Condição


- O que é aquela bolinha, mãe?
- Um planeta, uma lua, uma lua de Saturno.
- Porque é que Saturno é tão grande?
- Para comer a bolinha.
- E ela não tem medo?
- Não, porque ainda falta muito tempo. 
- No Capuchinho Vermelho era mais rápido.
- Mas isso é uma história. Aqui é verdadeiro, 
  daqui a muito tempo a bolinha cairá na boca de Saturno.
- E não aparecem os caçadores a salvar a bolinha?
- Não. A gravidade manda nos caçadores. 
  A vida é difícil. O lobo é mesmo mau.

      in, Abrupto

Ademar - A minha gramática afectiva


Se eu 
te adjectivasse
não estaria a dizer-te,
mas 
ainda e sempre a dizer-me.
Prefiro pois substantivar-te.

Tamar&Netanel - It Ain't Me Babe



Dylan no palco da natureza. A voz de Tamar é "haunting" e "flawless". 

Lucas Cranach the Elder - Diana and Actaeon. 1550



      O mito de Diana e Actéon encontra-se na obra Metamorfoses de Ovídio. O conto narra o destino infeliz de um jovem caçador chamado Actéon, no seu encontro com Artemis - Diana para os romanos - deusa da caça e conhecida pela sua castidade. No episódio, a deusa está nua e desfruta de um banho, durante a primavera, com a ajuda da sua escolta de ninfas, quando um homem mortal inconscientemente se depara com a cena. As ninfas gritam de surpresa e tentam cobrir Diana.
      Ele é transformado num veado com chifres e perde a sua capacidade de falar. Em seguida, foge com medo. O tema era popular no tempo do Renascimento.

      in, Wikipedia

Eugénio de Andrade


Já não se vê o trigo,
a vagarosa ondulação dos montes.
Não se pode dizer que fossem contigo,
tu só levaste esse modo

infantil de saltar o muro,
de levar à boca
um punhado de cerejas pretas,
de esconder o sorriso no bolso,

certa maneira de assobiar às rolas
ou então pedir um copo de água,
e dormir em novelo,
como só os gatos dormem.

Tudo isso eras tu, sujo de amoras.

Vítor Matos e Sá



Toma – é para ti
esta primeira rosa

Tem o nome tranquilo
das coisas que ninguém chama

Dorme de olhos leves e é talvez
O vulto mais puro da ternura

Morre, depois, de ser tão plena
e cai, no último instante, para dentro
de todos os dias que a guardaram.

Renata Correia Botelho




sinto deus, todas as noites, nos lírios
de Monet. olham para mim,
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.

Laboratorium Pieśni - Koło mego ogródecka



      This is a Polish folk song 'Koło mego ogródecka', whose title can be translated by ‘Near my garden’ performed and arranged by the Polish group Laboratorium Pieśni, in Grandma Kazia's garden, full of cake and homemade liquor.

      Translation:

Near my garden
Near my garden an apple tree was blooming
It was blooming in white
It was blooming in white and had red apples.

And who would collect them for me?
And who would collect them for me,
while Jasio got angry?
He got angry and I don't know why
He got angry and I don't know why, 
and was visiting me, I don't know why.

And he kept coming all spring long
And he kept coming all spring long,
he was asking my mother when I'll grow
And he kept coming all summer long
And he kept coming all summer long,
I' was giving him a kiss for that.

And he kept coming all autumn long
And he kept coming all summer long,
I was putting apples in his pocket
And he kept coming all winter long
And he kept coming all winter long,
I was letting him under my eiderdown.

      As the poet said "A thing of beauty is a joy forever".

Amalia Bautista


Que a vida te pareça suportável.
Que a culpa não afogue a esperança.
Que não te rendas nunca.
Que o caminho que sigas seja sempre escolhido
entre dois pelo menos.
Que te interesse a vida tanto como tu a ela.
Que não te apanhe o vício
de prolongar as despedidas.
E que o peso da terra seja leve
sobre os teus pobres ossos.
Que a tua recordação ponha lágrimas nos olhos
de quem nunca te disse que te amava.

      Os desejos maiores desta poetisa espanhola, como um lamento.

Lucas Cranach the Elder - Bacchus at the Wine Vat. 1530



      Não se sabe a diferença entre o poder e a impotência.

Melanie Safka - Beautiful People



Beautiful people
You live in the same world as I do
But somehow I never noticed
You before today
I'm ashamed to say.

Beautiful people
We share the same back door
And it isn't right
We never met before
But then
We may never meet again
If I weren't afraid you'd laugh at me
I would run and take all your hands.

And I'd gather everyone together for a day
And when we gather'd
I'll pass buttons out that say.

Beautiful people
Then you'd never have to be alone
'Cause there'll always be someone
With the same button on as you
Include him in everything you do.

Beautiful people
You ride the same subway
As I do ev'ry morning
That's got to tell you something
We've got so much in common
I go the same direction that you do
So if you take care of me
Maybe I'll take care of you.

Beautiful people
You look like friends of mine
And it's about time
That someone said it here and now
I make a vow that some time, somehow.

I'll have a meeting
Invite ev'ryone you know
I'll pass out buttons to
The ones who come to show.

Beautiful people
Never have to be alone
'Cause there'll always be someone
With the same button on as you
Include him in ev'rything you do
He may be sitting right next to you
He may be beautiful people too
And if you take care of him
Maybe he'll take care of you.

      Nos anos 60 e 70 não era preciso ir para os festivais de verão, os jovens gostavam mais de ouvir música de inverno. Fascinava-nos escutar, discutir os textos e identificar a beleza em cada canção. Assim, construíamos os afectos. Este tema da Melanie Safka é disso exemplo, um manual.

António Gedeão - Um Sorriso para Cibele


Aqui não há nada, Cibele,
a não ser uma alameda estreita
com renques de flores
à esquerda e à direita.

As flores são daquelas
de que eu não gosto, Cibele.
Pretenciosas.
Zínias, dálias, crisântemos, margaridas e rosas.

As flores de que eu gosto
são das que ninguém planta nem semeia,
Daquelas que a gente passa e diz:
«Olhe, faz-me favor.
sabe-me dizer como se chama esta flor?»

Não gosto delas, não,
Mas à falta de melhor, Cibele,
É nelas que cevo a minha solidão.

Todas as manhãs,
quando aqui passo para as ver,
acaricio-as à flor da pele
e balbucio as palavras
que ficaram por dizer.

Assim se vai passando o tempo, Cibele.

      Este é o poema mais triste e belo da Literatura Portuguesa. Como disse John Keats no seu poema Endymion "A thing of beauty is a joy forever". 

Viana do Castelo - Senhora da Agonia







      "Se o meu sangue não me engana como engana a fantasia, havemos de ir a Viana ó meu amor de algum dia" cantava Amália Rodrigues. É das tradições mais genuínas e alegres de Portugal. Neste ano de 2019, um total de 619 mulheres participaram no tradicional Desfile da Mordomia pelas ruas de Viana do Castelo, levando no peito kilos de ouro que simbolizam a "chieira" (termo minhoto que significa 'orgulho') e outrora o poder financeiro das famílias. 

Reinaldo Ferreira


Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São d'ónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto que buscava na poesia,
Na paisagem, na música,
Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo lábios, olhos, dentes.

      A desconstrução das metáforas, elas enriquecem a lírica mas não devem anular a realidade. O poema de amor é eternamente belo.

Daniel Faria


As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos – digo,
As mulheres – ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos – no pescoço das mães – ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.

      A morte precoce deste poeta foi uma "burrice" de Deus.

The Rolling Stones - The Last Time



They were so young. We were so young. It was a great time to be alive.

This song was inspired by a 1955 gospel called "This May Be The Last Time" by The Staple Singers. The Stones changed the meaning of the song, making it into a stern message to a girl. The Staples version had a more uplifting message and was much more spiritual.

Eugénio de Andrade


Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

Eugénio de Andrade


Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.

Ana Gonçalves


Amiga:
sabemos de cor cada gesto de inclinarmos as cabeças
quando sorrimos
mas ainda confundes o vermelho
com as horas azuis de que te falo.

Artemisia Gentileschi and Baldassare Franceschini - Allegory of Inclination for Art



O aprendiz a criador.

Marta Chaves


Esta cidade está repleta de pequenos raptos,
de andaimes suspensos no tempo da minha memória.

Nisto,
refaço-me de altíssimas quedas
com um esgar que me mantém refém
do vício.

desta violência de trazer o teu nome nos lábios,
como um sorriso em que me desfaço.

in, Onde não estou tu não existes

Edgar Lee Masters


Algumas almas benévolas pensavam que o meu génio
fora de algum modo prejudicado pela loja.
Mas não era verdade.
A verdade era só esta:
eu não tinha inteligência que chegasse.

Elizabeth Mitchell and Friends - January, February (Last Month of the Year)




      This is an old African American Christmas spiritual from Ruth Crawford Seeger's songbook, American Folk Songs for Christmas (1953). It is performed here by Amy Helm (lead vocals), Byron Isaacs, Daniel Littleton, Elizabeth Mitchell, Simi Stone, and Ruthy Ungar.

José Agostinho Baptista - Caderno


Tudo o que fizemos e dissemos e amámos — ou
talvez nem isso —
cabe num mísero caderno onde o esplendor não
lança os seus raios.
De mais ou menos palavras se faz o tempo de
semear,
mas nenhuma colheita retomará o calor do feno,
nada que se possa tocar com a alegria dos dedos,
nada de inocente e sagrado
que nos deixe adormecer sobre o linho.

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