Robin Wight











The wirework and its beauty.

Bénédicte Houart


são as mulheres que
fazem chorar as cebolas
como se descascassem a própria vida
e, arredondando-se então, descobrissem
um corpo, o seu
uma vida, a sua
e, no entanto, nada que de verdade
pudessem seu chamar
ou talvez sim, mas só
aquela gota de água salpicando
um canto do avental onde
desponta uma flor de pano colorida que
ainda ontem ali não ardia

Peter Gabriel - Summertime



Summertime,
And the livin' is easy
Fish are jumpin'
And the cotton is high.

Your daddy's rich
And your mamma's good lookin'
So hush little baby
Don't you cry.

One of these mornings
You're going to rise up singing
Then you'll spread your wings
And you'll take to the sky.

But till that morning
There's a'nothing can harm you
With daddy and mamma
Standing by.


      This recording is a tribute to the great legend Larry Adler (Harmonica impresario and friend of George Gershwin) in celebration of his 80th birthday. The song is sung several times throughout the opera Porgy and Bess. It’s one of the best jazz negro lullabies ever.

Matilde Campilho - O último poema do último príncipe


Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar.

E isso
diz muito sobre a minha caixa torácica.

Ana Tecedeiro


Não ando por aí a dar
poesia de borla.
Nunca se sabe como vai ser
o dia de amanhã.

Jorge Sousa Braga - Poema em forma de delta


Há rios
que são navegáveis
e navegam. É desses que eu gosto.

Alison Krauss & Union Station - The Lucky One



      Look at the way the girls in the video look back at him, he's already had one night stands with them or soon will.

"You're the lucky one
So, I've been told as free as the wind,
Blowin' down the road
Loved by many, hated by none
I'd say you're lucky 'cause I know what you've done."

      He's not looking for a relationship just fun. Alison is remembering a guy from her past just like him and now with this in mind watch it again. 

Paul Delvaux - Paisagem com candeeiros



O sétimo selo.

Carla Pinto Coelho - Como se ainda pudesses escrever poemas


II

Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.

Contaste-me um pequeno segredo que tinha
ficado por dizer, e eu chorei
com os meus braços agigantados na ausência
enrolados em ti, como algas do fundo do mar,
como que a puxarem-te para as profundezas
dos meus abismos.

E tu sorrias e falavas baixinho,
como quem acalma uma criança a quem aconteceu
um sonho mau.

III

Pelo fim da noite sonhei contigo
como se ainda pudesses escrever poemas.

Ainda não acordei.

José Mário Silva - Literatura


Esperávamos por
ela na esplanada,
sábados à tarde,
como quem espera
aquele amigo mais velho,
tão ingrato, que um dia
deixou de nos falar.

Matilde Campilho - Príncipe no roseiral


Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou.
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tractores avariados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.

Отава Ё - Что за песни




      O vídeo começa com uma situação de espera por uma mudança. Nem todos os passageiros entram e é preciso dinheiro para pagar o bilhete. Dos que entram, pelo menos um é músico e outro é pescador. A partir daqui começa uma viagem onde se sonha e fantasia em russo, um povo que também procura e celebra a beleza. 

João Pedro Silveira - Mudanças


Se tudo muda como tantos apregoam,
Porque é que ainda escrevo poemas?
Quando escrevê-los é uma forma tão triste
De confessar não vivê-los.

Dinis Moura - Funeral


O meu tio levou um requintado fato preto
feito por medida, tecido italiano, caríssimo.
O meu irmão, que detesta gravatas pretas,
colocou uma, porém, talvez para dissimulá-la,
vestiu uma camisa preta.
As minhas primas, umas de calças, outras de vestido,
outras de saia, foram todas vestidas de preto.
A minha tia, sempre exagerada,
levou uma minissaia quase curtíssima e uma camisola
exageradamente decotada, tudo da mesma cor, tudo preto.
A minha avó levou um vestido e um xaile da cor
que vem ostentando ininterruptamente há dez anos:
a cor que a morte do meu avô sepultou em todas
as suas roupas: a cor do luto – o preto.
O médico foi de preto,
o advogado também.
Foram alguns amigos, alguns conhecidos,
todos eles vestidos de preto.
De preto foi também a única pessoa
que não conheci.

Só eu chorei.

Anna Akhmátova


Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador
se fundam os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode
nem os anos da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco,
e quem o alcançar é ferido de aflição.

Agora compreendes porque já não bate,
sob a tua mão em concha, o meu coração.

Ada Breedveld













Ada Breedveld was born in Dordrecht at the start of the Dutch "hunger winter" in 1944. 

Jorge Sousa Braga - O livro


Há um livro que nunca chegarás
a ler um livro que te escapou

da mão estava exposto na livraria
mas outra coisa chamou a tua

atenção ou alguém o arrumou
em segunda fila na estante…

Tu não o sabes – como o poderias
saber? – mas esse livro descreve

como e quando vais morrer.

Ana Tecedeiro


Quanto mais urgente é a escrita
mais humilde o suporte.

Tudo o que realmente importa
foi escrito
em bilhetes de autocarro,
guardanapos quase translúcidos,
versos de sobrescritos,
pacotes de pastilha elástica.

E ninguém o compreende
porque quanto mais urgente
a escrita
mais ilegível a letra.

Gente Feliz com Lágrimas





      A obra do escritor açoriano João de Melo "Gente Feliz com Lagrimas" tem uma escrita comovente, visceral, íntima, que nos obriga a virar a cara, porque ignora a razão e deixa marcas na alma, sobretudo na busca da "criança interior" que vive em nós. No livro encontram-se pessoas com essas "crianças interiores" sobejamente coloridas de vida, que lembram um arco-íris, e que se arrastam na busca incessante da felicidade nos tempos do Estado Novo. Transposto para imagem tem momentos muito bonitos.

Latcho Drom - Taraf de Haidouks




A Roménia, os ciganos, a tradição e  a alegria.

José Agostinho Baptista - É a prata da minha amada


É a prata da minha amada.
Dir-lhe-ei docemente adeus,
e que não arranque os espinhos da primeira rosa,
subindo pela vida.
E quando eu caminhar pelo vale da sombra,
ela descerá ao pequeno porto, descalçando as sandálias,
mergulhando no mar,
repetindo os nomes de todos os que partiram,
de todos os que a amaram,
hesitando à entrada da taberna,
vendo o meu lugar vazio, o violino sobre a mesa, um
silêncio maior que a lentidão das praias,
e pensará em tudo, em cada som, em cada lágrima, em
nada.
Ela voltará as costas.
Nunca fomos deste mundo, dir-lhe-ei por fim, ao fechar
a última porta.

Jorge Sousa Braga - Hidrologia


Nem em todas as montanhas nasce um rio
nem todos os rios vão desaguar
ao coração enorme e sedento
dum poeta.

Thomas Edwin Mostyn







Pintor inglês nascido em Manchester, 1864.

Eugénio de Andrade - Coração habitado


Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.

Juan Manuel Roca - Parábola das mãos


Esta mão pega num fruto,
A outra afasta-o.
Uma mão recebe o falcão, tira uma luva,
A outra afugenta-o, pega numa tocha.
Uma mão escreve cartas de amor
Que a sua equívoca siamesa enche de injúrias.
Uma mão bendiz, a outra ameaça.
Uma desenha um cavalo,
A outra, um puma que o assusta.
Pinta um lago a mão direita:
Afoga-o num rio de tinta, a esquerda.
Uma mão desenha a palavra pássaro,
A outra escreve a sua jaula.
Há uma mão de luz que constrói escadas,
Uma sombra que solta degraus.
Mas chega a noite. Chega
Quando cansadas de se agredir
Fazem trégua na sua guerra
Porque procuram o teu corpo.

Carla Pinto Coelho


não tenho nada de meu
nem coração, nem cabeça
nem pernas que me levem
nem mãos que me acolham

não tenho nada de meu
e se tivesse, não queria

o peso do ouro
impede-nos de naufragar

Bénédicte Houart


falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida

Christian Schloe



The key


Sweet heart

Matilde Campilho - Rua do Alecrim


Uma menina desenha uma estrela de cinco pontas
a esferográfica Bic na palma da mão de outra menina.
Chove, e mesmo assim o desenho não sangra:
é preciso muito mais do que certas condições
climatéricas para que o amor escorra.

Assisto a toda a cena e penso que esta visão,
real ou inventada,
é muito pior do que a verdade a bofetadas.

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