Octavio Paz - As palavras


Vira-as,
pega-as pelo rabo (chiai, putas),
açoita-as,
adoça-lhes a boca às reguilas,
enche-as, balões, pica-as,
chupa-lhes sangue e tutano,
seca-as,
capa-as,
pisa-as, galo galante,
torce-lhes o gasganete, cozinheiro,
depena-as,
estripa-as, toiro,
boi, arrasta-as,
fá-las, poeta,
faz que se traguem todas as tuas palavras.

Nuria Mezquita - Canção de amor


"Então darei meeia-volta.
E hei-de partir com o sol, quaando a tarde morrer..."

conste porém que a tarde não morre,
é a noite que a mata,
e eu empresto-lhe a faca.

Bia Ferreira - Cota Não é Esmola




Existe muita coisa que não te disseram na escola
Cota não é esmola!
Experimenta nascer preto na favela p'ra você ver!
O que rola com preto e pobre não aparece na TV
Opressão, humilhação, preconceito
A gente sabe como termina, quando começa desse jeito
Desde pequena fazendo o corre p'ra ajudar os pais
Cuida de criança, limpa casa, outras coisas mais
Deu meio dia, toma banho vai p'ra escola a pé
Não tem dinheiro p'ro busão
Sua mãe usou mais cedo p'ra poder comprar o pão
E já que tá cansada quer carona no busão
Mas como é preta e pobre, o motorista grita: não!
E essa é só a primeira porta que se fecha
Não tem busão, já tá cansada, mas se apressa
Chega na escola, outro portão se fecha
Você demorou, não vai entrar na aula de história
Espera, senta aí, já já dá 1 hora
Espera mais um pouco e entra na segunda aula
E vê se não atrasa de novo! A diretora fala

Chega na sala, agora o sono vai batendo
E ela não vai dormir, devagarinho vai aprendendo que
Se a passagem é 3,80 e você tem 3 na mão
Ela interrompe a professora e diz, 'então não vai ter pão'
E os amigos que riem dela todo dia
Riem mais e a humilham mais, o que você faria?
Ela cansou da humilhação e não quer mais escola
E no Natal ela chorou, porque não ganhou uma bola
O tempo foi passando e ela foi crescendo
Agora la na rua ela é a preta do suvaco fedorento
Que alisa o cabelo p'ra se sentir aceita
Mas não adianta nada, todo mundo a rejeita.

Agora ela cresceu, quer muito estudar
Termina a escola, a apostila, ainda tem vestibular
E a boca seca, seca, nem um cuspe
Vai pagar a faculdade, porque preto e pobre não vai pra USP
Foi o que disse a professora que ensinava lá na escola
Que todos são iguais e que cota é esmola
Cansada de esmolas e sem o dim da faculdade
Ela ainda acorda cedo e limpa três apê no centro da cidade
Experimenta nascer preto, pobre na comunidade
Cê vai ver como são diferentes as oportunidades.

E nem venha me dizer que isso é vitimismo
Não bota a culpa em mim p'ra encobrir o seu racismo!
E nem venha me dizer que isso é vitimismo.

São nações escravizadas
E culturas assassinadas
É a voz que ecoa do tambor
Chega junto, venha cá
Você também pode lutar, ei!
E aprender a respeitar
Porque o povo preto veio para revolucionar.

Não deixe calar a nossa voz não! Revolução.
Nascem milhares dos nossos cada vez que um nosso cai
E é peito aberto, espadachim do gueto, nigga samurai!
Vamo pro canto onde o relógio para
E no silêncio o coração dispara
Vamos reinar igual Zumbi, Dandara
Odara, Odara

Experimenta nascer preto e pobre na comunidade
Você vai ver como são diferentes as oportunidades
E nem venha me dizer que isso é vitimismo
Não bota a culpa em mim p'ra encobrir o seu ra-cis-mo!
Existe muita coisa que não te disseram na escola!
Cota não é esmola!
Eu disse:Cota não é esmola!

      O que eu reaprendo com a minha filha Lara. É do sangue.  

Nuno Rocha Morais


As montanhas mudaram os teus olhos:
O azul é agora neles mais alto,
Ou mais profundo, tem o matiz
Venoso da pele exposta à neve,
Da água dormente na cratera de um vulcão.
Nessas montanhas contemplaste
Todos os reinos acidentais
De dias e reflexos e miragens.
Caminhávamos agora ao longo de um rio,
Falávamos de um farol, das tuas ilhas,
Onde era uma vez um mar
E um conde que vivia de naufrágios -
Para ti, o amor.
Falávamos da mordedura que queima,
Do corpo que já não aceita o que se respira.

Nuno Moura - Ana T


se não acreditas que há um homem na rua
não escrevas

se não acreditas que sou de um ferro
não encantes

se não acreditas que o crime foi fácil
não ames

se não acreditas que a bolinha branca
é só para nós
não deixes de vir

se não acreditas que a razão é toda traição
não dispas

se não acreditas nele
não te ponhas à frente

se não leste o que é Belo
não censures

se não esqueceste que acreditavas
não deixes de me deixar

in, Não saia Nem Entre Após o Aviso de Fecho de Portas

Do Fournier












      French Artist, Do Fournier was born in the ancient town of Guerande, Brittany, France. She began her career as a successful illustrator, and in 1984 changed her focus to the creation of her own paintings. Her works were so well received, that numerous prestigious exhibitions were mounted in her native France, and she has frequently been invited to exhibit at the Salon d’Automne, Paris.

Nuno Higino


Perdeu-se o teu retrato
apagou-se como se apaga
aquilo que se esquece.
Eras jovem, um caule vigoroso
vinhas de longe, chegavas
de um lugar fantástico
- nunca cheguei a saber
qual era esse lugar: se tinha casas
e jardins
se tinha verão, se tinha mar
se era longe ou perto esse lugar.
Um vento raso cobriu de esquecimento
o teu retrato
- era da infância que vinhas?

in, No Silêncio da Terra

Empty Bottle String Band - Wildwood Flower




      Probably the best contemporary performance of "Wildwood Flower" I've heard in many, many years. (The 1928 Carter Family recording is the version with 19 year old Maybelle's incredible guitar work). Nonetheless, this version is beautifully done, following the A. P. Carter arrangement precisely. Lovely voice and I particularly like the guitar and autoharp instrumentals.

Winslow Homer - Moonlight on the Water



A valsa, já antiga.

Nunes da Rocha - Epicuro na taberna


Encosta a larga barriga
Ao balcão negro da taberna;
E no modo como sorve a jeropiga
(chapéu para a nuca,
Cigarro pendente)
Reconhece no espelho o claro
Entendimento do mundo:
É no gerundo que um verbo se conjuga
E, se um copo não chegar, não esquece,
Há outra nota, dentro da peúga.

Miriam Reyes - Ensinas-me a viver?


Ensinas-me a viver?
Eu deixo-te pegar na minha colecção de cascas
reparto contigo as unhas que guardo no bolso.
As sementes que nos deram
são pastilhas para dormir
e do umbigo adormecidas
crescem-nos fruteiras.

Dou-te de comer.

Anda.
A terra prometida é para os outros.
Para nós é a areia,
uma paisagem que muda com o vento.

Miriam Reyes - Não sou dona de nada


Não sou dona de nada
nem muito menos podia sê-lo de alguém.
Tu não devias temer
quando te estrangulo o sexo,
não penso dar-te filhos, nem anéis, nem promessas.

A terra que tenho é nos sapatos.
Minha casa é este corpo a parecer uma mulher,
não preciso de mais paredes e cá dentro
tenho muito espaço:
este deserto negro que tanto te assusta.

Miklós Ligeti



O escultor é húngaro e o tema é o da sedução de uma sereia.

Mário Rui de Oliveira - A bicicleta


Já não assobias à passagem dos barcos. Cada vez mais as mãos
recolhem aos bolsos. A bicicleta repousa, talvez para sempre
na velha garagem. Os húmidos campos amarelos sucumbem às
queimadas. Os dias, esses, impiedosamente azuis.
Só a música de fiozinho de luz te sustenta.

Margareta Ekstrom - De manhã


Quando acordas não sabes ao certo
se já nasceste.
O tecido contra a tua face tem o calor de corpo.
A escuridão escuridão de corpo como no meu ventre:
estavas escondida como se eu trouxesse uma pedra secreta
apertada com força na mão dia após dia
sem mostrar a ninguém.

Do outro lado da fria vidraça
começa o mundo estranho.
A máquina de escrever do pica-pau
envia-te mensagens tão cheias de x's
que nem um espião decifraria.

Encostas a cabeça contra o vidro
escutas também com a testa.
Se ficarmos aqui despontará a lua
mas não sei dizer-te onde.

Os piscos salpicam o choupal vermelho.
Além os bosques serão abatidos.
Porco-espinho e doença
estão entre palavras que desconheces
dormindo sob fundas camadas de futuro.
Os teus pezinhos cabem numa só minha mão.
Se sobrevivermos
serás tu a sustentar-me.

Cautelosa deitas a língua para fora
para provar a existência:
neve ou fogo ?
Ambos queimam.

Em teu sonho giramos num remoinho
e somos aspirados de regresso ao mistério.

Gonçalo M. Tavares - Anexo do corpo

Falar, cantar, fazer barulho disforme,
tudo faz parte de um anexo do corpo,
pois tu és um organismo interior, caro Bloom,
bem como todos os humanos. Sentir não tem som,
isso é mais que evidente.

Leonard Cohen on Finding His Voice



      The Flame is the final work from Leonard Cohen, the revered poet and musician whose fans span generations and whose work is celebrated throughout the world. Featuring poems, excerpts from his private notebooks, lyrics, and hand-drawn self-portraits, The Flame offers an unprecedentedly intimate look inside the life and mind of a singular artist.

Manuel Cintra - Crisálida


dissolver o cansaço na aspirina o açucar e a angústia
a lembrança no sono o tropeço os falhanços, ligar
com cimento, construir

chorar de vez em quando às escuras para a febre descer

polir palavras com escova colocá-las com pinça
no interior, derramá-las num jarro sem vinho sobre o papel,
deixar secar, recortar, recompor, calar gritos, escrever

sonhar os poemas que não se escreve, escrever os poemas
[que não.

podar as plantas nos filhos, mostrar os frutos, o caroço,
o saco de luxo, a hora de ponta, suor, depois lavar, levar
o peito à rua, receber os outros, perdê-los, trocá-los,
devolver este par de mãos àquele mar, afogar em esforço
a carótida torcida do tempo, parar sempre noutra esquina,
fugir à vertigem com o prazer das alturas, perder,

permanecer sentado até à dor nos ossos, cronometrar paciências,
aprender na lentidão a única saída,
rápida

e envelhecer.
acreditar?

Manuel Bandeira - Irene no céu


Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

Gerard David , a Northern Renaissance painter











A alegria e a tristeza sacra da Renascença.

David Mason Penny Lane Trumpeter




      This solo is a crown jewel on an absolutely majestic song. "In Penny Lane, there is a fireman with an hourglass, and in his pocket is a portrait of the Queen. He likes to keep his fire engine clean, it's a clean machine." Pure beauty.

Manoel de Barros - A namorada


Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
e pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
e então era agonia.
No tempo do onça era assim.

Manoel de Barros - Mundo pequeno


Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
- Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.

Manoel de Barros - Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada


Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

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