Rosalía de Castro - Te amo, por qué me odias?


Te amo... ¿Por qué me odias?
- Te odio... ¿Por qué me amas?
Secreto es éste el más triste
y misterioso del alma.

Mas ello es verdad... ¡Verdad
dura y atormentadora!
- Me odias porque te amo;
te amo porque me odias.

Rosa Alice Branco - Alegria da sombra


É a sombra que apaga o excesso
da forma, a liberta dos ângulos estreitos
das linhas puras, lhe desce
o vestido pelo ombro

contenho o olhar. Uma ruga transitória
desenha-se a um canto e depois desaparece
com o seu esplendor corpóreo.
Nada predomina ou cresce para a luz
nenhuma violência a despe definitivamente
mas é por esse equilíbrio precário entre o vestido
e o ombro
que o sangue da tribo se divide.

Roque Dalton


A vida paga as contas com teu sangue
e tu ainda pensas que és um rouxinol.

Agarra-lhe o pescoço duma vez, desnuda-a,
tomba-a e solta nela tua peleja de fogo,
enche-lhe a tripa majestosa, emprenha-a,
põe-na a parir cem anos pelo coração.

Mas com lindo modo, meu irmão,
com um gesto
propício à melancolia.

Gabriel Sainz


















O surrealista, argentino, diferente do padrão.

Mia Couto


Aguardo-te
como o barro espera a mão.

Com a mesma saudade
que a semente sente do chão.

O tempo perde a fonte
e a manhã
nasce tão exausta
que a luz chega apenas pela noite.

O relógio tomba
E o ponteiro se crava
No centro do meu peito

Fui morto pelo tempo
No dia em que te esperei.

António Osório - Dióspiro


O verde converte-se em vermelho,
é o outono nas folhas do dióspiro.
E caem intactas, por terra
são fogo adolescente. Tudo porque
no alto entre labaredas
amadurecem os frutos, oferta
do divino, desgostoso de si próprio.

Honesty



Faustus - The Death of the Hart Royal



      The Death of the Hart Royal performed by the English folk trio Faustus. This unusual ballad of Robin Hood, Lord of the Greenwood, was found in the archives of Somerset folk song collector Ruth Tongue. The band recorded it for their third album, Death and Other Animals (2017).

The Hart Royal sped where the old oak stood,
Dark were his flanks and his lips ran blood.
King John has sent after me companies three,
But none of them shall bring death to me.

   Hart Royal am I, Hart Royal am I,
   And the Lord of the Greenwood shall watch me die.

They hunted me high and they hunted me low,
With horse and hound and fine crossbow.
All through the land up to Nottingham town,
But never a one could drag me down.

They followed me far but the hounds ran true,
From dawning to dusk they harried me through.
The horses went lame, their hearts did crack,
But still the hounds are on my track.

Call Robin Hood with his longbow,
To Robin alone does the Hart Royal bow.
He never will die at the hands of men,
Call Goodman Oak again and again.

Bold Robin he stood on a far off hill,
Let fly his shot and the Hart lay still.
Farewell good Hart Royal bold Robin he said,
And the Hart sighed and lay dead.

Rogelio Guedea - nos céus do meu existir


nos céus do meu existir deixaste de voar. desde
manhã não te quis. desde manhã prometi que
o amor não faria feridas ou ergueria em mim
templos de amargura. prisão perpétua era teu amor
para minhas mãos. essas edificadoras. essas que se
erguem em pleno voo ou caem. as que fizeram sementeira
em ti e árvores plantaram e fogos. tu és má como
a bondade. és má como saber que alguém. de algum
modo. está sofrendo. pensar que me não tens é pensar
que vais comigo. sim. desse tamanho é minha derrota.

Rogelio Guedea - O ofício


As palavras não encontram o quarto.
Passam duma sala a outra embrulhadas num lençol branco,
como a louca da vila.
Falta-lhes apenas uivar.
Quero dizer, uivam como as ambulâncias
na noite de George Street.
Sofrem de insónia.
Mudam intempestivamente os canais da televisão.
Comem pão duro, de desesperadas.
Não falo do que escreve.
Eu não faço as metáforas do escrevente.
Falo das palavras e do seu exercício de nascer.
Do difícil que é vê-las chegar a um país onde as outras palavras
conduzem pela esquerda
e onde são realmente caros os abafos de lã que poderiam,
em todo o caso, protegê-las do frio.

Roberto Juarroz - O centro do amor


O centro do amor
nem sempre coincide
com o centro da vida.

Ambos
se buscam então
como dois animais perdidos.
Mas quase nunca se encontram,
porque é outra a chave da coincidência:
nascer juntos.

Nascer juntos,
como deviam nascer e morrer
todos os amantes.

Roberto Juarroz - O fruto é o resumo da árvore


O fruto é o resumo da árvore,
o pássaro o resumo do ar,
o sangue o resumo do homem,
o ser o resumo do nada.

A metafísica do vento
regista todos os resumos
e o túnel que as palavras cavam
por baixo de todos os resumos.

Porque a palavra não é o grito,
mas recebimento ou despedida.
A palavra é o resumo do silêncio,
do silêncio, o resumo de tudo.

Acetre - Erva Cidreira




      "Acetre es un grupo español de música folk, proveniente de Extremadura. Se formó en el año 1976 en la localidad pacense de Olivenza, punto de encuentro entre la cultura lusa y la extremeña." in, Wikipedia

Brian McCarthy









An Irish painter.

Rabindranath Tagore - Se não falas


Se não falas, vou encher o meu coração
Com o teu silêncio, e aguentá-lo.
Ficarei quieto, esperando, como a noite
Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.

Pedro Sena-Lino


um dia a noite há-de dizer-te
como o amor escrevia no meu corpo

lá fora o meu desejo assassina o mundo
a noite não existe porque a deixaste
no movimento de pedra dos meus braços

daqui onde estou quem te era
não se vê nada do amor

Pedro Salinas - fé minha


Não me fio da rosa
de papel,
tantas vezes a fiz
eu com estas mãos.
Nem me fio da outra,
da verdadeira,
filha do sol e do tempo,
a prometida do vento.
De ti que nunca te fiz,
de ti que ninguém te fez,
de ti me fio, redondo
seguro azar.

Pedro Mexia - blow up


tenho fotografias
que provam que nunca exististe.

Dei com os burros na água



Há dias assim. Teve de ser.

António Ramos Rosa

Às vezes sinto-te entre o sol e o papel,
às vezes oiço-te quase respirar.

Apaixonado



eu estou perdidamente apaixonado por ela
conta-me o homem
e quero tanto que isto passe...
desabafa, mesmo não se dando o caso de estar a ser rejeitado pela mulher
é que este sentimento não me dá descanso. esta ansiedade de estar sempre perto dela, de querer redefinir a todo o instante a cor dos seus olhos, os traços do seu rosto...
e ele quer que o sentimento passe, e eu a querer que o sentimento chegue

in, De Dentro para fora

Um poema de Leonard Cohen


Silêncio
e um silêncio mais profundo
quando os grilos
hesitam.

Richard & Mimi Farina - Pack Up Your Sorrows



Dois seres frágeis como a luz da vela que se apaga devagarinho no candelabro.  

Paul Celan - Orvalho


Orvalho. E eu deitado contigo, tu, no lixo,
uma lua lamacenta
atirou-nos com a resposta,

nós separámo-nos aos bocados
e voltámos a esmigalhar-nos juntos:

O Senhor partiu o pão,
o pão partiu o Senhor.

in, Sete Rosas Mais Tarde

Paul Celan - De escuridão em escuridão


Abriste os olhos - vejo a minha escuridão viver.
Vejo-a até ao fundo:
também aí é minha e vive.

Poderá isso transpor? E transpondo acordar?
De quem é a luz que se atrela aos meus passos
para encontrar um barqueiro?

in, Sete Rosas Mais Tarde

Ondjaki - Adeus


no jardim da minha casa encruzilhei-me com uma lesma.
ela ofereceu um olhar. vi o mundo pela sedução da lesma:
tudo ardilhado de simplicidade.
ofereci uma tristeza: ela quase cedeu a transparências.
aprendi com a lesma: uma tristeza não deve ser
emprestada.
o mundo, mesmo partilhado,
é muito a pele de cada qual.

na falta de dedos
a lesma fez adeus com o corpo.
e veio a chuva.

reaprendemos assim o lugar das nossas almas.

in, Materiais para confecção de um espanador de tristezas

Fancy moments










In the twilight zone.

Octavio Paz - Os noivos


Deitados na erva
uma rapariga e um rapaz.
Comem laranjas, trocam beijos
como as ondas trocam suas espumas.

Deitados na praia
uma rapariga e um rapaz.
Comem limões, trocam beijos
como as nuvens trocam suas espumas.

Deitados sob a terra
uma rapariga e um rapaz.
Não dizem nada, não se beijam,
trocam silêncio por silêncio.

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