Há o poeta que escreve
contra todos. Há o poeta que escreve só para alguns. Há o poeta que escreve mas
escreve para a gaveta. Há o poeta que escreve e agrada a todos. Há o poeta que
escreve e não agrada a ninguém. E há, também, o poeta que escreve para agradar
a todos, seja de que forma for, ora mais telúrico ora mais onírico ora mais
realista ora mais como o freguês quiser. Este tipo de poeta é o poeta que salta
do jogo floral para o festival, do festival para o encontro, do encontro para a
bienal, da bienal para a mesa redonda, da mesa redonda para a mesa do salão de
chá, da mesa do salão de chá para o balcão da tasca, do balcão da tasca para o
anfiteatro, do anfiteatro para o mercado municipal e assim sucessivamente até
conseguir ser publicado por alguém. É um poeta sem bandeira. Ou melhor: é um
poeta com várias bandeiras no bolso, que vai hasteando à medida das suas
necessidades, mas, principalmente, à medida das necessidades dos outros que
passam a ser suas também. É o poeta molusco, sem espinha ou outro tipo de
estrutura que o faça andar na vertical. A horizontalidade rente ao chão é a sua
real natureza.
Renaissance painting
Sandro Botticelli, Judith With The Head Of Holofernes
The Youth Moses (detail) 1482 by Sandro Botticelli
Ontem, um amigo confessou-me
que a pintura renascentista é demasiado perfeita.
Offline Dating
I feel like online dating doesn't work at all. I've
met more people on the sidewalk than I ever have online. Just keep practicing.
Carlos Poças Falcão
Há um lugar confuso: desvia-te três passos
e a serenidade respira calmamente.
Não é fácil entender só com o entendimento:
a decisão dos pássaros que voam para poente
a decisão dos pássaros que voam para nascente.
Sais de ti: o que é que entra?
Já não é costume obedecer às ordens
imortais. Mas se nada escutas
por que estás atento? E se nada encontras
como hás-de procurar?
José Fanha - Eu Sou Português Aqui
Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.
Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.
Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.
Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.
Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que em papa a terra que piso.
Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.
Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.
Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.
Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.
Casa da Chuva - Eugénio de Andrade
A chuva, outra vez sobre as
oliveiras.
Não sei por que voltou esta tarde
Se minha mãe já se foi embora,
Já não vem à varanda para a ver
cair,
Já não levanta os olhos da costura
Para perguntar: Ouves?
Oiço, mãe, é outra vez a chuva
A chuva sobre o teu rosto.
Friedrich Nietzsche
Quanta felicidade dá a
grata suavidade das coisas! Como a vida é cintilante e de bela aparência! São
as grandes falsificações, as grandes interpretações que sempre nos têm elevado
acima da satisfação animal, até chegarmos ao humano. Inversamente: que nos trouxe
a chiadeira do mecanismo lógico, a ruminação do espírito que se contempla ao
espelho, a dissecação dos instintos?
Suponde vós que tudo era
reduzido a fórmulas e que a vossa crença era confinada à apreciação de graus de
verosimilhança, e que vos era insuportável viver com tais premissas... que
fazíeis vós? Ser-vos-ia possível viver com tão má consciência?
No dia em que o homem
sentir como falsidade revoltante a crença na bondade, na justiça e na verdade
escondida das coisas, como se ajuizará ele a si mesmo, sendo como é parte
fragmentária deste mundo? Como um ser revoltante e falso?
in, 'A Vontade de Poder'
Abbas Kiarostami
Quando no meu bolso não tenho nada
tenho poemas
quando no frigorífico não tenho nada
tenho poemas
quando no coração não tenho nada
nada tenho.
Abbas Kiarostami
As flores silvestres
ninguém as cheirou
ninguém as colheu
ninguém as vendeu
ninguém as comprou.
José Pascoal - Imagem e Semelhança
Não sou adepto de peregrinações.
Basta-me um caminho na erva.
Certas ausências em parte incerta.
Não tenho alma de vagabundo.
Sei apenas de momentos memoráveis:
Uma nuvem no céu, uma sombra no poço.
Os meus passos não vão dar a parte nenhuma.
Não tenho encontros. Não me arrisco.
Não faço nada que me obrigue a ir e vir.
Os meus desígnios são insondáveis.
É a minha única parecença com Deus.
Inês Lourenço - As Asas do Desejo
No filme de Wenders, com
versos de Handke, os anjos fingem
estar fartos de um tempo
infinito. Sonham com os
pequenos tempos de sentar-se à mesa
a jogar cartas. Ser cumprimentado na
rua, nem que seja com um aceno. Ter
febre. Ficar com os dedos sujos
de ler o jornal. Entusiasmar-se com uma
refeição ou com a curva
de uma nuca. Mentir
com habilidade. Ao andar
sentir a ossatura mexer-se a cada
passo. Supor, em vez de saber
sempre tudo. Cá em baixo, os
humanos não suspeitam da beleza
do peso que os segura à terra e fingem
o futuro em cada minuto, para
deixar de dizer agora, agora, agora.
Devoted To You - Carly Simon & James Taylor
Darlin' you
can count on me
Till the sun
dries up the sea
Until then
I'll always be devoted to you.
I'll be
yours through endless time
I'll adore
your charms sublime
Guess by now
you know that I'm devoted to you.
I'll never
hurt you, I'll never lie
I'll never
be untrue
I'll never
give you reason to cry
I'd be
unhappy if you were blue.
Through the
years my love will grow
Like a river
it will flow
It can't die
because I'm so devoted to you.
John Berger
O meu coração nasceu nu,
logo em fraldas embalado.
Só mais tarde usou
poemas em vez de roupas.
Tal como a camisa que punha
levava sobre o corpo
a poesia que lera.
Vivi meio século assim
até que, sem uma palavra, nos encontrámos.
A minha camisa nas costas da cadeira
diz-me que hoje percebi
quantos anos
a decorar poemas
esperei por ti.
logo em fraldas embalado.
Só mais tarde usou
poemas em vez de roupas.
Tal como a camisa que punha
levava sobre o corpo
a poesia que lera.
Vivi meio século assim
até que, sem uma palavra, nos encontrámos.
A minha camisa nas costas da cadeira
diz-me que hoje percebi
quantos anos
a decorar poemas
esperei por ti.
José Pedro Moreira - Backpfeifengesicht
para a Cátia Bento
descobri há umas semanas
que a língua alemã
tem uma palavra que significa
cara a pedir para ser esbofeteada
ou mais literalmente
cara a precisar de um punho
desde então
tenho dado
por mim a pensar
enquanto vejo as notícias
a Cátia tinha razão
devia ter estado mais atento
nas aulas de Alemão.
Amalia Bautista
Não sei se por maldade ou esquecimento
não fui chamada à arca. O fim do mundo
durou quarenta dias e quarenta
noites. Mas alguém fez com as suas mãos
doce balsa que me evitou a morte.
Laura Marling - Ghosts
He walked
down a busy street
Staring
solely at his feet
Clutching
pictures of past lovers at his side
Stood at the
table where she sat
And removed
his hat
In respect
of her presence
Presents her
with the pictures and says
"These
are just ghosts that broke my heart before I met you.
These are
just ghosts that broke my heart before I met you"
Opened up
his little heart
Unlocked the
lock that kept it dark
And read a
written warning
Saying I'm
still mourning
Over ghosts, over ghosts, over ghosts
Over ghosts
that broke my heart before I met you.
Lover,
please do not fall to your knees
It's not like
I believe in
Everlasting
love
He went
crazy at nineteen
Said he'd
lost all his self esteem
And couldn't
understand why he was cry, cry, crying, crying.
He would
stare at empty chairs
Think of the
ghosts that once sat there
The ghosts
who broke his heart.
All the
ghosts that broke my heart
The ghosts
that broke his heart
All the
ghosts that broke my heart
The ghosts,
the ghosts, the ghosts, the ghosts,
The ghosts,
the ghosts
The ghosts
that broke my heart before I met you.
Lover,
please do not fall to your knees
It's not like
I believe in
Everlasting
love
He says "I'm
so lost,
Not at all
well"
Do as though
there is nothing left to be
Turned out
I'd been following him and he'd been following me
Do as though
after it was over
We were just
two lovers crying on each others shoulders.
And I said
Lover, please do not fall to your knees
It's not like
I believe in
Everlasting
love.
Brel e Cohen fazem tanta falta.
Brel e Cohen fazem tanta falta.
Bénédicte Houart
nós, os inconsoláveis que
perdemos a fala ainda antes de
ganharmos direito à palavra, que
sentimos tão demasiado que
ficámos para sempre calados, que
haveremos de escrever, agora
que alcançámos o direito
a morrer sem pedir desculpa, e
mortos, embora, constituiremos
a maioria que à superfície da terra
sem trégua vos derrotará
Rui Pires Cabral
Eu era de terra quando me procuraste,
estranho à franqueza dos teus modos, baço
para os teus sentidos.
Parávamos o carro num beco qualquer,
queimávamos o rastilho das palavras
até ao deserto onde dávamos as mãos.
Lá fora, a realidade era o espaço inteiro
deitado nos vidros, o mundo caído
para dentro do silêncio.
Gastávamos depressa o tempo, perdidos
no nosso único mapa,
nenhum sinal de mudança no regresso a casa.
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