Álvaro Valverde - Assim


Assim como no rio
vemos plantas e árvores
reflectidas
e as margens parecem,
por efeito de simetria,
verde terra invertida,
a luz, a brisa, a água,
às primeiras horas
deste dia de julho,
dão a ideia
de que a vida é doce,
sereno este viver
diante do abismo.

Fábio Neves Marcelino


Nunca fui senão uma ponte quebrada
à espera de um dia inteiro

Uma infância presa
entre muralhas
à espera de um dia novo.

The Spider and The Wolf - Naomi Bedford and Paul Simmonds



      Naomi Bedford is an English roots singer from Brighton. Her most recent album ‘A History of Insolence’ was released in 2014 and it has this special moment The Spider and the Wolf sung alongside with her musical partner Paul Simmonds.

Federico García Lorca - Canzon de cuna pra Rosalía Castro, morta


¡Erguete, miña amiga,
que xa cantan os galos do día!
¡Erguete, miña amada,
porque o vento muxe, como unha vaca

Os arados va e vên
dende Santiago a Belén.

Dende Belén a Santiago
un anxo ven en un barco.
Un barco de prata fina
que trai a door de Galicia.

Galicia deitada e queda
transida de tristes herbas.
Herbas que cobren téu leito
e a negra fonte dos teus cabelos.
Cabelos que van ao mar
onde as nubens teñen seu nídio pombal.

¡Erguete, miña amiga,
que xa cantan os galos do día!
¡Erguete, miña amada,
porque o vento muxe, como unha vaca!

Rui Almeida


Falaremos depois,
Quando os frutos das árvores
Puderem cair

Sem que os cuidados
Exigidos pela necessidade
Ou pelo excesso de avidez
Lhes extingam o brilho.

Behind A Little House - Manuel Cosentino.



Ali.

Juan Gelman - A chave do gás


A mulher do poeta está
condenada a ler ou escutar os
versos do poeta, mal arrancados
da alma, ainda a fumegar. Mais,
a mulher do poeta
está condenada ao poeta, esse tal
que nunca sabe onde está
a chave do gás e finge
que pergunta para saber,
quando lhe importa só perguntar
o que resposta não tem.

Adília Lopes


O rio
é bom
para nadar
e as flores
para dar
o resto
são cantigas
casa-te com Lídia
tem bebés
passa a lua-de-mel
na Grécia.

Saudade


      Ao ver um dos meus alunos ligado a fios pendurados da cabeça para ouvir a música do seu tempo, lembrei-me do meu tempo. Ele disse-me "Vale o mesmo!". 

The Bonnie Banks of Loch Lomond - Ella Roberts




By yon bonnie banks and by yon bonnie braes,
Where the sun shines bright on Loch Lomon'
Where me and my true love will never meet again,
On the bonnie, bonnie banks o' Loch Lomon'

O ye'll take the high road and I'll take the low,
An' I'll be in Scotland afore ye
For me and my true love will never meet again
On the bonnie, bonnie banks o' Loch Lomon'

'Twas there that we parted in yon shady glen,
On the steep, steep side o' Ben Lomon'
Where in the purple hue the Hieland hills we view,
An' the moon comin' out in the gloamin'

The wee birdies sing and the wild flow'rs spring,
And in sunshine the waters are sleepin'
But the broken heart it kens nae second spring again,
Tho' the waefu' may cease frae their greetin'

José Saramago - Fraternidade



A qual de nós engano quando irmão
Nestes versos te chamo?
Não são irmãs as folhas que do chão
Olham outras no ramo.
Melhor é aceitar a solidão,
Viver iradamente como o cão
Que remorde o açamo.

Johann Wolfgang von Goethe - Canção noturna do andarilho


No alto das colinas
há paz;
não se ouve, ali nas
frondes, mais
que um sopro manso.
Nem há no bosque um trino. Aguarda:
tampouco tarda
o teu descanso.

3h 47'


Bem que Horacio dizia
preferir dormir bem
a escrever poesia.

Rossellini - Viagem em Itália





      Mas há um terceiro ponto de vista, o do responsável que lhes mostrou a casa:

«Quero que vejam a varanda. Aquele é o Vesúvio. Desde a erupção de 1944 que está inactivo. Mas a temperatura começa a subir. Atrás daquela primeira montanha fica Pompeia.»

Karmelo Iribarren


A criança que fui olha-me às vezes como que pedindo explicações e não sei que lhe dizer.

Street art









Jorge Luis Borges - Os justos


Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que lêem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

      Há poemas que parecem transportar algum material de salvação. A salvação com um fragmento de beleza.

Daniel Faria


O meu projecto de morrer é o meu ofício
Esperar é um modo de chegares
Um modo de te amar dentro do tempo.

Daniel Faria


Amo-te como um planeta em rotação difusa
E quero parar como o servo colado ao chão.
Frágil cerâmica de poros soprados no teu hálito
Vasilha que ergues em tua mão de oleiro
Cálice que não pudeste afastar de ti.

Bach Cello Suite No. 1: Sarabande (for Three Cellos)



Heavenly.

      As Seis Suítes para Violoncelo Solo por Johann Sebastian Bach são uma das composições a solo mais frequentemente tocadas e reconhecidas para violoncelo. Foram mais provavelmente compostas durante o período de 1717-1723, quando Bach serviu como Kapellmeister em Köthen.

Alejandra Pizarnik


um olhar a partir do esgoto
pode ser uma visão do mundo

a rebelião consiste em olhar uma rosa
até pulverizar os olhos

Elias Canetti


      Há o poeta que escreve contra todos. Há o poeta que escreve só para alguns. Há o poeta que escreve mas escreve para a gaveta. Há o poeta que escreve e agrada a todos. Há o poeta que escreve e não agrada a ninguém. E há, também, o poeta que escreve para agradar a todos, seja de que forma for, ora mais telúrico ora mais onírico ora mais realista ora mais como o freguês quiser. Este tipo de poeta é o poeta que salta do jogo floral para o festival, do festival para o encontro, do encontro para a bienal, da bienal para a mesa redonda, da mesa redonda para a mesa do salão de chá, da mesa do salão de chá para o balcão da tasca, do balcão da tasca para o anfiteatro, do anfiteatro para o mercado municipal e assim sucessivamente até conseguir ser publicado por alguém. É um poeta sem bandeira. Ou melhor: é um poeta com várias bandeiras no bolso, que vai hasteando à medida das suas necessidades, mas, principalmente, à medida das necessidades dos outros que passam a ser suas também. É o poeta molusco, sem espinha ou outro tipo de estrutura que o faça andar na vertical. A horizontalidade rente ao chão é a sua real natureza.

Renaissance painting



Sandro Botticelli, Judith With The Head Of Holofernes


The Youth Moses (detail) 1482 by Sandro Botticelli

Ontem, um amigo confessou-me 
que a pintura renascentista é demasiado perfeita. 

Offline Dating




      I feel like online dating doesn't work at all. I've met more people on the sidewalk than I ever have online. Just keep practicing.

Carlos Poças Falcão


Há um lugar confuso: desvia-te três passos
e a serenidade respira calmamente.

Não é fácil entender só com o entendimento:
a decisão dos pássaros que voam para poente
a decisão dos pássaros que voam para nascente.

Sais de ti: o que é que entra?

Já não é costume obedecer às ordens
imortais. Mas se nada escutas
por que estás atento? E se nada encontras
como hás-de procurar?

25 de Abril de 2019



Um homem com fome não é um homem livre.

José Fanha - Eu Sou Português Aqui



Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que em papa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

Casa da Chuva - Eugénio de Andrade



A chuva, outra vez sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
Se minha mãe já se foi embora,
Já não vem à varanda para a ver cair,
Já não levanta os olhos da costura
Para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva
A chuva sobre o teu rosto.

Friedrich Nietzsche


      Quanta felicidade dá a grata suavidade das coisas! Como a vida é cintilante e de bela aparência! São as grandes falsificações, as grandes interpretações que sempre nos têm elevado acima da satisfação animal, até chegarmos ao humano. Inversamente: que nos trouxe a chiadeira do mecanismo lógico, a ruminação do espírito que se contempla ao espelho, a dissecação dos instintos?
      Suponde vós que tudo era reduzido a fórmulas e que a vossa crença era confinada à apreciação de graus de verosimilhança, e que vos era insuportável viver com tais premissas... que fazíeis vós? Ser-vos-ia possível viver com tão má consciência?
      No dia em que o homem sentir como falsidade revoltante a crença na bondade, na justiça e na verdade escondida das coisas, como se ajuizará ele a si mesmo, sendo como é parte fragmentária deste mundo? Como um ser revoltante e falso?

      in, 'A Vontade de Poder'

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