Filipa Leal


O que eu queria mesmo era escrever para me salvar.
Para não ter medo.
Para te perder melhor.

Joan Baez - The President Sang Amazing Grace




A young man came to a house of prayer
They did not ask what brought him there
He was not friend, he was not kin
But they opened the door and let him in.

And for an hour the stranger stayed
He sat with them and seemed to pray
But then the young man drew a gun
And killed nine people, old and young.

In Charleston in the month of June
The mourners gathered in a room
The President came to speak some words
And the cameras rolled and the nation heard.

But no words could say what must be said
For all the living and the dead
So on that day and in that place
The President sang Amazing Grace.

We argued where to place the blame
On one man's hate or our nation's shame
Some sickness of the mind or soul
And how the wounds might be made whole.

But no words could say what must be said
For all the living and the dead
So on that day and in that place
My President sang Amazing Grace.



      "I was driving when I heard the President Obama sang 'Amazing Grace' at the service for the Charleston Church shooting victims, it was deeply moving. Somehow Obama, with his humble singing voice, turned grief into grace. With humility, compassion, and a two-hundred-year-old hymn, he made us feel that the evil deeds of a sick individual could not shake the bonds of our common humanity."
                                                                   Joan Baez

     Nota: A enumeração da vitimas por Obama faz-nos sentir pequenos. Um grande momento.

Sandro Botticelli



A harmonia da beleza.

Adília Lopoes


A rapariga que esperava muito
as cartas do namorado
que lhe escrevia muito pouco
casou-se com o carteiro.

Fernando Namora


Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não contes
que o mar és tu
e a nau sou eu.

Diogo Vaz Pinto


Guardei o recibo, que não serve para nada.
Dados impessoais: o nosso subtotal foi de 6.35
— pediste uma água mineral, um café
e uma sandes de ovo (em que nem tocaste);
pagámos caro por estarmos ali os dois,
na cafetaria do aeroporto com uma hora inteira
só para dizer uma palavra. Tudo
processado por computador, IVA incluído.
Uma operação que teve início precisamente
às 04:55 da madrugada. Agora
temos muito tempo para nos contentarmos
por já não termos que disputar as contas,
tu pagas os teus cafés, e eu sem ti
passo bem sem café.

The Rolling Stones - Little red rooster



I am the little red rooster too lazy to crow for day
Keep everything in the farm yard upset in every way.

The dogs begin to bark and hounds begin to howl
Watch out strange cat people little red rooster's on the prowl.

If you see my little red rooster, Please drive him home!
Ain't had no peace in the farm yard since my little red rooster's been gone.

      É a história de um galo que acordou demasiado tarde para cantar o amanhecer e a rotina habitual na quinta alterou-se. O dono da quinta está preocupado. Reparar no excelente trabalho de Brian Jones.

Jo 6,35


Disseram-Lhe eles:
«Senhor, dá-nos sempre desse pão».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu sou o pão da vida:
quem vem a Mim nunca mais terá fome,
quem acredita em Mim nunca mais terá sede».

      Este saciar eterno de fome e sede, pelo menos, acontece-me com a beleza mais sublime. 

Constantine P. Cavafy - Quanto puderes


Mesmo que não possas fazer a vida como a queres,
isto ao menos tenta
quanto puderes: não a desbarates
nos muitos contactos do mundo,
na agitação e nas conversas.

Não a desbarates arrastando­a,
e mudando­a e expondo­a
ao quotidiano absurdo
das relações e das companhias
até se tornar um estranho importuno.

Folk beauty












A roupa antes do tempo da indústria.
Photos from Pinterest.

Izet Sarajlic


Amo -
lançando-se contra moinhos de vento gritava dom Quixote.
Amo –
envenenado de céus gritava Otelo.
Amo –
recostado em Ossian soluçava Werther.
Amo –
tremendo nas carruagens de Jasvin repetia Vronski.
Amo –
separando-se de Grusenka sonhava Dimitri Karamazov.
Amo –
brandindo a espada recitava Cyrano.
Amo –
regressando do comício sussurrava Jacques Thibault.
Amo –
gritaria também o herói de um romance contemporâneo,
mas o autor não lho permite.

Não está na moda.
O amor já não é contemporâneo.

Carlos Bessa


Olhem à vossa volta e
de entre o que mais importa
digam-me
o que deitavam fora?

Miley Cyrus - Jolene




Jolene, Jolene, Jolene, Jolene
Oh, I'm begging of you please don't take my man
Jolene, Jolene, Jolene, Jolene
Please don't take him even though you can.

Your beauty is beyond compare
With flaming locks of auburn hair
With ivory skin and eyes of emerald green
Your smile is like a breath of spring
Your voice is soft like summer rain
And I cannot compete with you, Jolene.

And I can easily understand
How you could easily take my man
But you don't know what he means to me, Jolene
He talks about you in his sleep
And there's nothing I can do to keep
From crying when he calls your name, Jolene.

I had to have this talk with you
My happiness depends on you
And whatever you decide to do, Jolene
You could have your choice of men
But I could never love again
He's the only one for me, Jolene.

      Uma versão bonita de um original de Dolly Parton. Os versos descrevem a rendição de uma mulher à beleza de outra e, daí, a impossibilidade de conquistar o homem que deseja amar. Problemas antigos de mulheres. A música alegre de Nashville, Tennessee.

Anita Magsaysay-Ho














As telas são de uma pintora filipina que descreve
o quotidiano das mulheres no seu país.

O Verão



      As temperaturas estiveram acima dos 45 graus em 16 das 96 estações de medição de Portugal continental, às 17 horas deste sábado​​​​, 4 de Agosto 2018. Dados segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que aponta novos máximos históricos em 26 locais.
      A temperatura mais elevada registada até às 17 horas foi 46,8 graus, em Alvega, concelho de Abrantes, a que se seguiram: Santarém 46,3°, Alcácer do Sal 46,2°, Coruche e Alvalade do Sado 46,1°, Pegões 46,0º, Neves Corvo 45,8°, Setúbal 45,5°, Évora e Tomar 45,4°, Reguengos e Amareleja 45,3°, Avis, Viana do Alentejo e Portel 45,2°.

A perda, uma década depois



No meu peito ainda balbucia um
não te vás ainda
que não chega a ser verbalizado.
a perda não é perca, é transformação
recordo, silenciosamente.

      Os últimos anos têm sido vividos como a rosa de Jericó. Esta flor, como diz o seu nome, pode ser encontrada na região de Jericó, na Palestina. A planta, de origem desértica, pode parecer como todas as outras, mas diferencia-se por uma intrigante habilidade a qual lhe rendeu lendas e histórias.
      A rosa de Jericó possui a impressionante habilidade de entrar num estado de dormência e parecer praticamente morta quando o ambiente se torna inóspito, perdendo grande parte da folhagem e apresentando galhos secos e retraídos. Logo em seguida, as suas raízes também se soltam, dando à planta um formato esférico. Ela pode permanecer nesse estado por muito tempo até que encontre novamente um ambiente propício para a sua sobrevivência. É só então que, muito rapidamente, ela volta a criar raízes, a desabrochar e a ganhar novamente um ar verdejante no solo.
      A última fase da rosa de Jericó não chegou. A perda foi mesmo perca, não transformação.

The Rolling Stones - Angie




Angie, Angie!
When will those dark clouds all disappear?
Angie, Angie
Where will it lead us from here?
With no lovin' in our souls
And no money in our coats
You can't say we're satisfied.
Angie, Angie!
You can't say we never tried.

Angie, you're beautiful
But ain't it time we say goodbye.
Angie, I still love you
Remember all those nights we cried.
All the dreams were held so close
Seemed to all go up in smoke
Let me whisper in your ear
Angie, Angie!
Where will it lead us from here.

Oh, Angie, don't you wish
Oh your kisses still taste sweet
I hate that sadness in your eyes
But Angie, Angie!
Ain't it time we said goodbye
With no lovin' in our souls
And no money in our coats
You can't say we're satisfied.

Angie, I still love you baby
Everywhere I look I see your eyes
There ain't a woman that comes close to you
Come on baby dry your eyes
Angie, Angie, ain't good to be alive?
Angie, Angie, we can't say we never tried.


      Certa vez, li num jornal já antigo de nome Sete, uma interpretação marxista desta canção que não esqueci. Nela, um homem e uma mulher amam-se e para lá desse sentimento tão intenso têm muitos sonhos em comum, sobretudo viver uma vida plena e não sobreviver na vida. Porém, o salário não chega, o dia a dia é sempre a correr, há muito mais deveres do que direitos e os dois chegam à conclusão que o melhor é separarem-se porque tão importante como o amor são os sonhos e nunca os conseguirão alcançar. Por fim desresponsabilizam-se dizendo "we can't say we never tried".

      Keith Richards escreveu a canção na Suiça e segundo algumas vozes, a semente da canção foi Anita Pallenberg, outras a mulher de David Bowie, também a filha recém-nascida Angela. Keith, em 2010, na sua autobiografia Life, clarificou: "While I was in the [Vevey drug] clinic (in March-April 1972), Anita was down the road having our daughter, Angela. Once I came out of the usual trauma, I had a guitar with me and I wrote 'Angie' in an afternoon, sitting in bed, because I could finally move my fingers and put them in the right place again, and I didn't feel like I had to s--t the bed or climb the walls or feel manic anymore. I just went, 'Angie, Angie.' It was not about any particular person; it was a name, like ohhh, Diana. I didn't know Angela was going to be called Angela when I wrote 'Angie.' In those days you didn't know what sex the thing was going to be until it popped out."


Alexandre Sarrazola - Wolkswagen


arrancaram-nos o baloiço do jardim;
se calhar já estamos crescidos
o espelho pende como um rosto do bico da pega
aquela que sujava o chão da cozinha,
picava as pernas das raparigas e roubava anéis de ouro nos dias de chuva

a pega morreu há muitos anos, nunca a conhecemos.
só lá está o terraço e uma videira muito velhinha.
não sei porque nos arrancaram o baloiço do jardim, agora que passaram
os Santos e o Natal se aproxima

o outro lado do espelho fala de dois miúdos a espreitar;
os olhos redondos a conquistar os leões entre a música de circo
tudo vemelho amarelo e azul com serpentinas e o calor do riso dos pais.
do lado de cá já se envergam chapeuzinhos de tédio com véus
de pés-de-galinha

a esperança nos faróis dos carros às cinco da tarde, já noite pelo inverno
e o pai que se atrasava a ir buscar-nos à catequese ou à ginástica.
"ainda não é aquele, que o Wolkswagen tem uns faróis redondinhos"
como os nossos olhos sem expressão a fitar os buracos que restam na terra
do jardim.
não sei porque nos arrancaram o baloiço

Fernando Camilo Ferreira


a terra só atraiu a lua
no preciso instante em
que a maçã caiu
na cabeça de Newton

e no entanto
a maçã não caiu
na cabeça de Newton

caiu na terra

a cabeça de Newton estava lá por acidente

Kinga Britschgi





      Kinga Britschgi is a Hungarian painter living in the United States.

Manuel António Pina - A um Jovem Poeta


Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

in, Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança

The Rolling Stones - Bob Wills Is Still The King




      Os Stones foram ao Texas e cantaram uma canção para os texanos, tal como se viessem a Lisboa e cantassem um fado – e não sei se não chamariam de novo a Ana Moura. Podemos dizer que Mick está um pouco fora da sua zona de conforto, o que torna o momento ainda mais divertido. Um tributo a Bob Wills and Waylon em apenas quarto minutos, dizendo na terra do Elvis que afinal ele não é o Rei mas Bob Wills.
      Por vezes, diz-se que os Stones tocam apenas Rhythm and blues, e outras vezes que soam "too country, with Honky Tonk Woman and Tumbling Dice". São o que sempre foram: rock and roll, alegria e prazer.

Livre


Dinis Moura - Funeral


O meu tio levou um requintado fato preto
feito por medida, tecido italiano, caríssimo.
O meu irmão, que detesta gravatas pretas,
colocou uma, porém, talvez para dissimulá-la,
vestiu uma camisa preta.
As minhas primas, umas de calças, outras de vestido,
outras de saia, foram todas vestidas de preto.
A minha tia, sempre exagerada,
levou uma minissaia quase curtíssima e uma camisola
exageradamente decotada, tudo da mesma cor, tudo preto.
A minha avó levou um vestido e um xaile da cor
que vem ostentando ininterruptamente há dez anos:
a cor que a morte do meu avô sepultou em todas
as suas roupas: a cor do luto – o preto.
O médico foi de preto,
o advogado também.
Foram alguns amigos, alguns conhecidos,
todos eles vestidos de preto.
De preto foi também a única pessoa
que não conheci.

Só eu chorei.

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