Elias Canetti


      Há o poeta que escreve contra todos. Há o poeta que escreve só para alguns. Há o poeta que escreve mas escreve para a gaveta. Há o poeta que escreve e agrada a todos. Há o poeta que escreve e não agrada a ninguém. E há, também, o poeta que escreve para agradar a todos, seja de que forma for, ora mais telúrico ora mais onírico ora mais realista ora mais como o freguês quiser. Este tipo de poeta é o poeta que salta do jogo floral para o festival, do festival para o encontro, do encontro para a bienal, da bienal para a mesa redonda, da mesa redonda para a mesa do salão de chá, da mesa do salão de chá para o balcão da tasca, do balcão da tasca para o anfiteatro, do anfiteatro para o mercado municipal e assim sucessivamente até conseguir ser publicado por alguém. É um poeta sem bandeira. Ou melhor: é um poeta com várias bandeiras no bolso, que vai hasteando à medida das suas necessidades, mas, principalmente, à medida das necessidades dos outros que passam a ser suas também. É o poeta molusco, sem espinha ou outro tipo de estrutura que o faça andar na vertical. A horizontalidade rente ao chão é a sua real natureza.

Renaissance painting



Sandro Botticelli, Judith With The Head Of Holofernes


The Youth Moses (detail) 1482 by Sandro Botticelli

Ontem, um amigo confessou-me 
que a pintura renascentista é demasiado perfeita. 

Offline Dating




      I feel like online dating doesn't work at all. I've met more people on the sidewalk than I ever have online. Just keep practicing.

Carlos Poças Falcão


Há um lugar confuso: desvia-te três passos
e a serenidade respira calmamente.

Não é fácil entender só com o entendimento:
a decisão dos pássaros que voam para poente
a decisão dos pássaros que voam para nascente.

Sais de ti: o que é que entra?

Já não é costume obedecer às ordens
imortais. Mas se nada escutas
por que estás atento? E se nada encontras
como hás-de procurar?

25 de Abril de 2019



Um homem com fome não é um homem livre.

José Fanha - Eu Sou Português Aqui



Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que em papa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

Casa da Chuva - Eugénio de Andrade



A chuva, outra vez sobre as oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
Se minha mãe já se foi embora,
Já não vem à varanda para a ver cair,
Já não levanta os olhos da costura
Para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva
A chuva sobre o teu rosto.

Friedrich Nietzsche


      Quanta felicidade dá a grata suavidade das coisas! Como a vida é cintilante e de bela aparência! São as grandes falsificações, as grandes interpretações que sempre nos têm elevado acima da satisfação animal, até chegarmos ao humano. Inversamente: que nos trouxe a chiadeira do mecanismo lógico, a ruminação do espírito que se contempla ao espelho, a dissecação dos instintos?
      Suponde vós que tudo era reduzido a fórmulas e que a vossa crença era confinada à apreciação de graus de verosimilhança, e que vos era insuportável viver com tais premissas... que fazíeis vós? Ser-vos-ia possível viver com tão má consciência?
      No dia em que o homem sentir como falsidade revoltante a crença na bondade, na justiça e na verdade escondida das coisas, como se ajuizará ele a si mesmo, sendo como é parte fragmentária deste mundo? Como um ser revoltante e falso?

      in, 'A Vontade de Poder'

Surrealism










Wordless

Abbas Kiarostami


Quando no meu bolso não tenho nada
tenho poemas
quando no frigorífico não tenho nada
tenho poemas
quando no coração não tenho nada
nada tenho.

Abbas Kiarostami


As flores silvestres
ninguém as cheirou
ninguém as colheu
ninguém as vendeu
ninguém as comprou.

José Pascoal - Imagem e Semelhança


Não sou adepto de peregrinações.
Basta-me um caminho na erva.
Certas ausências em parte incerta.

Não tenho alma de vagabundo.
Sei apenas de momentos memoráveis:
Uma nuvem no céu, uma sombra no poço.

Os meus passos não vão dar a parte nenhuma.
Não tenho encontros. Não me arrisco.
Não faço nada que me obrigue a ir e vir.

Os meus desígnios são insondáveis.
É a minha única parecença com Deus.

Inês Lourenço - As Asas do Desejo


No filme de Wenders, com
versos de Handke, os anjos fingem
estar fartos de um tempo
infinito. Sonham com os
pequenos tempos de sentar-se à mesa
a jogar cartas. Ser cumprimentado na
rua, nem que seja com um aceno. Ter
febre. Ficar com os dedos sujos
de ler o jornal. Entusiasmar-se com uma
refeição ou com a curva
de uma nuca. Mentir
com habilidade. Ao andar
sentir a ossatura mexer-se a cada
passo. Supor, em vez de saber
sempre tudo. Cá em baixo, os
humanos não suspeitam da beleza
do peso que os segura à terra e fingem
o futuro em cada minuto, para
deixar de dizer agora, agora, agora.

Devoted To You - Carly Simon & James Taylor




Darlin' you can count on me
Till the sun dries up the sea
Until then I'll always be devoted to you.

I'll be yours through endless time
I'll adore your charms sublime
Guess by now you know that I'm devoted to you.

I'll never hurt you, I'll never lie
I'll never be untrue
I'll never give you reason to cry
I'd be unhappy if you were blue.

Through the years my love will grow
Like a river it will flow
It can't die because I'm so devoted to you.

John Berger


O meu coração nasceu nu,
logo em fraldas embalado.
Só mais tarde usou
poemas em vez de roupas.
Tal como a camisa que punha
levava sobre o corpo
a poesia que lera.

Vivi meio século assim
até que, sem uma palavra, nos encontrámos.

A minha camisa nas costas da cadeira
diz-me que hoje percebi
quantos anos
a decorar poemas
esperei por ti.

José Pedro Moreira - Backpfeifengesicht


                                       para a Cátia Bento

descobri há umas semanas
que a língua alemã
tem uma palavra que significa
cara a pedir para ser esbofeteada
ou mais literalmente
cara a precisar de um punho

desde então
tenho dado
por mim a pensar
enquanto vejo as notícias

a Cátia tinha razão
devia ter estado mais atento
nas aulas de Alemão.

Luz







A melhor amiga.

Cláudio Rodríguez


"Solo se pierde lo que no se ama.”

Amalia Bautista


Não sei se por maldade ou esquecimento
não fui chamada à arca. O fim do mundo
durou quarenta dias e quarenta
noites. Mas alguém fez com as suas mãos
doce balsa que me evitou a morte.

Yannis Ritsos


"Não falámos. Acendemos a luz."

Páscoa 2019



Urge retirar a pedra dos nossos sepulcros 
e, tal como Ele, transformar a matéria em espírito.

Laura Marling - Ghosts




He walked down a busy street
Staring solely at his feet
Clutching pictures of past lovers at his side
Stood at the table where she sat
And removed his hat
In respect of her presence
Presents her with the pictures and says
"These are just ghosts that broke my heart before I met you.
These are just ghosts that broke my heart before I met you"

Opened up his little heart
Unlocked the lock that kept it dark
And read a written warning
Saying I'm still mourning
Over ghosts, over ghosts, over ghosts
Over ghosts that broke my heart before I met you.

Lover, please do not fall to your knees
It's not like I believe in
Everlasting love
He went crazy at nineteen
Said he'd lost all his self esteem
And couldn't understand why he was cry, cry, crying, crying.

He would stare at empty chairs
Think of the ghosts that once sat there
The ghosts who broke his heart.
All the ghosts that broke my heart
The ghosts that broke his heart
All the ghosts that broke my heart
The ghosts, the ghosts, the ghosts, the ghosts,
The ghosts, the ghosts
The ghosts that broke my heart before I met you.

Lover, please do not fall to your knees
It's not like I believe in
Everlasting love
He says "I'm so lost,
Not at all well"
Do as though there is nothing left to be
Turned out I'd been following him and he'd been following me
Do as though after it was over
We were just two lovers crying on each others shoulders.

And I said Lover, please do not fall to your knees
It's not like I believe in
Everlasting love.

      Brel e Cohen fazem tanta falta.

Bénédicte Houart


nós, os inconsoláveis que
perdemos a fala ainda antes de
ganharmos direito à palavra, que
sentimos tão demasiado que
ficámos para sempre calados, que
haveremos de escrever, agora

que alcançámos o direito
a morrer sem pedir desculpa, e
mortos, embora, constituiremos
a maioria que à superfície da terra
sem trégua vos derrotará

Rui Pires Cabral


Eu era de terra quando me procuraste,
estranho à franqueza dos teus modos, baço
para os teus sentidos.

Parávamos o carro num beco qualquer,
queimávamos o rastilho das palavras
até ao deserto onde dávamos as mãos.

Lá fora, a realidade era o espaço inteiro
deitado nos vidros, o mundo caído
para dentro do silêncio.

Gastávamos depressa o tempo, perdidos
no nosso único mapa,
nenhum sinal de mudança no regresso a casa.

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