John Riley · Josienne Clarke and Ben Walker




Fair young maid all in her garden,
Strange young man passer by
He said fair maid, will you marry me
This answer was her reply:

Oh no kind sir, I cannot marry thee
For I've a love who sails all on the sea
Though he's been gone for seven years
Still no man shall marry me.

What if he's in some battle slain
Or drowned in the deep salt sea
What if he's found another love
And he and his love both married be?

If he's in some battle slain
I will die, when the moon doth wane
And if he's drowned in the deep salt sea
I'll be true to his memory.

And if he's found another love
And he and his love both married be
I wish them health and happiness
Where they dwell across the sea.

He picked her up all in his arms
And kisses gave her one two and three
Saying weep no more my own true love
I am your long lost John Riley.

      A celebração de um herói irlandês. John Patrick Riley saiu da Irlanda devido à fome na ilha, na segunda parte do século XIX. Foi para a América, lutou na Guerra do México e voltou. A balada celebra o seu regresso e a sua fidelidade à ilha. 

Maria do Rosário Pedreira


Sete anos me aguardam de incertezas, O gato gordo,
sobre o muro, é apenas uma figura transitória. Tu vais
ficando, um livro abandonado no melhor
do enredo, aberto para sempre sobre a cama. Eu

sento-me à janela onde houve uma vez uma figueira.
E fico. Aguardo provavelmente a tua voz no silêncio
demorado dos quartos ao entardecer. E também adormeço,
se não for a memória do ruído ensurdecedor dos
espelhos, rebentando pela casa em mil pequenos cacos
incertos. Sete anos

para reler uma história demasiado conhecida ou
folhear um livro branco até ao fim. O gato já
desapareceu. Digo que escolhe, como tu, outra
cama para desafiar a lua. Eu não, eu eu fico.

Edvard Munch e Luís Miguel Nava




Sem outro intuito 
atirávamos pedras à água 
para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

      A água purifica pela vastidão, pela imersão, intimidade e pelo silêncio. 

Victor Matos e Sá


Quando os teus olhos absorvem
todas as cores da minha
mais íntima tristeza,
e compreendes e calas e prometes
um lugar qualquer na tua alma,
e a tua voz demora a regressar
ao neutro compromisso das palavras,

sei que as tuas mãos ajudariam
a limpar estas lágrimas antigas
por dentro do meu rosto.


      A beleza das paisagens interiores que suaviza a solidão.

L'Arpeggiata - Christina Pluhar: Cavalli - L’Amore innamorato "Piante Ombrose"




Piante ombrose
dove sono i vostri onori?
Vaghi fiori
dalla fiamma inceneriti,
colli, e liti
di smeraldi già
coperti
or deserti
del bel verde, io vi sospiro:
dove giro,
calda, il piede, e sitibonda,
trovo l'onda
rifuggita entro la fonte,
nella fronte
bagnar posso, ho 'l labbro ardente.
Inclemente:
si chi tuona arde la terra?
Non più Giove, ah non più guerra.

      Tudo aqui tem beleza própria. A execução do "Corneto" é brilhante, o canto é doce como o corneto, as cordas, a harpa, o theorbo,  o saltério e o órgão , todos instrumentos barrocos, mas o que mais emociona é o sentimento e compenetração que os músicos estampam. Muito belo.

Joaquim Matos


No regresso do olhar cresce a distância
um laço solto entre um corpo e outro corpo

Entre nós se abastece o universo

a sombra entre um porto e outro porto.

      in, Palavra indeferida

Manuel de Freitas


Desistir do rosto, dos propósitos, das
palavras. Há sílabas assim.
Com a vergonha do afecto
emprestada ao desalinho das mesas.

Por ali, encenando a imobilidade,
a rudeza de haver dor.
Eu sei que não virás.
Bebo por ti, sem ti, contra ti,
com o coração no bengaleiro
a fingir que não, não faz diferença.

E o pior é que até faz,
por muito que ninguém o saiba.

Ridolfo Del Ghirlandaio - The Annunciation. 1515






Todos os dias há uma anunciação na vida de cada um de nós. 

Federico Garcia Lorca - Corriente


El que camina
se enturbia.
El agua corriente
no ve las estrellas.
El que camina
se olvida.
Y el que se para
sueña.

Miguel Torga - Letreiro


Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.

El ruiseñor - Joselito




Una vez un ruiseñor
con las claras de la aurora
quedó preso de una flor
lejos de su ruiseñora.

Esperando su vuelta en el nido
ella vio que la tarde moría
Y a la noche cantándole al río
medio loca de amor le decía:

¿Dónde estará mi vida? ¿Por qué no viene?
¿Qué rosita encendida me lo entretiene?
Agua clara que camina, entre juncos y mimbrales
dile que tienen espinas las rosas de los rosales.

Dile que no hay colores que yo no tenga,
que me muero de amores.
Dile que venga.

Agua clara que caminas entre juncos y mimbrales
dile que tienen espinas las rosas de los rosales.

Dile que no hay colores que yo no tenga,
que me muero de amores.
¡Dile que venga!

James Archer



Pintor escocês do séc. XIX. O título da tela é The Death of King Arthur.

Cecília Meireles - Cantiguinha


Meus olhos eram mesmo água,
— te juro —
mexendo um brilho vidrado,
verde-claro, verde-escuro.

Fiz barquinhos de brinquedo,
— te juro —
fui botando todos eles
naquele rio tão puro.

Veio vindo a ventania,
— te juro —
as águas mudam seu brilho,
quando o tempo anda inseguro.

Quando as águas escurecem,
— te juro —
todos os barcos se perdem,
entre o passado e o futuro.

São dois rios os meus olhos,
— te juro —
noite e dia correm, correm,
mas não acho o que procuro.

Quino


Nuno Júdice


Quero escrever-te um poema que
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.

Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.

Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.

Eugenio Montale


Não tenho grande fé de encontrar-te
na vida eterna.
Era já problemático falar-te
na terrena.
A culpa é do sistema
das comunicações.
Descobrem-se muitas mas não aquela
que tornaria ridículas, e até inúteis,
as outras.

Rokiczanka




This culture must have come from heaven. So beautiful!

Maria Judite de Carvalho


Eu dantes tinha olhos verdes,
só agora reparei.
Verdes, viam tudo verde...
Porque eram verdes não sei.

Sorriam àquela flor
que havia na água parada
(verde flor na verde água
da vida transfigurada).

Hoje olham e reconhecem
que há muito mais cores para ver:
cor de flor que logo esquecem,
cor de charco a apodrecer.

Vítor Matos e Sá


Toma – é para ti
esta primeira rosa

Tem o nome tranquilo
das coisas que ninguém chama

Dorme de olhos leves e é talvez
O vulto mais puro da ternura

Morre, depois, de ser tão plena
e cai, no último instante, para dentro
de todos os dias que a guardaram.

Covers




Is this fair?

Cecília Meireles


Encostei-me a ti,
sabendo que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem
depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso,
e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar,
quando caí.

Daniel Faria


Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.

Amado Nervo - Lo más natural


Me dejaste -como ibas de pasada-
lo más inmaterial que es tu mirada.

Yo te dejé -como iba tan de prisa-
lo más inmaterial, que es mi sonrisa.

Pero entre tu mirada y mi risueño
rostro quedó flotando el mismo sueño.

Arquivo do blogue