Anda Jaleo Jaleo




Yo me subí a un pino verde
por ver si la divisaba,
y sólo divisé el polvo
del coche que la llevaba.

Anda jaleo, jaleo;
ya se acabó el alboroto
y ahora empieza el tiroteo.

En la calle de los muros
mataron a una paloma.
Yo cortaré con mis manos
las flores de su corona.

No salgas, paloma, al campo,
mira que soy cazador,
y si te tiro y te mato
para mi será el dolor,
para mi será el quebranto.

      Um tema cantado durante a Guerra Civil trabalhado por Lorca. 

Ricardo Tiago Moura


aos pés dos pássaros
semear migalhas
sem explicação:

(oração pequenina)

fazer encontrar
grão último
sentido

Manuel de Freitas - Um último nome


      Eu dantes escrevia poemas, como diria Karen Blixen da sua quinta em África ou Álvaro de Campos do dia do seu aniversário. Os versos tornaram-se-me prosa baça, apontamentos, meros diálogos ou evocações. Evito metáforas e ardis retóricos como quem evita aviões ou eléctricos cheios de ninguém. Custa-me, por vezes, reconhecer a cidade onde decidi viver.

      Falar da morte — sempre foi isso, creio, a minha poesia. Embora, tenho de acrescentar, nunca apenas isso. Entre mim e o suicídio interpôs-se, por exemplo, a Paixão segundo São Mateus de Bach. Posso dizê-lo, agora que já não me vou matar mas irei certamente morrer. Eu que talvez nunca me tenha querido matar, mas que precisei tanto da certeza de o poder fazer.

Outra vez o tempo









Pouco para tanto.

Luís Filipe Parrado - Teoria da narrativa familiar


Naquele tempo o meu pai trabalhava
por turnos
como herói socialista
no sector siderúrgico
e dormia com a minha mãe.
A minha mãe esfregava
a sarja encardida:
a água ficava da cor da ferrugem.
Havia, por perto, um cão
esgalgado,
sempre a rondar.
Depois, a minha irmã nasceu
e eu fui obrigado
a rever a minha mitologia privada do caos.
Entre uma coisa e outra
aprendi a mentir.
E isso, não sei se sabem, mudou tudo.

João Luís Barreto Guimarães - Decepção à Regra


Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?

Jorge Montealegre


Todos os vizinhos do meu bairro
dormem a sesta.
Mas há crianças
que batem às portas
incomodando.
Pedem pão
e não deixam escrever
os melhores poemas
sobre a fome.

The Claire Hastings Band - The Trooper and the Maid



A trooper lad cam’ here last nicht
Wi’ ridin’ he was weary
A trooper lad cam’ here last nicht
When the moon shone bricht and clearly.

Chorus
Bonnie lassie I’ll lie near ye noo
Bonnie lassie I’ll lie near ye
An I’ll gar a' yer ribbons reel
Or the morning ere I leave ye.

She’s ta’en his heich horse by the heid
An’ she’s led him tae the stable
She’s gi’en him corn an’ hay till ate
As muckle as he was able.

She’s ta’en the trooper by the han’
An’ she’s led him tae her chamber
She’s gi’en him breid an’ wine tae drink
An’ the wine it was like amber.  R.

She’s made her bed baith lang an’ wide
An’ she’s made it like a lady
She’s ta’en her coatie ower her heid
Says ‘Trooper are ye ready?’.

He’s ta’en aff his big top coat
Likewise his hat an’ feather
He’s ta’en his broadsword fae his side
An’ noo he’s doon aside her. R.

They hadna’ been but an oor in bed
An oor an half a quarter
When the drums cam’ beatin up the toon
An’ ilka beat was faster

It’s ‘Up, up’ an oor curnel cries
It’s ‘Up, up an’ awa’ then’
It’s ‘Up, up’ oor curnel cries
For the morn it is oor battle day! R.

She’s tae’en her cloakie ower her heid
An’ she’s followed him doon tae Stirlin’
She’s grown sae fu’ an’ she couldna boo
An’ they left her in Dunfermline

‘Bonnie lassie I maun leave ye noo
Bonnie lassie I maun leave ye
An’ oh but it does grieve me sair
That ever I lay sae near ye' R.

It’s ‘when will ye come back again
My ain dear trooper laddie
When will ye come back again
An be your bairnie’s daddy?’

‘O haud your tongue my bonnie lass
Ne’er let this partin grieve ye
When heather cowes grow ousen bows
Bonnie lass I’ll come an’ see ye’  R.

Cheese an’ breid for carles an’ dames,
Corn an’ hay for horses
Cups o’ tea for auld maids
Bonnie lads for bonnie lassies.

      A beleza do “Scottish accent”.

Mary Oliver - Cavalos azuis, de Franz Marc



Passo para dentro do quadro dos quatro cavalos azuis.
Não chego a espantar-me por conseguir fazê-lo.

Um dos cavalos avança na minha direção.
O seu nariz azul fareja-me levemente. Ponho o meu braço
em volta da sua crina azul, não para o prender, apenas para nos ligarmos.
Ele permite-me esse prazer.
Franz Marc morreu jovem, o cérebro rebentado pela metralha.
Eu havia de preferir morrer a ter de explicar o que é a guerra aos cavalos azuis.
Eles tombariam desfalecidos, tomados pelo horror, ou simplesmente não acreditariam nas minhas palavras.
Não sei como posso agradecer-lhe, Franz Marc.
Talvez o nosso mundo possa tornar-se um dia mais bondoso.
Talvez o desejo de criar algo de maravilhoso seja a semente de Deus que existe em cada um de nós.
Agora os quatro cavalos aproximam-se ainda mais, inclinam as cabeças sobre mim como se tivessem segredos a revelar.
Não espero que me falem, e eles não o fazem.
Se serem belos como são não é suficiente, o que poderiam eles dizer?

O quadro do banqueiro Ricardo Salgado



      70 anos depois, o quadro secreto do banqueiro Ricardo Salgado vai ser revelado publicamente. A pintura era a favorita do antigo banqueiro e estava pendurada no seu gabinete, no último andar da sede do Banco Espírito Santo (BES), na Avenida da Liberdade em Lisboa.
      A tela intitulada "Festa de Casamento" do pintor flamengo Pieter Bruegel, o Jovem, vai passar a estar exposta no Museu Nacional Fei Manuel do Cenáculo, em Évora, aos habitantes e visitantes desta cidade da região do Alentejo.
      Após a venda do Novo Banco aos americanos da Lone Star foi assinado um acordo, no qual um conjunto de arquivos do banco não pode sair de Portugal, devendo ser distribuídos, no caso dos quadros, aos museus nacionais.
      O que era de um, agora, pode ser para todos.

Buraco negro a 55 milhões de anos-luz



      É a revelação da primeira imagem de um buraco negro supermaciço, um dos mais importantes testes observacionais da teoria da Relatividade Geral de Einstein e da humanidade. A sombra que vive no centro da super-galáxia Messier 87, a 55 milhões de anos-luz da Terra, foi divulgada esta quarta-feira (10 de abril 2019) em todo o mundo durante seis conferências de imprensa simultâneas em Bruxelas, Washington, Santiago, Xangai, Taipei e Tóquio. 
      Foram precisos oito radiotelescópios espalhados pelo planeta Terra ligados em rede para captar a imagem. "É maior do que todo o sistema solar, um dos maiores buracos negros que pensamos que existe. É um autêntico monstro.", afirmou à BBC, Heino Falcke, o cientista alemão que propôs a experiência.

Luar Na Lubre - Romeiro Ao Lonxe




      No cabo do mundo, como o dito popular proclama, a San Andrés de Teixido vai de morto o que non foi de vivo. Os peregrinos comparten o camiño con animais, que son as almas dos que non puideron cumprir en vida a peregrinación, polo que non poden recibir maltrato ningún. Os romeiros adoitaban levar unha longa camisa branca con reberetes formando ondas e nalgúns puntos do camiño depositaban pedras que ían facendo medrar milladoiros. Arredor da ermida os veciños aínda seguen a facer os "sanandreses", fermosa artesanía de miga de pan endurecida no forno e coloreada, con imaxes do santo na súa barca de pedra. No adro medra a herba de namorar, á que lle atribúen propiedades casamenteiras. Na canción peregrina o corvo mariño, o mascato e o lagarto das silvas -vistoso exemplar con cabeza de intensa cor azul-, neste espacio que desperta as ansias de amor e paz e a irmandade entre vivos, morota, animais, plantas e augas.

Romeiro hei de ir lonxe ao San Andrés
con herbiñas de namorar,
dareille a quen alén mar está
o aloumiño do meu amor.

Hei de vestir a camisa de liño
que ela teceo para min
con herbiñas de namorar;
anda o lagarto azul e souril
a acaroar mapoulas bermellas,
nacidas de fusís,
co aloumiño do meu amor,
alleo á guerra e ao seu tambor.

Morto ou vivo hei volver á terra
que ela andou canda min
con herbiñas de namorar;
chouta o mascato polo cantil
a vela-lo adro familiar,
ala lonxe, na fin,
co aloumiño do meu amor.

Cabo do mundo, ó pé dun aguillón
doeme a guerra ruín
entre herbiñas de namorar;
corvo mariño voa xentil
o amilladoiro a levantar
e pan santo a colorir
co aloumiño do meu amor.


      Scarborough Fair é uma canção tradicional inglesa de autoria desconhecida com referência à feira de Scarborough que, na Idade Média, era um dos maiores pontos de referência comercial de Inglaterra. No refrão são habitualmente repetidas as palavras: salsa, sálvia, alecrim e tomilho. É possível que seja uma alusão ao compromisso do trovador com sua amada, tendo sido proposta a seguinte interpretação: parsley (salsa) “Eu quero que sejas a mãe dos meus filhos”; sage (salvia) “Sou-te fiel”; rosemary (alecrim): “Pensa em mim”; thyme (tomilho) “Eu sou teu”. Numa crença pagã, era dito que estes eram os ingredientes para fazer uma poção de amor que a pessoa que a tomasse ficaria apaixonado pela outra.
      Esta versão galega vai buscar de novo estas "herbiñas de namorar". Muito belo.

O Tempo










O tempo é um buraco negro.

Ricardo Álvaro


O ano que passou
saiu para comprar
tabaco de enrolar
e nunca mais voltou.

Rainer Maria Rilke - A Pantera



De tanto olhar as grades o seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

Edgar Lee Masters


Algumas almas benévolas pensavam que o meu génio
fora de algum modo prejudicado pela loja.
Mas não era verdade.
A verdade era só esta:
eu não tinha inteligência que chegasse.

Eugénio de Andrade - Faz uma chave




Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.

Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.

Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.

Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

Mark Bryan






O palco e a memória.

Aurora Luque


Desejar é levar o destino do mar dentro do corpo.

Agustina Bessa-Luís


      Aquilo que as outras crianças encontram nos contos fantásticos e nas surpresas da poesia, eu encontrava nas subtilezas da dialéctica. Elas só sonhavam com tesouros de piratas; eu pensava, maravilhado, em tesouros de argumentos. A ideia mais simples pode tornar-se num labirinto escuro, num bosque encantado. A palavra pode ser um príncipe que se disfarça de corvo e de repente voa e percebemos que é uma estrela.

in, Estados eróticos imediatos de Søren Kierkegaard

Vácuo entre as horas

Não fosse
o que me faltas
da segunda até à sexta,
sábado seria o dia
em que a falta de ti
mais aguda seria.
Assim, é só o dia,
excluindo os outros,
em que a falta de ti
é aguda demais.

in, xilre

Ornatos Violeta - Ouvi Dizer



Ouvi dizer que o nosso amor acabou
Pois eu não tive a noção do seu fim
Pelo que eu já tentei eu não vou vê-lo em mim
Se eu não tive a noção de ver nascer um homem
E ao que eu vejo tudo foi para ti
Uma estúpida canção que só eu ouvi
E eu fiquei com tanto para dar
E agora não vais achar nada bem
Que eu pague a conta em raiva.

E pudesse eu pagar de outra forma. 

Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã
E eu tinha tantos planos p´ra depois
Fui eu quem virou as páginas
Na pressa de chegar até nós
Sem tirar das palavras seu cruel sentido
Sobre a razão estar cega resta-me apenas uma razão
Um dia vais ser tu e um homem como tu
Como eu não fui
Um dia vou-te ouvir dizer

E pudesse eu pagar de outra forma.
Sei que um dia vais dizer
E pudesse eu pagar de outra forma.

A cidade está deserta
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura
Ora amarga! ora doce
P'ra nos lembrar que o amor é uma doença
Quando nele julgamos ver a nossa cura.

      A dificuldade das relações humanas é clara no poema. É fácil o encontro mas é difícil a manutenção. Seja esta canção sobre o relacionamento filho-pai ou sobre homem-mulher, ela é um documento complexo com uma melodia original.

Mendes de Carvalho - Cantiga do pobrediabismo de café

Intelectuais reconhecidos pelo notário
poetas muitos reconhecidos pela família
romancistas traduzidos lá fora cá pra dentro
o dr. bastante burro que faz mal às musas
o escultor que tacteia a senhora escultural
o ensaísta amigo das poetisas lusas
o crítico ficheiral arrumado responsável
irresponsável vespertinamente às quintas-feiras
a viúva abundante devoradora de miúdas
pequenas com muito jeito pró teatro e tudo
mancebos beija aqui beija ali beija acolá e nada
o tatebitatismo do senhor que foi ministro
o fotógrafo de arte que tem dentes postiços
a postiça menina que se atira à dentadura
o profissional contador de anedotas
e a anedota que se conta da esposa
a antiga casta susana entre os velhos
os velhinhos entre a vida e a morte
os artistas suburbanos da amadora
antologistas do verso erótico dos amigos
o declamador nortenho de pronúncia ainda lá
três inventores e meio da filosofia nacional
muitos pintores que chateiam as paredes
muitos senhores que teimam tinta e papel

e se houvesse justiça tinham pena capital.

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