The Vessel






É um filme belo onde nenhuma sequência é gratuita. E o que é esse belo? Justamente aquilo que extrapola a nossa capacidade de negociação com a vida, e com a morte, munidos dos instrumentos que ao longo da história da humanidade fomos amealhando como escudos para a luta inglória com o inevitável: a ideia de que Deus não nos dará uma cruz maior do que a que pudermos carregar, nem qualquer dor que não teremos condição de suportar sob a sua protecção e amparo; e de que tudo o que nos acontece, de bom e ruim, é porque Deus assim quis, para nosso bem, para fortalecer a nossa fé nele e numa vida eterna.
O que se segue a essa explosão de loucura é o que transforma The Vessel num filme singular e imprescindível, parte da nossa vocação em reconhecer a nossa verdadeira condição: navegantes numa casca de noz, passíveis de submergir num mar repleto de perigos, num ambiente onde sequer conseguimos compreender para acreditar.
Porém, o que nos impele a continuar a navegar, mesmo conscientes das ameaças, mesmo em circunstâncias tão adversas, é também o que nos fortalece na nossa viagem. E é igualmente o que promove os encontros verdadeiros com nossos semelhantes, que nos trazem a interlocução e a lucidez capazes de nos fazer reconhecer que o que atribuímos à vontade de algum Deus na verdade é o nosso próprio desejo de viver, de navegar, enquanto houver vida, enquanto houver mar, e enquanto houver quem deseje navegar junto connosco.

Mary Alayne Thomas












      Mary Alayne Thomas: "I love creating! I have painted all my life, and grew up totally ensconced in art. My parents are both artists, who raised me in a little, pink, haunted adobe house in Santa Fe New Mexico. When I wan't chasing lizards through the high desert landscape, I spent my childhood in my father's vegetable garden, tangling up my mother's loom, and making clay animals and dolls in my father's pottery studio."

Hans Georg Bulla - Despedida


de resto
não te esqueças de me
devolver
a minha parte
dos nossos sonhos

pois nós tínhamo-
- los em
comum

sonhado
ou

Francisco José Viegas


De novo o amor

Aí navegam os teus braços, atravessam-me de um lado
ao outro, e do outro lado do mundo uma árvore estará
erguida para me acolher no seu verde ramo. É um pássaro

erguido à altura dos teus dedos, quando brincam
dentro de mim e me perfuram o coração: e quando me rio
tu falas do perfume pegado à camisola e dos lenços

espalhados na mesa. Quando esse pássaro vier trazer-te
a manhã, não abras a porta, é apenas um voo inquieto.

Sophia de Mello Breyner Andresen


O vazio desenhava desde sempre

O vazio desenhava desde sempre a forma do teu rosto
Todas as coisas serviram para nos ensinar
A ardente perfeição da tua ausência.

Paul Simon - Kodachrome




      Com o Minneapolis skyline como cenário, a tão acusada "Touch screen generation", com muito mais formação musical, continua a tocar as canções antigas. Por isso, Sr. Simon não se vá embora fique, pelo menos, mais 20 anos.

Daniel Ridgwa Knight - A July Morning



Assim. Como de outro modo?

Daniel Faria


Desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
Não rodou mais para a festa, não irrompeu
em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
A mudança fez-se vazio repetido
e o a vir a mesma afirmação da falta.
Depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
nem se cumpriu
E a espera é não acontecer – fosse abertura –
e a saudade é tudo ser igual.

      Li algures "Já basta de poesia", mas como se temos o Daniel?

Mário de Sá-Carneiro - Eu-próprio o outro

                                                           Novembro, 13.

É lamentável como me erro continuamente. Em mim e entre os mais.
Eu fiquei sempre, nunca fui – mesmo quando me perdi.
Às vezes ainda me decido a partir. E parto. Mas nunca venço seguir. Se não é por culpa minha – é por culpa dos outros, que me acenaram.
É que eles, se me acenaram, foi por julgarem que eu nunca os seguiria – foi para sofrerem. E como afinal parti atrás dos seus gestos, desencantaram-se de mim, fugiram escarnecendo-me. 
Tombei-lhes.
Só me é permitido ser feliz, não o sendo.
É inacreditável!
Quase todos se contentam consigo próprios – bastam-se. E vivem, e progridem. Fundam lares. Há quem os beije.
Que náusea! Que náusea! Não se ter ao menos o génio de se querer ter génio!... Miseráveis!

      Mário de Sá-Carneiro  in, Céu em Fogo

Arte Minimalista











Pouco, chega.

The Be Good Tanyas - Waiting Around to Die




Sometimes I don't know where this stony road is taking me
Sometimes I don't know the reason why
So I guess I'll keep gambling, lots of booze and lots of rambling.
Well it's easier than just waiting around to die.

Well one time, friends, I had a Ma I even had a Pa
He beat her with a belt once, cuz she cried
She told him to take care of me and headed down to Tennessee
Well it's easier than just waiting around to die.

Then I became of age and I found a girl in a Tuscaloosa bar
She cleaned me out and she hit it on the sly
Well I tried to kill the pain I bought some wine, I hoppped a train
Well it was easier than just waiting around to die.

Then a friend said he knew where some easy money was
We robbed a man and brother, did we fly
But the posse caught up with me and drugged me back to Muskogee
And now it's two long years just waiting around to die.

Now I'm out of prison, and I got me a friend at last
He don't steal, or cheat, or drink or lie his name is codeine
And he's the nicest thing I've seen
And together, we're gonna wait around to die.

      "Waiting Around to Die" is a folk song written and recorded by Texas songwriter Townes Van Zandt. It chronicles the life of a drifter as he passes sadly through the experiences of an abusive father, the abandonment of his mother, drug and alcohol abuse, fast women, and even prison. The song appeared first on Van Zandt's debut album, in 1968. It's the solemn story of a boozy rambler struggling to see the point of a fruitless existence that precedes eternal silence. A mirror of the US way of life at the time here sung by three ladies of this recent generation.

Olivia Muus





Olivia Muus is a pop designer and marketer based in Denmark.

Imitação da Felicidade


Imito-te
como as cúpulas ao sol.

Porém
as torres só se vêem no chão quando chove.

E a imitação
é triste porque existe a noite.

in, tulisses

Cecília Meireles


O vento é sempre o mesmo,
mas a sua resposta
é diferente em cada folha.

Somente a árvore seca fica imóvel
entre borboletas e pássaros.

Sophia de Mello Breyner Andresen


O vazio desenhava desde sempre a forma do Teu rosto
Todas as coisas serviam para nos ensinar
A ardente perfeição da Tua ausência

in, Geografia, 1962

Génesis - No principio não era assim


Deus plantou um jardim
E nele colocou o Amor.

Ao vê-lo só decidiu dar-lhe
Companhia feminina: a Amora.

Estavam nus mas não tinham vergonha.

Martha My Dear





      A canção é inspirada na melodia de M'appari' tutt' amor, da ópera "Martha" de Friedrich Von Flotow (1812-1883), executada pela primeira vez em Viena, 1847. Paul costumava praticar esse exercício de piano, e através dele compôs esta canção que na época foi uma maneira de "provar" a ele próprio, que conseguia tocar rápido com ambas as mãos: "When I taught myself piano I liked to see how far I could go, and this started life almost as a piece you'd learn as a piano lesson. It's quite hard for me to play, it's a two-handed thing, like a little set piece. In fact I remember one or two people being surprised that I'd played it because it's slightly above my level or competence really, but I wrote it as that, something a bit more complex for me to play. Then while I was blocking out words – you just mouth out sounds and some things come – I found the words 'Martha my dear'".
      Embora partes da letra apontem que foi escrita para Jane Asher, que tinha rompido o namoro com McCartney recentemente - Paul compôs várias canções para Jane como "Here, There and Everywhere," e "We Can Work It Out". O título "Martha My Dear," é irónico e é dedicado à cadela de raça sheepdog de Paul que na época tinha três anos e tinha o nome da ópera, Martha. Mais do que Jane, Martha era-lhe fiel.
      Para manter as interpretações, McCartney disse recentemente numa entrevista, que: "A canção é sobre a minha "musa" – a voz que diz na minha consciência quais palavras e quais os acordes que devo escrever."
      Aqui, numa versão bonita - diria bluegrass, da nova geração.

Solmaz Tohidlou







Uma pintora da antiga Pérsia, hoje Irão, local berço 
de uma das mais antigas civilizações do mundo.

Joaquim Pessoa - Tu ensinaste-me a fazer uma casa


Tu ensinaste-me a fazer uma casa:
com as mãos e os beijos.
Eu morei em ti e em ti os meus versos procuraram
voz e abrigo.
E em ti guardei meu fogo e meu desejo. Construí
a minha casa.
Porém não sei já das tuas mãos. Os teus lábios perderam-se
entre palavras duras e precisas
que tornaram a tua boca fria
e a minha boca triste como um cemitério de beijos.

Mas recordo a sede unindo as nossas bocas
mordendo o fruto das manhãs proibidas
quando as nossas mãos surgiam por detrás de tudo
para saudar o vento.

E vejo ainda o teu corpo perfumando a erva
e os teus cabelos soltando revoadas de pássaros
que agora se recolhem, quando a noite se move,
nesta casa de versos onde guardo o teu nome.

Epicteto - O silêncio



      Determina desde já para ti mesmo um estilo próprio e um modelo que manterás tanto para ti mesmo como para quando estiveres entre os homens.

      E fica a maior parte do tempo calado ou diz apenas o necessário e em poucas palavras. Porém, raramente, e se a ocasião exige que fales, fala, mas não de qualquer coisa, nem de qualquer maneira.

      Sinais daquele que progride: não culpa ninguém, não elogia ninguém, não se queixa de ninguém, não fala de si mesmo como se fosse alguém ou soubesse coisa alguma.

      Se alguém o elogia, ri-se no seu foro íntimo daquele que o elogiou. Quando o censuram, não se defende. Não quer que os acontecimentos ocorram como deseja, deseja sim que os acontecimentos ocorram como ocorrem e é feliz.

       Epicteto (50-130) in, Manual de Epicteto

Chór Bez Batuty - W moim ogródecku




     A alegria interior da cultura popular polaca. O Génesis não refere mas ao criar a beleza dos sons e dos coros, "Deus viu que isso era bom" e quando as melodias celebram a serenidade do renascer da primavera, isso é plenitude.   

Gonçalo M. Tavares



- mas voltemos às questões importantes.
- O importante... quer uma definição? Aquilo a que dou atenção, eis o importante. Quer outra definição?
- Sim, Excelência.
- A definição de definição. Definição significa de- finir. Finir, acabar. Dar uma definição é dizer a última palavra sobre o assunto.
- É, pois, terminar a conversa.
- Exacto. Conversa finita com a definição.
- Quem define diz ao outro: nada mais tens a dizer sobre este assunto, pois acabei de dizer a última e definitiva palavra sobre a questão.
- Uma conversa entre surdos é uma conversa em que os dois trocam definições.
- Uma definição é definitiva, eis uma redundância bem redonda, se assim me posso exprimir.
- E etc. e etc. e tal.
- Muito bem, Vossa Excelência está a ver bem o assunto.
- Seria interessante pensar em definições que iniciam a conversa.
- Uma definição inicial, inaugural. Uma de- iniciação.
- Ou uma pré- definição. Uma não- definição. E assim sucessivamente.
- Bem... como eu estava a dizer: gosto de um pé que não se preocupa apenas em avançar. Gosto de um pé que descobre o caminho..que cada vez que toca o chão abre uma nova hipótese. Um pé que afasta a floresta para os lados e que faz uma estrada à medida que avança, uma estrada humana.
- para mim, os pés são um assunto menor, um assunto, como dizer...

Nguyen Tuan









      Born in Vietnam, 1963, Nguyen Tuan experienced the fall of Saigon in 1975, survived a failed escape attempt from his native land in 1988, witnessed the death of his close friend in the same escape attempt, and was then cast into a concentration camp. Almost miraculously, he escaped the camp and fled to the United States where he became captivated with sculpting.

Lugar




      A Serra do Caramulo é o sítio do mundo de que eu mais gosto. Há aqui qualquer alimento secreto.

Daniel Nyikos - Sopa de batata


Instalo o computador e a webcâmara na cozinha
para pedir ajuda à minha mãe e à minha tia
enquanto faço sopa sozinho pela primeira vez.
A minha mãe está no Utah. A minha tia na Hungria.
Com a câmara mostro as cebolas à minha mãe.
"Corta-as em pedaços mais pequenos", aconselha-me ela.
"Só precisas de dar um bocadinho de gosto."
Corto as batatas enquanto as cebolas ficam a refogar na panela.
Quando menciono que não tenho paprika para juntar ao caldo,
elas argumentam que assim é duvidoso que lhe possamos chamar sopa de batata.
A minha mãe diz que será uma sopa branca de batata,
a minha tia diz que a sopa de batata tem de ser vermelha.
Ao acrescentar os pimentos em fatias
pergunto várias vezes se devo juntar água,
mas dizem-me ambas que espere até juntar as batatas.
Adiciono salsichas polacas porque não arranjei húngaras,
e cozo-as durante tanto tempo que as batatas se desfazem.
"Fizeste um guisado", diz a minha mãe
quando mostro o conteúdo da panela através da câmara.
Elas riem-se e dizem que tenho de casar rapidamente.
Eu desligo o computador e como sozinho.

      Desde que o homem descobriu o fogo tentou desenvolver a arte de cozinhar. Ao padronizar menus, essa ambição tornou-se mais em artesanato do que em arte e o processo continua. Este poeta do Utah americano tenta demonstrar que alguns homens ainda não se habituaram a certas mudanças. 

Paul McCartney - Here Today



"If you want to say to someone you love them, tell them now... Because there may come a point when it's too late, and you'd think: "I wish I'd said that".

                                                                   Paul McCartney

Some Lennon's lines






The Beatles - In My Life




There are places I'll remember
All my life, though some have changed
Some forever, not for better
Some have gone and some remain
All these places have their moments
With lovers and friends I still can recall
Some are dead and some are living
In my life, I've loved them all.

But of all these friends and lovers
There is no one compares with you
And these memories lose their meaning
When I think of love as something new
Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life I love you more.

Though I know I'll never lose affection
For people and things that went before
I know I'll often stop and think about them
In my life I love you more.

      Lennon began writing this in 1964. He forgot about the song for a while and he wrote it again one year later, with lyrics talking about people from his childhood and younger years. In John's original handwritten lyrics he made reference to several places in Liverpool:

      Penny Lane is one I'm missing
      Up Church Rd to the clocktower
      In the circle of the abbey
      I have seen some happy hours.
      
      Past the tramsheds with no trams
      On the 5 bus into town
      Past the Dutch and St. Columbus
      To the Dockers Umbrella that they pilled down.

      This song was the only one played at Kurt Cobain's funeral.

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