca, queimar-me.
adorava que me visitasses mais vezes
tens um quarto cá em casa, louceiro, agasalho
e pão, ainda fresco, coberto com um pano, na masseira de pinho
aguardarei todos os dias, enquanto pascerei vacas até que venhas
e ordenharei úberes brancos, de leite branco e espumoso, meu poeta.
não te esqueças, às vezes tenho fome, muita fome e o jejum mata-me.
Nat King Cole - Smile
The wonderful Nat
King Cole singing a brilliant Charles Chaplin's song. Is life a tragedy or a comedy?
Alastair Reid - A Uma Criança ao Piano
Toca outra
vez; mas agora
com mais
respeito pelo movimento na origem dele,
e menos
atenção ao tempo. O tempo está
curiosamente
no decurso dele.
Toca outra
vez; não olhando
para o
dedilhar, mas esquecendo, e deixando que flua
o som até que
te rodeie. Não contes
ou sequer
penses. Deixa ir.
Toca outra
vez; mas tenta que não sejas
ninguém, nada,
como se o andamento
do som apenas
fosse o coração que bate, como se
a música fosse
o teu rosto.
Toca outra vez.
Seria bem melhor
pensar menos e
menos nas notas, no compasso.
É tudo uma
estrutura de silêncio. Sê silente, e então
toca para teu
prazer.
Toca outra
vez; e, desta, ao acabares,
não me
perguntes o que eu penso. Sente o que acontece
estranhamente
na sala enquanto o som fica suspenso
em ti, em mim,
em tudo.
Agora,
toca outra
vez.
José Luís Peixoto - Amor
fico
admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem
motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu
sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que
existe uma parte de nós
que
deixou de nos pertencer.
o
amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de
nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor
é ter medo e querer morrer.
in,
A Criança em Ruínas
Alberto Pimenta - Puridade
A comunicação é impossível diz ele. como é que sabes digo eu.
porque o que eu digo não é devidamente
interpretado pelos outros diz ele.
como é que sabes digo eu. estudando a
interpretação que os outros dão à
minha comunicação diz ele. mas como
é que sabes a interpretação que os
outros dão à tua comunicação digo eu.
falando com eles diz ele. mas se a
comunicação é impossível digo eu.
por isso mesmo é que tu não mentendes
diz ele.
Danil Harms
Pensei
muito: como é que apareceu um tigre na rua?
pensei pensei,
pensei pensei,
pensei pensei,
pensei pensei,
soprou o vento neste momento,
e eu esqueci o pensamento.
Por isso continuo sem saber como é que na rua terá aparecido um tigre.
pensei pensei,
pensei pensei,
pensei pensei,
pensei pensei,
soprou o vento neste momento,
e eu esqueci o pensamento.
Por isso continuo sem saber como é que na rua terá aparecido um tigre.
Tradução de Nina e Filipe Guerra
Miguel Torga - Oferenda
Cumpro o que
prometi:
Dou-te o melhor que tenho, versos.
Não queiras mais.
O resto
É o lastro reles da minha humanidade.
As doenças do corpo,
As misérias da alma
E o medo da morte,
Sujas negruras de que me envergonho.
Tudo, porém, é limpo e luminoso
Quando o sol radioso
Da poesia
Me visita.
E são esses instantes que deponho
No teu altar.
Instantes em que sonho
Que és a deusa capaz de me salvar.
Dou-te o melhor que tenho, versos.
Não queiras mais.
O resto
É o lastro reles da minha humanidade.
As doenças do corpo,
As misérias da alma
E o medo da morte,
Sujas negruras de que me envergonho.
Tudo, porém, é limpo e luminoso
Quando o sol radioso
Da poesia
Me visita.
E são esses instantes que deponho
No teu altar.
Instantes em que sonho
Que és a deusa capaz de me salvar.
Leonard Cohen and Anjani Thomas
When Cohen speaks, it sounds like a poem.
Now it seems as though it was written in anticipation
of Leonard's passing. Poignant. Thanks for the dance Leonard.
Thanks for the dance
I'm sorry, you're tired
The evening has hardly begun
Thanks for the dance
Try to look inspired
One two three, one two three one
Thanks for the dance
I'm sorry, you're tired
The evening has hardly begun
Thanks for the dance
Try to look inspired
One two three, one two three one
There's a rose
in my hair
My shoulders are
bare
I've been
wearing this costume forever
Turn up the
music, pour out the wine
Stop at the
surface, the surface is fine
We don't need to
go any deeper
Thanks for the
dance
I hear that
we're married
One two three,
one two three one
Thanks for the
dance
And the baby I
carried
It was almost a
daughter or a son
And there's
nothing to do
But to wonder if
you
Are as hopeless
as me and as decent
We're joined in
the spirit
Joined at the
hip, joined in the panic
Wondering if we've
come to some sort
Of agreement.
It was fine it
was fast
I was first I
was last
In line at the Temple
of Pleasure
But the green
was so green
And the blue was
so blue
I was so I and
you were so you
The crisis was
light as a feather.
Lídia Jorge
Mãe, por onde passei, apesar de limpar
sujei. Cultivei flores, mas foram mais
as que
arranquei do que as outras, as que
reguei
no horto. Não matei animais
mas a guilhotina do talho trabalhou
para mim, noite e dia. Assim, se
sobrevivi
foi porque alguém morreu para meu bem.
Juro por Deus que desejei que fosse
perfumada
a superfície onde pousei os lábios, e no
entanto
dela me desviaram pensamentos outros
que tomei por sábios.
Quis olhar para as alturas e deixei-me
curvar
na direcção do chão, lá onde o meu pé
direito
ganhou, sob a tira do sapato, a mancha
de uma
roedura - E conclusão.
Daqui irei e pouco mais farei do que
deixar
uns escritos sobre o mundo onde eu
queria só erguer
e no entanto, como em tudo, fiz parte
da ruína que eu não queria.
Esposa de David, a quem a minha mentira
não consente
sobre tudo o que não nomeei, os teus
conselhos
de fulgor e perfeição, assim serão.
in, O Livro das Tréguas
Leonardo
de cada vez que deus morre
um peixe abre a boca
a verdade imita o silêncio
meu amor.
in, caderno de mitos pessoais. S/c.: Ed.
Artes e Letras, 2018, p 18.
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