António Franco Alexandre

Seguramos o fósforo, e o infinito cresce
entre os astros pacientes, invisíveis, a
mancha do electrão por sobre a chapa.
Não conhecemos Deus, a inexistência. Não
procuramos, alta, a vibração
do tempo. Seguramos o fósforo
e a luz é frágil, parca,
necessária.

Pete Seeger - I Don't Want Your Millions Mister




I don't want your millions, Mister
I don't want your diamond ring
All I want is the right to live, Mister
Give me back my job again.

Now, I don't want your Rolls-Royce, Mister
I don't want your pleasure yacht
All I want is just food for my babies
Give to me my old job back.

We worked to build this country, Mister
While you enjoyed a life of ease
You've stolen all that we built, Mister
Now our children starve and freeze.

So, I don't want your millions, Mister
I don't want your diamond ring
All I want is the right to live, Mister
Give me back my job again.

Think me dumb if you wish, Mister
Call me green, or blue, or red
This one thing I sure know, Mister
My hungry babies must be fed.

Take the two old parties, Mister
No difference in them I can see
But with a Farmer-Labor Party
We could set the people free.

      "I Don't Want Your Millions Mister" was written by Jim Garland in the 30's, while working as a union organizer for the National Miners Union. He based the melody of the song on an old Carter Family tune "East Virginia Blues". Since then, things haven't changed much.

Mário Quintana - Era um caminho


Era um caminho que de tão velho, minha filha,
já nem mais sabia aonde ia
Era um caminho
velhinho,
perdido...
Não havia traços
de passos no dia
em que por acaso o descobri:
pedras e urzes iam cobrindo tudo.
O caminho agonizava, morria
sozinho
Eu vi...
Porque são os passos que fazem os caminhos!

Albano Martins


Onde se diz espiga
leia-se narciso.
Ou leia-se jacinto.
Ou leia-se outra flor.
Que pode ser a mesma.

As flores
são formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil
duma flor
está também pintado
o seu perfume.

in, Castália e Outros Poemas

Mariana Kalacheva











Telas de uma pintora Búlgara.

Luís Filipe Parrado - O vaso


Vi como retiraste do vaso a terra,
e da terra as raízes da planta desconhecida.
Depois, com a tesoura de ferro,
cortaste o caule no ponto
certo. Em seguida, renovaste
a terra no vaso,
enterraste nela de novo a planta
que ressurgiu, surdamente,
na manhã de primavera
que sempre finda.
Agora, desvia um pouco o olhar,
repara em mim agora: vês as raízes,
o caule dobrado, a flor, o nome?
Por que não me cortas os braços, as mãos,
os pés, o tronco, e espalhas tudo
aos bocados pela terra?
Só preciso de um pouco de água:
em todos os lugares crescerei para ti.

      A poda é feita pelos outros quando nos ajudam a ser mas ai de quem não use a sua própria tesoura.

Jacob Iglesias - Os rostos todos do dia


No espelho do banho
olha-me em cada manhã o rosto de alguém
tentando mostrar-se seguro.
Pela rua
encontro rostos como advertências,
lembrando-me aquilo
em que não quero tornar-me,
aquilo em que hei-de tornar-me
mais tarde ou mais cedo. E às vezes um rosto
que olho sabendo que esse instante
é o mais perto que jamais estarei
de um corpo distinto do dela,
aquela cujo rosto apaga
os rostos todos do dia.

Eduardo Galeano - Fogos


Cada pessoa brilha com luz própria
no meio das outras.
Não há dois fogos iguais.
Há fogos grandes e pequenos
e fogos de todas as cores.
Há gente de fogo sereno, que nem dá conta do vento,
e gente de fogo louco, que enche de chispas o ar.
Alguns fogos, fogos tontos,
nem alumiam nem queimam,
mas ardem na vida com tanta força
que nem se podem olhar sem pestanejar,
e quem se chega, acende-se.

King’s College Choir - O Holy Night





      It’s my favourite carol. The words and lyrics of 'O Holy Night' were written by Placide Cappeau de Roquemaure in 1847. Cappeau was a wine seller by trade but was asked by the parish priest to write a poem for Christmas. He obliged and wrote the beautiful words of the hymn. He then realised that it should have music to accompany the words and he approached his friend Adolphe Charles Adams(1803-1856). He agreed and the music for the poem was therefore composed by Adolphe Charles Adams. Adolphe had attended the Paris conservatoire and forged a brilliant career as a composer. It was translated into English by John Sullivan Dwight (1812-1893).

Tempo de e para uma certa paz



      O Natal é uma proposta sacra renovada a cada ano. Não nos chega por lei, por decreto, regra ou dever. Dizem por aí que é poesia. Seja o que for, este Menino vem aliviar de uma certa maneira a nossa solidão, num tempo em que se mata a palavra e por consequência os afectos. Nunca as famílias foram tão pouco família. Um final de feira. Um bom Natal, para quem puder.

Gonzalo Fragui - As mulheres e a guerra


O mais que se pode pedir
a uma mulher bela
é um olhar

O resto toma-se de assalto.

Tradução de A.M.

Irene Gruss - Quem me tira o bailado


Peço peras ao ulmeiro. Saboreio-as, são uma delícia.
Pedi gato por lebre;
deram-mo.
À meia-noite contam-me histórias libidinosas;
e eu gozo, cada palavra,
cada gesto.
Amo a noite quando amanhece, amo a morte,
e sonho com a realidade.

Tradução de A.M.

Heidegger - A utilidade do inútil


      O maximamente útil é o inútil. Mas experimentar o inútil é, para o homem de hoje, a coisa mais difícil. O «útil», aqui, é entendido como aquilo que é utilizável, prática e imediatamente, para fins técnicos, e, por isso, provoca um efeito, com o qual eu posso administrar e produzir. Deve ver-se o útil no sentido do salvífico, ou seja, aquilo que faz revir a si, o homem.

Bee Gees - To Love Somebody



      Barry and Robin Gibb wrote "To Love Somebody", a soulful ballad in the style of Sam & Dave or The Rascals, for Otis Redding but he died before recording it. Sometimes I question myself if these songs will survive in the future as Greensleeves did. Will they be relesed from death's law? Maybe, maybe not. 

Abrir



A primeira flor a desabrochar
fá-lo com dor
Deixa de ser apenas uma flor
Mil e uma flores se hão-de seguir
sem que nada as impeça
mas nenhuma flor será como essa.

Resultado de imagem para O Nome Daquele que Não Tem Nome

O Nome Daquele que Não Tem Nome é uma antologia de poemas do poeta místico da época medieval Kabir, selecionados e traduzidos por Jorge Sousa Braga. Kabir foi traduzido pela primeira vez para uma língua ocidental só em 1914, por Rabindranath Tagore, e muitas das traduções destes poemas surgem precisamente dessas versões. Como diz Sousa Braga na introdução: «Essa tradução encontrou eco de imediato em Yeats e em muitos outros poetas. Não será alheio ao sucesso que esses poemas encontraram no ocidente, o facto de terem sido traduzidos por um poeta com a qualidade de Tagore. Também Ezra Pound sucumbiu ao encanto de Kabir.»

Essa palavra secreta
alguma vez poderei pronunciá-la?
Se digo que está em mim
é o escândalo
Minto
se digo que está fora de mim
Ele não se revela nem deixa de se revelar
Não há palavras para o definir.

Pouco se sabe sobre a vida de Kabir, para além do que deixam adivinhar os seus poemas, as hagiografias e as lendas. Terá vivido em Varanasi (Benares), o mais sagrado dos lugares sagrados hindus e simultaneamente um centro de comércio e peregrinação, na primeira metade do século XV. Nascido de uma viúva brâmane e adoptado por uma família da casta dos tecelões, convertida à fé islâmica, Kabir revela nos seus poemas um profundo conhecimento quer do hinduísmo quer do islamismo (e dentro deste do sufismo).

Como poderia quebrar-se o nosso amor?
Como a folha de lótus na água
assim és tu
e eu o teu escravo
Como a ave que contempla a lua
assim és tu
Como o rio que desagua no oceano
assim o meu coração desagua em ti.

Bo Bartlett











      Bo Bartlett is an American realist painter who works in the tradition of Grant Wood, Edward Hopper, and Andrew Wyeth. Bartlett’s paintings combine the profound qualities of everyday life with the semantic obscurity of René Magritte.

Maria do Rosário Pedreira - se o encontrares


se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobrar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. se

o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não de mais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. se o vires,

diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.

André Tecedeiro


São precisos pelo menos dois
para que a solidão se instale.

Nisso, a solidão é como um filho.

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