Bénédicte Houart


nós, os inconsoláveis que
perdemos a fala ainda antes de
ganharmos direito à palavra, que
sentimos tão demasiado que
ficámos para sempre calados, que
haveremos de escrever, agora

que alcançámos o direito
a morrer sem pedir desculpa, e
mortos, embora, constituiremos
a maioria que à superfície da terra
sem trégua vos derrotará

Rui Pires Cabral


Eu era de terra quando me procuraste,
estranho à franqueza dos teus modos, baço
para os teus sentidos.

Parávamos o carro num beco qualquer,
queimávamos o rastilho das palavras
até ao deserto onde dávamos as mãos.

Lá fora, a realidade era o espaço inteiro
deitado nos vidros, o mundo caído
para dentro do silêncio.

Gastávamos depressa o tempo, perdidos
no nosso único mapa,
nenhum sinal de mudança no regresso a casa.

Firmin Baes












O instante em luz.

Helder Moura Pereira


Depressa antes que se veja
traz a água quente, a água
oxigenada, o mercúrio, a tintura,
a lixívia, a borracha.
Cortei, desenhei do outro lado
um fruto, forma de uma linha
única, queria pôr do outro lado
outro coração. Mas não há
outro lado nem outro coração,
depressa não quero que vejam
não quero.

Manuel de Freitas


As coisas deste mundo? Prefiro falar
do precipício concreto
de um abraço.

A nossa escola


      Os problemas maiores das escolas não são gerados na sala de aula. São trazidos para a sala de aula, anulam a aula e não são resolvidos depois da aula.  
                                                                        Santana Castilho

Paul Mc Cartney & the Wings - Mull Of Kintyre




      I have never seen such a version. Paul McCartney wrote this with Denny Laine, his bandmate in Wings. The song is a tribute to the Kintyre Peninsula in Scotland where Paul and his wife Linda had a farm. The Mull is the area at the tip of the peninsula, known for its beautiful scenery and tranquil atmosphere. After a difficult breakup with The Beatles, McCartney went there to avoid a nervous breakdown.

Renaissance art



Giotto: The Lamentation, c. 1305, Scrovegni Chapel, foreshadows the Renaissance.


The Ghent Altarpiece: The Adoration of the Mystic Lamb, painted 1432 by van Eyck


Lucas Cranach the Elder, Apollo and Diana.


Piero della Francesca, The Baptism of Christ, c. 1450


Michelangelo, (c. 1511) The Creation of Adam, from the Sistine Chapel ceiling


Titian, Bacchus and Ariadne


Titian, Sacred and Profane Love, c. 1513 – 1514

Painters between God and man.

Jorge Luis Borges


É o amor. Terei de me esconder ou de fugir.
Crescem as paredes da sua prisão, como num sonho atroz. A bela
  [máscara mudou, mas como sempre é a única. De que me
  [servirão os meus talismãs: o exercício das letras, a vaga
  [erudição, a aprendizagem das palavras que o agreste Norte
  [usou para cantar os seus mares e as suas espadas, a serena
  [amizade, os corredores da Biblioteca, as coisas vulgares, os
  [hábitos, o jovem amor da minha mãe, a sombra militar dos
  [meus mortos, a noite intemporal, o sabor do sonho?
Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.
O cântaro já se quebra na fonte, o homem já se levanta à voz das
  [aves, os que olham pelas janelas já se escureceram, mas a
  [sombra não trouxe a paz.
É, sei já bem, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir a tua voz,
  [a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.
É o amor com as suas mitologias, com as suas pequenas magias
  [inúteis.
Há uma esquina por onde não me atrevo a passar.
Já me cercam os exércitos, as hordas.
(Este quarto é irreal; ela não o viu.)
O nome de uma mulher denuncia-me.
Dói-me uma mulher em todo o corpo.

Daniel Faria


Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem
No vazio de ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto no deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti.

Fernando Assis Pacheco - Com a tua letra


Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

"A las mujeres" (1936), canción anarquista



Ha de ser obra de la juventud
romper las cadenas
de la esclavitud.
Hacia otra vida mejor
donde los humanos
gocen del amor.

Debéis las mujeres colaborar,
en hermosa obre de la humanidad;
mujeres, mujeres, necesitamos vuestra unión
el día que estalle nuestra grande revolución.

Hermanas que amáis con fe la libertad
habéis de crear la nueva sociedad
El sol de gloria que nos tiene que cubrir
a todos en dulce vivir.

Por una idea luchamos,
la cual defendemos
con mucha razón.
Se acabarán los tiranos,
guerras no queremos
ni la explotación.

Todos nacemos iguales,
la naturaleza
no hace distinción;
comunistas libertarios,
luchad con firmeza
por la revolución.

      The song is based on the melody of a famous waltz sung by Dolores del Rio in the movie "Ramona", 1928

Frantisek Kupka



A sedução é arte íntima. 

Rita Ann Higgins - Não dá


                               A poesia não dá / Poetry Doesn’t Pay
Estão sempre a dizer-me:
Sabes, os teus poemas,
tens mesmo ali qualquer coisa,
isto é, mesmo.

Quando liga o homem da renda,
ajoelho-me e, pela
caixinha da consciência digo-lhe,

'Quem fala é alguém,
chamada local, sabia
que tenho qualquer coisa aqui nos meus poemas?
É o que me dizem.'

'O que quero são as catorze libras
e dez pence, deixe lá a poesia.'

'Mas não percebe,
tenho aqui qualquer coisa.'

'Se não me aparece depressa
com as catorze libras e dez pence,
aparece-lhe é qualquer coisa aí na rua,
a que um bocadinho de neve há de dar cor.'

'Mas.'

'Mas nada,
não me pode pagar com poemas, nem com rezas,
nem piadas do seu marido,
nem fotografias dos filhos
de camisolas cor de bom limão,
tricotadas pela tia da avó morta,
que tinha amnésia e crupe.

‘Eu cá sou da Companhia,
queremos lá saber da poesia,
ou das amnésicas tias mortas!’

‘Mas as pessoas dizem-me.’

‘Mentiras.’

‘Se não se tiver catorze libras e
dez pence, não se tem nada
além da luz da escassa lua.’

People keep telling me:
Your poems, you know,
you’ve really got something there,
I mean really.

When the rent man calls,
I go down on my knees, and through
the conscience box I tell him,

‘This is somebody speaking,
short distance, did you know
I have something here with my poems?
People keep telling me.’

‘All I want is fourteen pounds
and ten pence, hold the poesy.’

‘But don’t you realise
I’ve got something here.’

‘If you don’t come across
with fourteen pounds and ten pence soon
you’ll have something at the side of the road,
made colourful by a little snow.’

‘But.’

‘But nothing,
you can’t pay me in poems or prayers,
or your husband’s jokes,
or with photographs of your children
in lucky lemon sweaters
hand-made by your dead grand aunt
who had amnesia and the croup.

‘I’m from the Corporation,
what do we know or care about poesy,
much less grand amnostic dead aunts?’

‘But people keep telling me.’

‘They lie.’

‘If you don’t have fourteen pounds
and ten pence, you have nothing
but the light of the penurious moon.’

      Rita Ann Higgins, Goddess of the Mervue Bus, 1986

Ricardo Álvaro - Coração


[fim de marcha]

Esquerda, volver:
Destroçar.

Charles Baudelaire - Qui aimes-tu le mieux, homme enigmatique, dis?


- De que mais gostas, homem enigmático, diz? teu pai, tua mãe, tua irmã, ou teu irmão?
- Não tenho nem pai nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Teus amigos?
- Usais uma palavra cujo sentido até hoje ignoro.
- Tua pátria?
- Desconheço a sua latitude.
- A beleza?
- Muito me agradaria gostar dela, deusa e imortal.
- O ouro?
- Detesto-o como detestais Deus.
- Eh! de que gostas, então, extraordinário estrangeiro?
- Gosto das nuvens... das nuvens que passam... além... além... as maravilhosas nuvens!

- Qui aimes-tu le mieux, homme enigmatique, dis? ton père, ta mère, ta soeur ou ton frère?
- Je n'ai ni père, ni mère, ni soeur, ni frère.
- Tes amis?
-Vous vous servez là d'une parole dont le sens m'est resté jusqu'à ce jour inconnu.
- Ta patrie?
- J'ignore sous quelle latitude elle est située.
- La beauté?
- Je l'aimerais volontiers, déesse et immortelle.
- L'or?
- Je le hais comme vous haïssez Dieu.
- Eh! qu'aimes-tu donc, extraordinaire étranger?
- J'aime les nuages... les nuages qui passent... là-bas... là-bas... les merveilleux nuages!

Dougie MacLean - Caledonia




I don't know if you can see
the changes that have come over me
In these past few days I've been afraid
that I might drift away
So I've been telling old stories, singing songs
that make me think about where I came from
and thats the reason why I seem
so far away today.

Oh Let me tell you that I love you
that I think about you all the time
Caledonia you're calling me
now I'm going home
and if I should become a stranger
no it would make me more than sad
Caledonia's been everything I've ever had.

Oh, and I have moved
and I've kept on moving
proved the points
that I needed proving
lost the friends
that I needed losing
found others on the way
Oh and I have tried and kept on trying
stolen dreams yes theres no denying
I've travelled hard with conscience flying
somewhere with the wind.

Now, I'm sitting here
before the fire
the empty room
The forest choir
the flames have cooled
don't get any higher
they've withered now
they've gone
and I'm steady thinking
my way is clear
and I know what
I will do tomorrow
When the hands have shaken.

And the kisses flowed
and I will dissappear.

      Caledónia é a denominação atribuída pelo Império Romano à região setentrional da ilha da Grã-Bretanha, grosso modo correspondente ao território actual da Escócia. Em alguns contextos pode significar o norte da área da Muralha de Adriano. Em outro contexto pode significar o norte da área da Muralha de Antonino. Em inglês e em scots Caledonia é agora um nome romântico ou poético para Escócia, comparável com Hibérnia para a Irlanda e Cambria para País de Gales. A canção é lindíssima

David Mourão-Ferreira


Tudo principiava
pela cúmplice neblina
que vinha perfumada
de lenha e tangerinas

Só depois se rasgava
a primeira cortina
E dispersa e dourada
no palco das vitrinas

a festa começava
entre odor a resina
e gosto a noz-moscada
e vozes femininas

A cidade ficava
sob a luz vespertina
pelas montras cercada
de paisagens alpinas.

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