Miguel Torga - Letreiro


Porque não sei mentir,
Não vos engano:
Nasci subversivo.
A começar por mim - meu principal motivo
De insatisfação -,
Diante de qualquer adoração,
Ajuízo.
Não me sei conformar
E saio, antes de entrar,
De cada paraíso.

El ruiseñor - Joselito




Una vez un ruiseñor
con las claras de la aurora
quedó preso de una flor
lejos de su ruiseñora.

Esperando su vuelta en el nido
ella vio que la tarde moría
Y a la noche cantándole al río
medio loca de amor le decía:

¿Dónde estará mi vida? ¿Por qué no viene?
¿Qué rosita encendida me lo entretiene?
Agua clara que camina, entre juncos y mimbrales
dile que tienen espinas las rosas de los rosales.

Dile que no hay colores que yo no tenga,
que me muero de amores.
Dile que venga.

Agua clara que caminas entre juncos y mimbrales
dile que tienen espinas las rosas de los rosales.

Dile que no hay colores que yo no tenga,
que me muero de amores.
¡Dile que venga!

James Archer



Pintor escocês do séc. XIX. O título da tela é The Death of King Arthur.

Cecília Meireles - Cantiguinha


Meus olhos eram mesmo água,
— te juro —
mexendo um brilho vidrado,
verde-claro, verde-escuro.

Fiz barquinhos de brinquedo,
— te juro —
fui botando todos eles
naquele rio tão puro.

Veio vindo a ventania,
— te juro —
as águas mudam seu brilho,
quando o tempo anda inseguro.

Quando as águas escurecem,
— te juro —
todos os barcos se perdem,
entre o passado e o futuro.

São dois rios os meus olhos,
— te juro —
noite e dia correm, correm,
mas não acho o que procuro.

Quino


Nuno Júdice


Quero escrever-te um poema que
tenha um sentido claro como o
que os teus olhos me disseram.

Poderia ser um poema de amor,
tão breve como o instante em
que me deixaste ver os teus olhos.

Mas o que os olhos dizem não cabe
num poema, nem eu sei como se diz
o amor que só os olhos conhecem.

Eugenio Montale


Não tenho grande fé de encontrar-te
na vida eterna.
Era já problemático falar-te
na terrena.
A culpa é do sistema
das comunicações.
Descobrem-se muitas mas não aquela
que tornaria ridículas, e até inúteis,
as outras.

Rokiczanka




This culture must have come from heaven. So beautiful!

Maria Judite de Carvalho


Eu dantes tinha olhos verdes,
só agora reparei.
Verdes, viam tudo verde...
Porque eram verdes não sei.

Sorriam àquela flor
que havia na água parada
(verde flor na verde água
da vida transfigurada).

Hoje olham e reconhecem
que há muito mais cores para ver:
cor de flor que logo esquecem,
cor de charco a apodrecer.

Vítor Matos e Sá


Toma – é para ti
esta primeira rosa

Tem o nome tranquilo
das coisas que ninguém chama

Dorme de olhos leves e é talvez
O vulto mais puro da ternura

Morre, depois, de ser tão plena
e cai, no último instante, para dentro
de todos os dias que a guardaram.

Covers




Is this fair?

Cecília Meireles


Encostei-me a ti,
sabendo que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem
depus a minha vida em ti.
Como sabia bem tudo isso,
e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar,
quando caí.

Daniel Faria


Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.

Amado Nervo - Lo más natural


Me dejaste -como ibas de pasada-
lo más inmaterial que es tu mirada.

Yo te dejé -como iba tan de prisa-
lo más inmaterial, que es mi sonrisa.

Pero entre tu mirada y mi risueño
rostro quedó flotando el mismo sueño.

Karine Polwart with Pippa Murphy - All on a Summer's Evening



As I was walking down yon hill
All on a Summer's evening
There I spied a bonny lass
Skipping barefoot through the heather

And oh but she was neatly dressed
She neither needed hat nor feather
She was the queen among them all
Skipping barefoot through the heather

She wore a gown o' bonny [?]
Her petticoats were a pheasant colour
And in between the stripes were seen
Shining bells of blooming heather

Oh dear lass would you gan with me?
Would you gan with me and leave your heather?
Silks and satins ye shall wear
If you gan with me and leave your heather

Oh oh oh oh oh oh oh

      Um rapaz jovem repara numa rapariga bonita que caminha descalça sobre urze.

Eugénio de Andrade


É outra vez abril
– e tão perfeito é o azul
que o estendo
ao longo do meu corpo.
Não sei de ninguém tão bem vestido!

Luciano de Giovanni - Os pássaros


Os pássaros 
conseguem voar
porque são
inocentes
não é questão
de asas.

Dalai Lima


Lia lia lia lia
Lia lia todo o dia
Sucede que Lia,
Parece,
Não percebia
Patavina
Do que lia.

      A beleza maior de ler está no acto de interpretar.

William Bouguereau - Crown of flowers



A intimidade com avental.

Alice Vieira



esperei por ti em todos os lugares errados
- a quem pedir agora explicações?

viver diziam-me era assim e não havia
mistério nenhum nisso apenas
um roteiro obscuro estabelecido
entre o que tem de acontecer e aquilo
que não acontece nunca

e diziam-me ainda ninguém pode
com justiça reclamar
o que há tantos anos abandonou
num sombrio patamar de prédio suburbano

perdemo-nos então
por pensamentos palavras actos e omissões
e todas as palavras recuaram por infinitos precipícios
sem reconhecerem o som da nossa voz
nem o eco das noites em que todas
nos tinham pertencido

num sombrio patamar de prédio suburbano.

Tracy Newman in 1965 - The Ship Titanic




      As melodias ligeiras dos anos 60 eram simples e belas e as que esta songwriter californiana – hoje com 70 anos – cantava são disso exemplo. Versos simples e limpos, sobre acontecimentos banais ou sérios, que nos faziam gostar de poesia e de cantar. Ligava-se o rádio e lá se encontravam, a quase todas as horas, os animadores da nossa afectividade e do nosso conhecimento.

Jo March








John March, o pintor de Cornwall que descreve o lado feminino da natureza.

Florbela Espanca


Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o Sol mais criador,
Mais refulgente a Lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida:
- Quanto mais funda e lúgubre a descida,
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa... em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!

      A gratidão serena dos sonhos maiores. 

Terra - Poema de Eugénio de Andrade


valter hugo mãe - as brincadeiras




brincávamos a cair nos braços
um do outro como faziam as actrizes
nos filmes com marlon brando e
suspirávamos sem saber habituar o
coração à dor

o amor um pelo outro como se a desgraça
nos servisse bem o peito todo em movimento
a vida podia durar um dia

doíam-me os braços e tu caías uma e outra vez
distante eu era um lugar abandonado
querias culpar-me por ser triste de outro modo
lento convicto culpado fui o primeiro a dizer que
amar é afeiçoar o corpo ao perigo

a minha mãe avisava valter tem cuidado
não brinques assim vais partir uma perna
vais partir a cabeça vais partir o coração
estava certa foi tudo verdade

      O valter ainda teve quem o avisasse. Sim, é tudo verdade.

Sandro Botticelli - Lucrezia Donati como Fortitude



      Decerto terá sido a pensar em Lucrezia Donati que Lorenzo de' Medici escreveu: «Porque quem procure diligentemente a verdadeira definição do amor, encontrará não ser outra que um apetite de beleza.» E que apetite de beleza leva um governante tão excecional que ficou conhecido como «O Magnífico» a escrever cento e quarenta sonetos e vinte canções à mulher que ama, sem a poder jamais nomear? E que apetite de beleza nos leva a nós a intrigarmo-nos com uma história de amor tão impossível que persiste viva seis séculos depois de despontar?

      in, xilre

Orar



      Tudo ora no mundo: as árvores da floresta e os lírios do campo, montes e colinas, rios e nascentes, os ciprestes sobre os montes e a infinita paciência da luz. Oram sem palavras: «Toda a criatura ora, cantando o hino da sua existência, cantando o salmo da sua vida». 

      in, Conferência Episcopal Japonesa

The small Czechoslovakian mining village of Lidice




Long live the Czech people and the martyrs of Lidice.

A pequena vila de Lídice








      Em 27 de maio de 1942, Reinhard Heydrich, então designado como administrador do Terceiro Reich na Boémia e Morávia, área ocupada pelas tropas nazistas há mais de três anos, dirigia-se da vila onde morava para seu escritório no centro de Praga, capital do país. Numa esquina perto do seu local de destino, o carro em que viajava foi emboscado por dois integrantes da resistência checa. Atingido pelos estilhaços de uma explosão, Heydrich, um dos idealizadores da Solução Final, morreria uma semana depois de infecção generalizada no hospital.
      Enraivecido pela morte de um de seus seguidores mais leais, Hitler ordenou ao substituto de Heydrich que fizesse de tudo e não poupasse vidas para achar os responsáveis pela morte do oficial nazista e vingar-se dos checos. Seguiu-se uma retaliação sangrenta e generalizada das tropas nazistas contra a população civil checa.
      Em 10 de Junho de 1942, aconteceria aquela que se tornaria a retaliação mais tristemente famosa pela sua crueldade. A pequena vila de Lídice, uma comunidade dedicada à mineração, perto da capital, foi cercada por tropas nazistas, impedindo a saída dos seus moradores. Todos os habitantes homens com mais de dezoito anos foram separados das mulheres e crianças, confinados num celeiro e fuzilados em pequenos grupos no dia seguinte.
      As mulheres e crianças da cidade foram todas enviadas para o campo de concentração feminino de Ravensbruck, onde a grande maioria viria a morrer de tifo e exaustão pelos trabalhos forçados. Após o assassinato e o desterro de toda a população, a cidade inteira foi demolida por explosivos e deixada apenas em terra, aplainada por tratores. Os alemães espalharam grãos e cevada pelo chão de toda a área para transformá-la em pasto. Cerca de 173 homens de Lídice morreram no massacre alemão,184 mulheres e 88 crianças foram deportadas para abrigos e campos de concentração. Uma outra pequena aldeia - Lezaky - localizada ao leste de Praga foi também destruída e seus habitantes executados. Além deste memorial no local, há um filme com o título ‘A Vila Silenciosa’ que relembra os factos.

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