Mendes de Carvalho - Cantiga do pobrediabismo de café

Intelectuais reconhecidos pelo notário
poetas muitos reconhecidos pela família
romancistas traduzidos lá fora cá pra dentro
o dr. bastante burro que faz mal às musas
o escultor que tacteia a senhora escultural
o ensaísta amigo das poetisas lusas
o crítico ficheiral arrumado responsável
irresponsável vespertinamente às quintas-feiras
a viúva abundante devoradora de miúdas
pequenas com muito jeito pró teatro e tudo
mancebos beija aqui beija ali beija acolá e nada
o tatebitatismo do senhor que foi ministro
o fotógrafo de arte que tem dentes postiços
a postiça menina que se atira à dentadura
o profissional contador de anedotas
e a anedota que se conta da esposa
a antiga casta susana entre os velhos
os velhinhos entre a vida e a morte
os artistas suburbanos da amadora
antologistas do verso erótico dos amigos
o declamador nortenho de pronúncia ainda lá
três inventores e meio da filosofia nacional
muitos pintores que chateiam as paredes
muitos senhores que teimam tinta e papel

e se houvesse justiça tinham pena capital.

Allen Ginsberg

O peso do mundo
      é o amor.
Sob o outro peso
      da solidão,
sob o outro peso
      da insatisfação

      o peso,
o peso que trazemos
      é o amor. 

      in,Uivo

Carlos Poças Falcão


É na opacidade que os amigos se abraçam
é no fulgor dos corpos que os amantes são mais castos
é na misericórdia que o Senhor é resistente.

E no entanto à noite parecemos transparentes
com a cabeça exposta a um pélago de estrelas
o coração perdido sob um dédalo de regras.

André Tecedeiro


São precisos pelo menos dois
Para que a solidão se instale.

Nisso, a solidão é como um filho.



A saudade do vinil.

James Taylor & Carly Simon - You Can Close Your Eyes



      This is what love looks like and harmony sounds like. One and another different one are still two. We now know he hasn't spoken to her in 35 years. Whatever happened to the marriage, it was one of the best musical collaborations of the 70’s. It's painful to listen to "And I still love you".

Ron Padgett - O poeta como pássaro imortal


Há coisa de segundos o meu coração foi-se abaixo
e eu pensei, "Eis uma péssima altura
para se ter um ataque cardíaco e morrer, a
meio de um poema", depois senti-me confortado
pensando que nunca ninguém a quem eu tenha dado ouvidos
alguma vez morreu a meio da escrita
de um poema, tal como os pássaros nunca morrem em pleno voo.
Acho eu.

Mary Oliver - O que posso fazer


A televisão tem dois comandos que a controlam.
Fico confusa.
A máquina de lavar pergunta-me, lavagem normal ou delicada?
Honestamente, só quero roupa limpa.
É tudo assim.
E nem sequer vou falar de telemóveis.

Posso acender a luz da lâmpada ao lado da minha cadeira
onde um livro aguarda, e é tudo.

Oh sim, e posso riscar um fósforo e fazer lume.

Goliarda Sapienza - Peroração


Não gastes a quentura do teu púbis
não prendas o teu passo em saias justas
de seda turva, mas deixa por favor
teu cabelo acender-se pelo sol
que foge virando atrás do muro.

Não te quero surpreendida pela lua
descobrindo-te forçada numa noite
a gritar arrependida num tal rosto
de senhora ressecada sobre o teu.

Fresh Guacamole



Carlos Poças Falcão


É na opacidade que os amigos se abraçam
é no fulgor dos corpos que os amantes são mais castos
é na misericórdia que o Senhor é resistente.

E no entanto à noite parecemos transparentes
com a cabeça exposta a um pélago de estrelas
o coração perdido sob um dédalo de regras.

Isabel Meyreles


Todos os poetas fazem versos.
Não eu.
A minha máquina de fabricar palavras
utiliza um alfabeto protoplásmico
que reproduz a tua imagem
incansavelmente
assim eu digo
é tempo que tu partas
e me deixes fazer poemas
como toda gente.

Hello, yellow brick road
















A alma de certos lugares.

Fairport Convention - Book Song




If she knew what I've seen while I'm watching
Would she know where to smile, what to say?
When she leaves from her book to be with me
Where's her mind as she stands while I play?

She left behind names in the pages
And the time she took out, they stayed in
Now she thinks that she maybe should tell them
Of my book and the places she's been.

Now she's looking at me while I'm writing
Does she know where to smile, what to say?
When she leaves from her book to be with me
What's she thinking about while I play?

      O processo criativo repartido a dois. A importância da escrita em cadernos, livros e o reajuste. A melodia é lindíssima.

Charles Bukowsky - Vitória


as promessas que fizemos
honramo-las
e
quando formos cercados
pelos cães das horas
nada
nos poderá ser confiscado
a não ser
as nossas vidas.

José Miguel Silva - Mudar de casa


É bom mudar de casa, de janela,
arrumar de outra maneira as ilusões,
tratar de coisas parvas como tintas
e sofás, pôr ordem entre os livros
e a vida, simular a liberdade.

Parece-nos possível voltar a acreditar
na mão que nos estende um pé de salsa,
na pechincha da beleza quando passa
no poente da razão.

Apetece cometer uma loucura,
comprar um telescópio, decorar
o canto nono dos Lusíadas,
subir uma escada do avesso,
pensar que nunca mais teremos frio.

in, Ulisses já não mora aqui

A Criada Lá de Cima


Podem vir dizer-me «os mapas
dos vossos negros lugares do vazio».
Podem vir traçar plantas da casa, abrir
cadernos de encargos, não havendo
que se veja marcas de ogre ou tão-
-pouco uma almofada para um anão, é
incógnita se existiu princesa da plebe
ou aí dormiu ou se houve só
uma governanta a rodar
na noite as dobradiças da cama
                        posto que
se ache insana a repetição
duma santa maria em cada quarto —
breve afago, mãe inventada, pele
contra pele bombando o coração.

in, Dama

Dragan Mihailović - arte Naif











A native of Serbia, residing in Belgrade and sometimes in Paris, Dragan Mihailovic has always travelled in the best of worlds, that of his imagination !
Through his paintings, we discover this world, made of little corners of paradise.

José Watanabe - Animal de inverno


É de novo o tempo de ir ao monte
em busca de uma lura para hibernar.
Vou sem me iludir, a montanha não é mãe
e as suas covas são como que ovos vazios,
onde recolho meu corpo e olvido.
Nas faldas do maciço verei novamente
filões de minério como que nervos petrificados, acaso
percorridos em tempos remotos
por calafrios de algum ser vivo.
Hoje, milhões de anos após, a montanha
está para além do tempo, não sabendo
como é nossa vida
nem como acaba.

Ei-la aí, inocente e bela no meio da névoa, e eu entro
em sua perfeita indiferença e enrosco-me
rendido à ideia de ser de outra matéria.
Venho pela enésima vez fingir a minha ressurreição.
Ninguém neste mundo pétreo
se alegrará com meu despertar. Estarei eu
só, tocarei em mim mesmo e,
meu corpo sendo a parte branda da montanha,
saberei
que não sou ainda a montanha.

W. S. Merwin, 1927-2019


       Os poemas devem ser lidos muito lentamente, já que a maior parte do seu poder misterioso está oculta em tons que devem ser ouvidos nos silêncios entre linhas, e nos silêncios ainda mais estranhos dentro das linhas.

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