Eu sempre quis ser uma mulher de bem,
alguém útil, excelente e resolvida,
contida nas fobias, estável nos afectos,
brilhante nos estudos, só para dar um exemplo.
Eu sempre quis ser uma mulher de bem
e fazer todos felizes e contentes,
a meus pais e amigos, a fulano e cicrano,
a um lado e a outro…
Mas há em mim alguém que tudo estropia,
que torce os caminhos, baralha as coisas,
desbarata-me os planos, incumpre-me as promessas.
Alguém que pisa antes de mim o meu próprio rasto.
Enfim, visto o dito, já dizem meus pais:
“por este andar, filha, não hás-de chegar a nada”.
Está bem, fico a dever, lamento, confesso:
não sou como Farala, a outra do anúncio.
Sonhadora, insegura, mitómana, um pouco vaga,
com vocação de formiga e verão de cigarra,
contraditória e sempre a conciliar extremos,
em minha defesa alego
que quis sempre ser uma mulher de bem
mas em vez disso sou antes,
no bom sentido da palavra, má.













































