Antonio Machado


Tomai atenção:
um coração solitário
não é um coração.

La collectionneuse, Éric Rohmer, 1967




How can we define absolute beauty? God? the Universe? Nature? Perhaps the other.

Anne Sexton


Como já foi dito:
O amor e a tosse
não podem ser disfarçados.
Nem mesmo uma pequena tosse.
Nem mesmo um pequeno amor.

António Reis


Há sempre um rapaz triste
em frente a um barco

a água é sempre azul
e sempre fresca

Em que país encontraria
amor e compreensão

em que país
sentiriam
a sua vida e a sua morte

Não respondem as gaivotas
porque voam

Há sempre um rapaz triste
com lágrimas nos olhos
em frente a um barco.

Erzsébet Szilajka - Pebble Art















A pebble art da senhora Erzsébet Szilajka.

Antonio Gamoneda


Amei as desaparições e agora o último rosto saiu de
mim.

Atravessei as cortinas brancas:

já há somente luz dentro de meus olhos.

Antonio Gamoneda - Amor


A minha maneira de amar-te é simples:
aperto-te a mim
como se tivesse um pouco de justiça no coração
e ta pudesse dar com o corpo

Quando te revolvo os cabelos
algo de lindo nasce das minhas mãos

E não sei quase mais nada. Aspiro apenas
a estar contigo em paz e a estar em paz
com um dever desconhecido
que às vezes me pesa também no coração.

Antonio Gamoneda


Tenho frio junto aos mananciais. Subi até cansar o
coração.

Há erva negra nas ladeiras e açucenas roxas entre
sombras, mas, - que faço diante do abismo?

Sob as águias silenciosas, a imensidão carece de sig-
nificado.

Anise Kolz


Deus
chamo-te
como se existisses

Desce da tua cruz
precisamos de lenha
para nos aquecer.

Molly Drake - How Wild the Wind Blows

      Devo ao meu professor de guitarra esta dádiva, Molly Drake. A mãe de Nick Drake. Nascida na Birmânia, na capital Rangoon, registada com o nome Mary embora todos lhe chamassem Molly, escritora de versos e de canções que ressoam o vento da alma. Foi educada em Londres mas casou na catedral de Rangoon em 1937. Em 1942, o Japão invadiu a Birmânia e Molly refugiou-se em casa da irmã Nancy em Diu, Índia. A casa tinha um piano e, num lugar onde a guerra era improvável, as duas irmãs passavam as tardes a compor melodias para versos limpos, procurando algum conforto. A radio local convidou-as para cantar e nomeou-as The Lloyd Sisters. O marido regressou da guerra e em 1948 nasceu Nick Drake.



The acorn carries an oak tree
Sleeping but for a little while
Winter lies in the arms of spring
As a mother carries her child
And never knows
How wild the wind blows.

A thought carries a universe
A seed carries a field of grain
Love lies in the arms of change
As a joy carries a pain
And no one knows
How wild the wind blows.

          Repare-se na beleza desta cover pelo grupo The Unthanks.



Truly beautiful.



All compositions from this LP were written by Molly Drake.

"Happiness" (1:49)
"Little Weaver Bird" (1:50)
"Cuckoo Time" (1:37)
"Love Isn’t a Right" (2:03)
"Dream Your Dreams" (1:54)
"How Wild The Wind Blows" (1:19)
"What Can A Song Do To You?" (2:29)
"I Remember" (3:04)
"A Sound" (1:54)
"Ballad" (1:56)
"Woods in May" (1:10)
"Night Is My Friend" (1:39)
"Fine Summer Morning" (1:20)
"Set Me Free" (1:29)
"Breakfast at Bradenham Woods" (1:50)
"Never Pine for the Old Love" (4:00)
"Poor Mum" (1:41)
"Do You Ever Remember?" (1:38)
"The First Day" (2:39)

Sharon Shannon and Alan Connor



      Above, the great button accordian player Sharon Shannon (from County Clare, Ireland) performs "Blackbird: Padraig O'Keefe's/The Happy One-Step" with multi-instrumentalist Alan Connor at the Celtic Colours International Festival, Cape Breton Island, 2014.

Andrés Eloy Blanco - Silêncio


Quando tu ficares muda
e eu ficar cego,
vão-nos restar as mãos
e o silêncio.

Quando tu envelheceres,
e eu envelhecer,
hão-de ficar-nos os lábios
e o silêncio.

Quando tu morreres,
e eu também morrer,
têm de enterrar-nos juntos
e em silêncio;

e quando tu ressuscitares,
quando eu tornar a viver,
voltaremos a amar-nos
em silêncio;

e quando tudo acabar
para sempre no universo,
há-de ser um silêncio de amor
o silêncio.

Ana Salomé - Lume


Comecei a fumar para te pedir lume.
Para arranjar um motivo. Para.
Tens lume? Perguntei-te.
Sim. Disseste. Levaste a mão ao bolso.
Engatilhaste o zippo. Todo prateado.
Abeiraste-te e fizeste concha com a mão direita.
Eras canhoto, como o coração.
Agora. Disseste.
E levei o cigarro até à chama.
Já está. E sorriste.
Importas-te que te acompanhe? Perguntaste.
Não, claro que não. Claro que não.
Está frio. Disseste. E esfregaste as mãos.
O cigarro sempre aquece.
Sim. Tossi.
Estás bem? Perguntaste.
Estou muito bem.
Óptimo. Disseste. E sorriste.
Aquele café além é acolhedor. Não tomas nada?
Um chá fazia bem à tosse. Perguntaste. E disseste.
Sim, um chá calhava bem. Estava mesmo a apetecer-me.
Parece que adivinhei. Disseste. E aí sorri eu.
Tomámos chá e de imediato fizemos planos de vida
Que correram mal, imediatamente mal.

Comecei a fumar para te pedir lume.
Para passar o frio.
Descobri que não viria a morrer
Nem de cancro pulmonar, nem de amor,
mas da própria morte, mal o lume se apagou
e o café fechou as portas. Para sempre.

      É uma pena não nos abraçarmos. É uma pena não dar certo e termos sempre de ficar sozinhos. Não sabemos alimentar o amor. Quanto ao poema, ele está muito bem escrito e é belo.

Guido Reni



Blessed soul


The Virgin sewing accompanied by four angels known as la Couseuse


Bacchus and Ariadne


Angel Appearing to Saint Jerome


Susanna and the Elders


Two fauns in a bacchic dance


The penitent Magdalene

The beauty of Barroco painting.

Alejandra Pizarnik - O esquecimento


no outro lado da noite
o amor é possível

- leva-me -

leva-me entre as doces substâncias
que morrem cada dia na tua memória

Alejandra Pizarnik - Mendiga voz


E ainda me atrevo a amar
o som da luz numa hora morta
a cor do tempo num muro abandonado.

No meu olhar perdi tudo.
É tão longe pedir. Tão perto saber que não há.

Alceu - Canção


Bebamos. Porque havemos
de esperar pelas lucernas? O dia
tem a extensão de um dedo. Traz
as taças grandes, meu amor, as coloridas
taças. O filho
de Sémele e de Zeus (1) aos homens
o vinho deu para o esquecimento
de seus males. Enche-as
até transbordarem - uma
parte de vinho para duas de água. E que uma taça
empurre a outra.

Alceu
in Antologia da Poesia Grega Clássica
Portugália Editora, 2009
Selecção e Tradução de Albano Martins

(1) Dioniso

Sara Bareilles and Jason Mraz - It Only Takes A Taste





You remind me of a girl I once knew
Gah, by now she's well in middle age
Probably 41, 42

[Jenna, spoken]
Huh. Thank you?

[Dr Pomatter](spoken)
What? Oh my god no no no no
(sung)
She was a waitress at a shop I used to frequent quite a lot
Nice teeth and small hands and snuck me goodies I couldn't afford then
She was sweet to me
Reminds me of you

[Jenna, spoken]
Hmm. Oh, well, nobody ever really notices me that way, so-

[Dr Pomatter, spoken]
Somebody did, right?

[Jenna]
Hmm?

[Dr Pomatter]
No because you have the, the baby. You'd-

She'd make the pies fresh every day
Like you, I guess but I must say
If pies were books yours would be Shakespeare's letters
You remind me of her, but better

It only takes a taste
When it's something special
It only takes a taste
When ya know it's good
Sometimes one bite is more than enough
To know you want more of the thing you just got a taste of

[Jenna]
That reminds me of a thing we would say
Me and my momma in the kitchen when we'd bake
She'd say Jenna, you can tell the whole story with a taste

[Dr Pomatter]
Yeah! No that's exactly what I mean
I swear that as those flavours mixed and melted I can hear the sirens sing
It was truly something special-- one taste and I want the whole thing

I must say
It felt like I was carried away
Intoxicated, made me escape the room I was in
I can't help but wonder how your hands must have felt
Creating such a masterful thing

[Jenna]
Just one bite
Caused all that wondering

[Dr Pomatter]
It only takes a taste

[Dr Pomatter/Jenna]
It only takes a taste when you know it's good
Sometimes one bite is more than enough
To know you want more of the thing you just got a taste of.

      Sara Bareilles and Jason Mraz sing "It Only Takes A Taste" from Waitress The Musical!  Storytelling and beautiful music.

Alberto Pimenta


conheço um poeta
que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é só fome de sobremesa alheia.

a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muito
de si
e pouco ou nada dos outros.

o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também.

Albano Martins - Ainda te falta


Ainda te falta
dizer isto: que nem tudo
o que veio
chegou por acaso. Que há
flores que de ti
dependem, que foste
tu que deixaste
algumas lâmpadas
acesas. Que há
na brancura
do papel alguns
sinais de tinta
indecifráveis. E
que esse
é apenas
um dos capítulos do livro
em que tudo
se lê e nada
está escrito.

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