An Irish painter.
Rabindranath Tagore - Se não falas
Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.
A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.
Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.
Pedro Sena-Lino
um dia a noite há-de dizer-te
como o amor escrevia no meu corpo
lá fora o meu desejo assassina o mundo
a noite não existe porque a deixaste
no movimento de pedra dos meus braços
daqui onde estou quem te era
não se vê nada do amor
Pedro Salinas - fé minha
Não me fio da rosa
de papel,
tantas vezes a fiz
eu com estas mãos.
Nem me fio da outra,
da verdadeira,
filha do sol e do tempo,
a prometida do vento.
De ti que nunca te fiz,
de ti que ninguém te fez,
de ti me fio, redondo
seguro azar.
Apaixonado
eu estou perdidamente
apaixonado por ela
conta-me o homem
e quero tanto que isto
passe...
desabafa, mesmo não se
dando o caso de estar a ser rejeitado pela mulher
é que este sentimento
não me dá descanso. esta ansiedade de estar sempre perto dela, de querer
redefinir a todo o instante a cor dos seus olhos, os traços do seu rosto...
e ele quer que o
sentimento passe, e eu a querer que o sentimento chegue
in, De Dentro para fora
in, De Dentro para fora
Richard & Mimi Farina - Pack Up Your Sorrows
Dois seres frágeis como a luz da vela que se apaga devagarinho no candelabro.
Paul Celan - Orvalho
Orvalho. E eu deitado contigo, tu, no lixo,
uma lua lamacenta
atirou-nos com a resposta,
nós separámo-nos aos bocados
e voltámos a esmigalhar-nos juntos:
O Senhor partiu o pão,
o pão partiu o Senhor.
in, Sete Rosas Mais Tarde
Paul Celan - De escuridão em escuridão
Abriste os olhos - vejo a minha escuridão viver.
Vejo-a até ao fundo:
também aí é minha e vive.
Poderá isso transpor? E transpondo acordar?
De quem é a luz que se atrela aos meus passos
para encontrar um barqueiro?
in, Sete Rosas Mais Tarde
Ondjaki - Adeus
no jardim da minha casa encruzilhei-me com uma
lesma.
ela ofereceu um olhar. vi o mundo pela sedução da
lesma:
tudo ardilhado de simplicidade.
ofereci uma tristeza: ela quase cedeu a
transparências.
aprendi com a lesma: uma tristeza não deve ser
emprestada.
o mundo, mesmo partilhado,
é muito a pele de cada qual.
na falta de dedos
a lesma fez adeus com o corpo.
e veio a chuva.
reaprendemos assim o lugar das nossas almas.
in, Materiais para confecção de um espanador de
tristezas
Octavio Paz - Os noivos
Deitados na erva
uma rapariga e um rapaz.
Comem laranjas, trocam beijos
como as ondas trocam suas espumas.
Deitados na praia
uma rapariga e um rapaz.
Comem limões, trocam beijos
como as nuvens trocam suas espumas.
Deitados sob a terra
uma rapariga e um rapaz.
Não dizem nada, não se beijam,
trocam silêncio por silêncio.
Octavio Paz - As palavras
Vira-as,
pega-as pelo rabo (chiai, putas),
açoita-as,
adoça-lhes a boca às reguilas,
enche-as, balões, pica-as,
chupa-lhes sangue e tutano,
seca-as,
capa-as,
pisa-as, galo galante,
torce-lhes o gasganete, cozinheiro,
depena-as,
estripa-as, toiro,
boi, arrasta-as,
fá-las, poeta,
faz que se traguem todas as tuas palavras.
Nuria Mezquita - Canção de amor
"Então darei meeia-volta.
E hei-de partir com o sol, quaando a tarde
morrer..."
conste porém que a tarde não morre,
é a noite que a mata,
e eu empresto-lhe a faca.
Bia Ferreira - Cota Não é Esmola
Existe muita coisa que não te disseram na escola
Cota não é esmola!
Experimenta nascer preto na favela p'ra você ver!
O que rola com preto e pobre não aparece na TV
Opressão, humilhação, preconceito
A gente sabe como termina, quando começa desse jeito
Desde pequena fazendo o corre p'ra ajudar os pais
Cuida de criança, limpa casa, outras coisas mais
Deu meio dia, toma banho vai p'ra escola a pé
Não tem dinheiro p'ro busão
Sua mãe usou mais cedo p'ra poder comprar o pão
E já que tá cansada quer carona no busão
Mas como é preta e pobre, o motorista grita: não!
E essa é só a primeira porta que se fecha
Não tem busão, já tá cansada, mas se apressa
Chega na escola, outro portão se fecha
Você demorou, não vai entrar na aula de história
Espera, senta aí, já já dá 1 hora
Espera mais um pouco e entra na segunda aula
E vê se não atrasa de novo! A diretora fala
Chega na sala, agora o sono vai batendo
E ela não vai dormir, devagarinho vai aprendendo
que
Se a passagem é 3,80 e você tem 3 na mão
Ela interrompe a professora e diz, 'então não vai
ter pão'
E os amigos que riem dela todo dia
Riem mais e a humilham mais, o que você faria?
Ela cansou da humilhação e não quer mais escola
E no Natal ela chorou, porque não ganhou uma bola
O tempo foi passando e ela foi crescendo
Agora la na rua ela é a preta do suvaco fedorento
Que alisa o cabelo p'ra se sentir aceita
Mas não adianta nada, todo mundo a rejeita.
Agora ela cresceu, quer muito estudar
Termina a escola, a apostila, ainda tem vestibular
E a boca seca, seca, nem um cuspe
Vai pagar a faculdade, porque preto e pobre não
vai pra USP
Foi o que disse a professora que ensinava lá na
escola
Que todos são iguais e que cota é esmola
Cansada de esmolas e sem o dim da faculdade
Ela ainda acorda cedo e limpa três apê no centro
da cidade
Experimenta nascer preto, pobre na comunidade
Cê vai ver como são diferentes as oportunidades.
E nem venha me dizer que isso é vitimismo
Não bota a culpa em mim p'ra encobrir o seu
racismo!
E nem venha me dizer que isso é vitimismo.
São nações escravizadas
E culturas assassinadas
É a voz que ecoa do tambor
Chega junto, venha cá
Você também pode lutar, ei!
E aprender a respeitar
Porque o povo preto veio para revolucionar.
Não deixe calar a nossa voz não! Revolução.
Nascem milhares dos nossos cada vez que um nosso
cai
E é peito aberto, espadachim do gueto, nigga
samurai!
Vamo pro canto onde o relógio para
E no silêncio o coração dispara
Vamos reinar igual Zumbi, Dandara
Odara, Odara
Experimenta nascer preto e pobre na comunidade
Você vai ver como são diferentes as oportunidades
E nem venha me dizer que isso é vitimismo
Não bota a culpa em mim p'ra encobrir o seu
ra-cis-mo!
Existe muita coisa que não te disseram na escola!
Cota não é esmola!
Eu disse:Cota não é esmola!
O que eu reaprendo com a minha filha Lara. É do sangue.
Nuno Rocha Morais
As montanhas mudaram os teus olhos:
O azul é agora neles mais alto,
Ou mais profundo, tem o matiz
Venoso da pele exposta à neve,
Da água dormente na cratera de um vulcão.
Nessas montanhas contemplaste
Todos os reinos acidentais
De dias e reflexos e miragens.
Caminhávamos agora ao longo de um rio,
Falávamos de um farol, das tuas ilhas,
Onde era uma vez um mar
E um conde que vivia de naufrágios -
Para ti, o amor.
Falávamos da mordedura que queima,
Do corpo que já não aceita o que se respira.
Nuno Moura - Ana T
se não acreditas que há um homem na rua
não escrevas
se não acreditas que sou de um ferro
não encantes
se não acreditas que o crime foi fácil
não ames
se não acreditas que a bolinha branca
é só para nós
não deixes de vir
se não acreditas que a razão é toda traição
não dispas
se não acreditas nele
não te ponhas à frente
se não leste o que é Belo
não censures
se não esqueceste que acreditavas
não deixes de me deixar
in, Não saia Nem Entre Após o Aviso de Fecho de Portas
Do Fournier
French Artist, Do Fournier was born in the ancient
town of Guerande, Brittany, France. She began her career as a successful
illustrator, and in 1984 changed her focus to the creation of her own
paintings. Her works were so well received, that numerous prestigious
exhibitions were mounted in her native France, and she has frequently been
invited to exhibit at the Salon d’Automne, Paris.
Nuno Higino
Perdeu-se o teu retrato
apagou-se como se apaga
aquilo que se esquece.
Eras jovem, um caule vigoroso
vinhas de longe, chegavas
de um lugar fantástico
- nunca cheguei a saber
qual era esse lugar: se tinha casas
e jardins
se tinha verão, se tinha mar
se era longe ou perto esse lugar.
Um vento raso cobriu de esquecimento
o teu retrato
- era da infância que vinhas?
in, No Silêncio da Terra
Empty Bottle String Band - Wildwood Flower
Probably the best contemporary performance of
"Wildwood Flower" I've heard in many, many years. (The 1928 Carter Family recording is the version with 19 year old Maybelle's incredible guitar work). Nonetheless, this version is beautifully
done, following the A. P. Carter arrangement precisely. Lovely voice and I particularly like the
guitar and autoharp instrumentals.
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