Existe muita coisa que não te disseram na escola
Cota não é esmola!
Experimenta nascer preto na favela p'ra você ver!
O que rola com preto e pobre não aparece na TV
Opressão, humilhação, preconceito
A gente sabe como termina, quando começa desse jeito
Desde pequena fazendo o corre p'ra ajudar os pais
Cuida de criança, limpa casa, outras coisas mais
Deu meio dia, toma banho vai p'ra escola a pé
Não tem dinheiro p'ro busão
Sua mãe usou mais cedo p'ra poder comprar o pão
E já que tá cansada quer carona no busão
Mas como é preta e pobre, o motorista grita: não!
E essa é só a primeira porta que se fecha
Não tem busão, já tá cansada, mas se apressa
Chega na escola, outro portão se fecha
Você demorou, não vai entrar na aula de história
Espera, senta aí, já já dá 1 hora
Espera mais um pouco e entra na segunda aula
E vê se não atrasa de novo! A diretora fala
Chega na sala, agora o sono vai batendo
E ela não vai dormir, devagarinho vai aprendendo
que
Se a passagem é 3,80 e você tem 3 na mão
Ela interrompe a professora e diz, 'então não vai
ter pão'
E os amigos que riem dela todo dia
Riem mais e a humilham mais, o que você faria?
Ela cansou da humilhação e não quer mais escola
E no Natal ela chorou, porque não ganhou uma bola
O tempo foi passando e ela foi crescendo
Agora la na rua ela é a preta do suvaco fedorento
Que alisa o cabelo p'ra se sentir aceita
Mas não adianta nada, todo mundo a rejeita.
Agora ela cresceu, quer muito estudar
Termina a escola, a apostila, ainda tem vestibular
E a boca seca, seca, nem um cuspe
Vai pagar a faculdade, porque preto e pobre não
vai pra USP
Foi o que disse a professora que ensinava lá na
escola
Que todos são iguais e que cota é esmola
Cansada de esmolas e sem o dim da faculdade
Ela ainda acorda cedo e limpa três apê no centro
da cidade
Experimenta nascer preto, pobre na comunidade
Cê vai ver como são diferentes as oportunidades.
E nem venha me dizer que isso é vitimismo
Não bota a culpa em mim p'ra encobrir o seu
racismo!
E nem venha me dizer que isso é vitimismo.
São nações escravizadas
E culturas assassinadas
É a voz que ecoa do tambor
Chega junto, venha cá
Você também pode lutar, ei!
E aprender a respeitar
Porque o povo preto veio para revolucionar.
Não deixe calar a nossa voz não! Revolução.
Nascem milhares dos nossos cada vez que um nosso
cai
E é peito aberto, espadachim do gueto, nigga
samurai!
Vamo pro canto onde o relógio para
E no silêncio o coração dispara
Vamos reinar igual Zumbi, Dandara
Odara, Odara
Experimenta nascer preto e pobre na comunidade
Você vai ver como são diferentes as oportunidades
E nem venha me dizer que isso é vitimismo
Não bota a culpa em mim p'ra encobrir o seu
ra-cis-mo!
Existe muita coisa que não te disseram na escola!
Cota não é esmola!
Eu disse:Cota não é esmola!
O que eu reaprendo com a minha filha Lara. É do sangue.






























