Margareta Ekstrom - De manhã


Quando acordas não sabes ao certo
se já nasceste.
O tecido contra a tua face tem o calor de corpo.
A escuridão escuridão de corpo como no meu ventre:
estavas escondida como se eu trouxesse uma pedra secreta
apertada com força na mão dia após dia
sem mostrar a ninguém.

Do outro lado da fria vidraça
começa o mundo estranho.
A máquina de escrever do pica-pau
envia-te mensagens tão cheias de x's
que nem um espião decifraria.

Encostas a cabeça contra o vidro
escutas também com a testa.
Se ficarmos aqui despontará a lua
mas não sei dizer-te onde.

Os piscos salpicam o choupal vermelho.
Além os bosques serão abatidos.
Porco-espinho e doença
estão entre palavras que desconheces
dormindo sob fundas camadas de futuro.
Os teus pezinhos cabem numa só minha mão.
Se sobrevivermos
serás tu a sustentar-me.

Cautelosa deitas a língua para fora
para provar a existência:
neve ou fogo ?
Ambos queimam.

Em teu sonho giramos num remoinho
e somos aspirados de regresso ao mistério.

Gonçalo M. Tavares - Anexo do corpo

Falar, cantar, fazer barulho disforme,
tudo faz parte de um anexo do corpo,
pois tu és um organismo interior, caro Bloom,
bem como todos os humanos. Sentir não tem som,
isso é mais que evidente.

Leonard Cohen on Finding His Voice



      The Flame is the final work from Leonard Cohen, the revered poet and musician whose fans span generations and whose work is celebrated throughout the world. Featuring poems, excerpts from his private notebooks, lyrics, and hand-drawn self-portraits, The Flame offers an unprecedentedly intimate look inside the life and mind of a singular artist.

Manuel Cintra - Crisálida


dissolver o cansaço na aspirina o açucar e a angústia
a lembrança no sono o tropeço os falhanços, ligar
com cimento, construir

chorar de vez em quando às escuras para a febre descer

polir palavras com escova colocá-las com pinça
no interior, derramá-las num jarro sem vinho sobre o papel,
deixar secar, recortar, recompor, calar gritos, escrever

sonhar os poemas que não se escreve, escrever os poemas
[que não.

podar as plantas nos filhos, mostrar os frutos, o caroço,
o saco de luxo, a hora de ponta, suor, depois lavar, levar
o peito à rua, receber os outros, perdê-los, trocá-los,
devolver este par de mãos àquele mar, afogar em esforço
a carótida torcida do tempo, parar sempre noutra esquina,
fugir à vertigem com o prazer das alturas, perder,

permanecer sentado até à dor nos ossos, cronometrar paciências,
aprender na lentidão a única saída,
rápida

e envelhecer.
acreditar?

Manuel Bandeira - Irene no céu


Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Gerard David , a Northern Renaissance painter











A alegria e a tristeza sacra da Renascença.

David Mason Penny Lane Trumpeter




      This solo is a crown jewel on an absolutely majestic song. "In Penny Lane, there is a fireman with an hourglass, and in his pocket is a portrait of the Queen. He likes to keep his fire engine clean, it's a clean machine." Pure beauty.

Manoel de Barros - A namorada


Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
e pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
e então era agonia.
No tempo do onça era assim.

Manoel de Barros - Mundo pequeno


Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.

Manoel de Barros - Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada


Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

Cartoons










Rosso Fiorentino



A aprendizagem da sabedoria sacra.

Malcolm Lowry - Um rio seco é como a alma


Um rio seco é como a alma
De um poeta que não pode escrever, embora conheça
Quase perfeitamente o tema e as mágoas
Da morte ressequida pelo estio. Mas o que queria,
E foi outrora um mar do mais puro cristal
Recua, torna-se sombrio como arbustos amoniacais, como
___________as folhas antigas do amor,
E abandona o pensamento. Não imagina
Nada que o possa substituir: só no pólo
Da memória oscila uma absurda bússola.
Por isso o rio, entre as lamentáveis árvores sombrias,
É uma agonia de pedras, de horrores submersos
Agora revelados, descoloridos. Por isso existem estas,
Estas pedras, estas ninharias
Quando o rio é uma estrada e a mente um vazio.

Luiza Neto Jorge


Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta

e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme.

Luís Filipe Castro Mendes


Dizias que nos sobram as palavras:
e era o lugar perfeito para as coisas
esse escuro vazio no teu olhar.

E demorava a dura paciência,
fruto do frio nas nossas mãos vazias
que mais coisas não tinham para dar.

Dizia então a dor o nosso gesto
e durava nas coisas mais antigas
a solidão sem rasto que há no mar.

Kate & Anna Mcgarrigle - Complainte pour ste catherine




Moi j'me promne sous Ste-Catherine
J'profite de la chaleur du mtro
Je n'me regarde pas dans les vitrines
Quand il fait trente en dessous d'zro

Y'a longtemps qu'on fait d'la politique
Vingt ans de guerre contre les moustiques

Je ne me sens pas intrpide
Quand il fait fret j'fais pas du ski
J'ai pas d'motel aux Laurentides
Le samedi c'est l'soir du hockey

Faut pas croire que j'suis une imbcile
Parce que j'chauffe pas une convertible
La gloire c'est pas mal inutile
Au prix de gaz c'est trop pnible

On est tous freres pis a s'adonne
Qu'on a toujours eu du bon temps
Parce qu'on reste sur la terre des hommes
Mme les femmes et les enfants

Y'a longtemps qu'on fait d'la politique
Vingt ans de guerre contre les moustiques
Croyez pas qu'on n'est pas christen.

      The lyrics are politically jokey, sung in the persona of a poor girl hanging around above the Côte-Sainte-Catherine metro station in Montreal, where in winter she and her buddies take advantage of the rising heat from the metro tunnel outlets, and in summer they continue the endless battle against mosquitoes. The Piaf-style plangent tune and heartrending harmonies undercut the devil-may-care tone of the lyrics, giving the song a tone of acerbic sweetness.

Sir Pieter Paul Rubens 1577-1640



A vela que se dá até ao fim oferecendo luz. Luz que é conhecimento a partilhar.

Luís Falcão


No dia em que a essência sagrada
das coisas se quebra
olhas a chuva nas flores das magnólias
e a morte
principia sobre ti o seu trabalho

Luís Falcão


Não sei dizer de onde chegam as tuas mãos
Mas essa luz não pertence a este mundo
Só dedos assim tão finos
Poderiam penetrar a espessura da noite
Trazendo ainda frescas umas gotas de manhã

Luís Falcão


Fizeste da tua vida
Uma catedral abandonada
Horas esquecidas
Em adoração nocturna
Pedindo silêncio
A tudo o que perdeste

Luís Falcão


A chuva no teu rosto é um milagre de cristais
Não conheço um relâmpago que não nasça nos teus olhos.

León Felipe - Cantigas


Eu não sei muitas coisas, é verdade.
Falo apenas daquilo que vi.
E eis o que vi:
que o berço do homem embalam-no com cantigas,
que os gritos de angústia do homem afogam-nos
com cantigas,
que o pranto do homem tampam-no com cantigas,
que os ossos do homem enterram-nos com cantigas,
e que o medo do homem…
inventou as cantigas todas.
Eu cá não sei muitas coisas, é verdade,
mas adormeceram-me com todas as cantigas…
e conheço as cantigas todas.

Sonny Terry & Brownie Mc Ghee "Hootin' Blues"




      O verdadeiro nome de Sonny Terry era Saunders Terrell. Nasceu em Greensboro, Georgia, EUA, e perdeu a visão em dois acidentes, um olho na infância e outro na adolescência. O pai tocava harmónica e ensinou Terry que desenvolveu um estilo que imitava sons dos comboios em movimento e de animais, muitas vezes utilizando a voz para conseguir esses efeitos. Percebendo que não poderia exercer uma profissão na agricultura devido à cegueira, Terry decidiu ser cantor de blues. Quis Deus que o fez.

Juan Antonio González Iglesias - Mon tout dans ce monde


Palavras de outra língua, outro século,
outro amor: aceitá-las
para poder dizer como te amo,
o que és para mim.
Exactamente isso: meu tudo neste mundo.

Juan Antonio González Iglesias - digo o que me dita o coração sereno


Outros escrevem para desconcerto
das gerações actuais
e vindouras. Eu
aspiro só a que alguém
(não necessariamente no futuro)
numa cultura muito antiga
me compreenda.

José Tolentino Mendonça - Ad te omnis caro veniet


Nem sei como me interessa
o que resplandece nos instantes
as impressões difíceis que nos arrastam
as palavras que leio no escuro

Se um amor passa por nós
tão perto já de perder-se

Théo Van Rysselberghe 1862-1926








Telas de um pintor belga a descobrir.

José Saramago -


Como um vidro estalado.
A quem me ler
Não direi, já agora, se esta imagem
Vem serena dos ramos que perderam
As folhas contra o céu, ou se mastigo
Qualquer raiva escondida.
Como doendo, ou sendo, ou mastigando,
Sejam rendas aéreas, alma ferida,
Fecho, brusco, o poema onde não digo.

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