Florbela Espanca - Inconstância

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à Vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer...
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando...

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também... nem eu sei quando.


    É perigoso amar demais.

António Alçada-Baptista



      Depois eu fui crescendo e via-se que a tia Suzana fazia o possível por adivinhar aquilo que se ia passando por dentro de mim. Gostava muito que eu lesse:
- Os livros são bons porque, sempre que nos sentimos sós e não temos coisas para dizer a nós mesmos, podemos falar com eles. Sabes, eu acho que as pessoas desejam viver muito e vivem pouco. Com os livros, a gente sempre faz viagens, conhece pessoas, aprende a interrogar-se e tem oportunidade de viver e de sentir coisas que a vida não lhe deu. Outras vezes penso o contrário: que os livros entretêm a nossa fome de viver e se calhar disfarçam e adiam a obrigação que temos de procurar a vida.

      in, Tia Suzana, Meu Amor

Гуцулка Ксеня 1956 Ukrainian tango





The dark night enveloped the mountains
Flooding in all of the pastures
Leaving just a snow, - white outline
The Hutzul, Ksenu there had met.

He looked into her eyes of blue
At first quietly, at the pine tree
And these words of tender love
He to her, there did say:

Hutzulko Ksenu,
I for you on the trembita,
The only one in this whole world
Will I tell you, of my love.
My soul does suffer,
The sound of the trambita resounding
And for what the heart does desire,
It's aflame like the fire.

     Os versos desta melodia russa, oriundos de uma tradução possível, mostram-nos a natureza local e o amor. 

Paul Delvaux.- La Fenêtre



The within without sides.

Gonçalo M. Tavares - A Mesa


A mesa tem uma qualidade: não deixa cair as coisas.
Não interfere no mundo: a mesa recebe, ampara.
Não julga, não dá instruções excessivas.
Recebe,
ampara,
não deixa cair.
Sobre ela as coisas claras permanecem claras, e não caem.
As escuras permanecem escuras, e não caem.

Francisco José Viegas - Regresso por outro rio


se regressar, será aos teus olhos que regresso.
os acasos ardem nos lábios dos amieiros que na margem do rio
aguardam que regresse. a isso regresso, buscando
coincidências e nomes, razões. afasto-me
provavelmente de ti, embora secretamente.

é por isso estranha a forma como os acasos ardem
para sempre. a outro rio e sob outras sombras
regresso, devagar para não ferir o que antes amei
e por quem morri muitas vezes. agora de novo morro

e por outro rio regresso até ao lugar onde elas, as aves,
nascem para não desaparecerem. e isso é como permanecer.

Tracy Newman - Pick A Bale of Cotton




Jump down, turn around and pick a bale of cotton
Jump down, turn around and pick a bale a day
Jump down, turn around and pick a bale of cotton
Jump down, turn around and pick a bale a day.

Oh, Lordy, pick a bale of cotton
Oh, Lordy, pick a bale a day
Oh, Lordy, pick a bale of cotton
Oh, Lordy, pick a bale a day.

Me and my man, we can pick a bale of cotton
Me and my man, we gonna pick a bale a day
Me and my man, we can pick a bale of cotton
Me and my man, we can pick a bale a day.

Believe my soul, I pick a bale of cotton
Believe my soul, I gonna pick a bale a day
Believe my soul, I gonna pick a bale of cotton
Believe my soul, I gonna pick a bale a day.

      The song, particularly its original lyrics, has been criticized as racist and reminiscent and glorifying of the slavery period in American history. The original lyrics contained the racial slur "nigger" multiple times. One of the verses, according to American Ballads and Folk Songs, goes like this: "Dat nigger from Shiloh/ Kin pick a bale o' cotton/ Dat nigger from Shiloh/ Kin pick a bale a day".

Mário Cesariny


Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça.

Juan de Borgoña - Virgin and Child with the Infant Saint John





A arte sacra cristã. 
Mesmo que a fé seja menor que o antigo grão de mostarda, há a beleza. 

Maria do Rosário Pedreira


São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera
gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar
trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,
mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto

à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo
os livros, escondo as cartas, viro os retratos
para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,
sei que não voltas, e ouço dizer que as aves
partem sempre assim, subitamente. Outras virão

em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.

      Em vez de ser sempre tão Penélope, tente também ser Ulisses.

Álvaro de Campos


Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios -
Os melhores lírios -
E as melhores rosas
Sem receber nada,
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.


      O poema surpreende por parecer de Caeiro, não de Campos.

A Summer workshop sings 'Because'




This gives us hope. This is the future with the beauty of our highest aspirations.

A capa de Abbey Road faz 50 anos



      Paul McCartney disse recentemente que "os The Beatles até ensinaram como se põe fim a uma banda". A foto foi tirada por volta das 11h35 da manhã, do dia 8 de Agosto de 1969, pelo fotógrafo escocês Iain Macmillan e anuncia que os quatro iriam abandonar o lugar onde tinham estado e passar para um outro lado de forma segura. O V simétrico das pernas e a mesma distância entre eles provavam que apesar das diferenças - que se notam nas roupas, por exemplo - eles eram um todo.

António Maria Lisboa


As formas, as sombras, a luz que descobre a noite
e um pequeno pássaro

e depois longo tempo eu te perdi de vista
meus braços são dois espaços enormes
os meus olhos são duas garrafas de vento

e depois eu te conheço de novo numa rua isolada
minhas pernas são duas árvores floridas
os meus dedos uma plantação de sargaços

a tua figura era ao que me lembro
da cor do jardim.

José Agostinho Baptista


Resultado de imagem para acácias

Não é música o que ouvimos.
Não é de água este brilho de prata.

Eu estou aqui sobre as pontes do rio.
Outros são os que espreitam pela bruma das margens.

Talvez me lembre:
tu vinhas devagar pelo lado das acácias.
Cingias cada árvore e as colunas, os braços de um
deus cruel, o saber dos templos.

Não é um salmo o que ouvimos.
Não é de harpas este lamento,
não é o ofício das mãos esculpindo um rosto,
não é a palavra de deus que ecoa nas escarpas.

Algures te ocultas e não deixas sinais.
Quem és tu
cujo perfil se desvanece, cuja doçura se perde nos
confins da tarde?

Eu estou aqui onde se unem as margens, onde escurecem
as sendas e as sombras,
onde correm as nuvens, as pedras, as águas.

Outros são os que te aguardam pelo lado das acácias.

Cynthia Lennon



"Of course I love him.", "There's no reason on Earth why I should hate him."

Aviso


Francisco José Viegas


Despede-te de mim, bate devagar à porta:
tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,
ruínas, tarefas de pão e linho, não dar
nome às coisas senão o de um vago esquecimento,

abandono. Despede-te de mim como se a vida
recomeçasse agora, não me procures onde
a memória arde e o destino se ausenta.

Tudo são banalidades, afinal, quando assim
se recomeça e a vida falha como um material
solar e ilhéu. Levamos poucas coisas, basta
um pouco de ar, os objectos fixos em repouso,

os muros brancos de uma casa, o espaço
de uma mão. Arrumo as malas e os sinais,
aquilo que nos adormece em plena tempestade.

Pedro da Silveira


Não ser mais que um cisco de terra: mas terra viva,
poeira
e aragem.
Ter um casaco feito de estrelas e sóis vagabundos
e um pouco de dia nascido dentro do coração.

Hiroshima, the 74th anniversary



It was brighter than a thousand suns.

John Riley · Josienne Clarke and Ben Walker




Fair young maid all in her garden,
Strange young man passer by
He said fair maid, will you marry me
This answer was her reply:

Oh no kind sir, I cannot marry thee
For I've a love who sails all on the sea
Though he's been gone for seven years
Still no man shall marry me.

What if he's in some battle slain
Or drowned in the deep salt sea
What if he's found another love
And he and his love both married be?

If he's in some battle slain
I will die, when the moon doth wane
And if he's drowned in the deep salt sea
I'll be true to his memory.

And if he's found another love
And he and his love both married be
I wish them health and happiness
Where they dwell across the sea.

He picked her up all in his arms
And kisses gave her one two and three
Saying weep no more my own true love
I am your long lost John Riley.

      A celebração de um herói irlandês. John Patrick Riley saiu da Irlanda devido à fome na ilha, na segunda parte do século XIX. Foi para a América, lutou na Guerra do México e voltou. A balada celebra o seu regresso e a sua fidelidade à ilha. 

Maria do Rosário Pedreira


Sete anos me aguardam de incertezas, O gato gordo,
sobre o muro, é apenas uma figura transitória. Tu vais
ficando, um livro abandonado no melhor
do enredo, aberto para sempre sobre a cama. Eu

sento-me à janela onde houve uma vez uma figueira.
E fico. Aguardo provavelmente a tua voz no silêncio
demorado dos quartos ao entardecer. E também adormeço,
se não for a memória do ruído ensurdecedor dos
espelhos, rebentando pela casa em mil pequenos cacos
incertos. Sete anos

para reler uma história demasiado conhecida ou
folhear um livro branco até ao fim. O gato já
desapareceu. Digo que escolhe, como tu, outra
cama para desafiar a lua. Eu não, eu eu fico.

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