Daniel Faria

Guarda a manhã  
Tudo o mais se pode tresmalhar 

Porque tu és o meio da manhã 
O ponto mais alto da luz 
Em explosão.

      O tempo do Daniel é o oitavo dia da semana, a manhã que rompe o tempo circunscrito. Foi nela que morreu com 28 anos.

      Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971. Frequentou o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa - Porto, tendo defendido a tese de licenciatura em 1996. No Seminário e na Faculdade de Teologia criou gosto por entender a poesia e dialogar com a expressão contemporânea. Licenciou-se em Estudos Portugueses na faculdade de Letras da Universidade do Porto. Durante esse período (1994 - 1998) a opção monástica criava solidez.
      A partir de 1990, e durante vários anos, esteve ligado à paróquia de Santa Marinha de Fornos, Marco de Canaveses. Aí demonstrou o seu enorme potencial de sensibilidade criativa encenando, com poucos recursos, As Artimanhas de Scapan e o Auto da Barca do Inferno. Faleceu a 9 de Junho de 1999 quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga.

Please Please Me - MonaLisa Twins



A alegria de participar na Criação. Os The Beatles e as novas gerações.

Daniel Faria

Ela sorveu-me o sangue, curou-me a boca,
Espetou-me um anzol na língua e puxou-me
As palavras
Foi então que pensei que ia morrer
Afogado.

Assemelhei-me a um xilofone de silêncio
A um estrondo muito forte que só se ouvia bem em silêncio.
Gritei: então canta!
Ela pegou a minha tristeza e começou a dobar.

    É, assim, uma musa.

Daniel Faria

Dinamitei depois tudo o que em mim tinha forma de aquário
Um aquário sem nada dentro dele, dinamitei de vazio
Aquilo que na transparência tinha material explosivo
Uma força concreta, a capacidade de um cenário
Devastado

E dinamitei o vazio e encontrei um peso
Humano que não se afundava:
Era um milagre como Lázaro vindo para fora!
Era um homem que nos levava por um caminho desconhecido para casa
E que partia o pão. E eu vi que era ele
Que partia
O pão.

      Deu-se um milagre na minha vida. Comprei e estou a ler um livro de Daniel Faria

Daniel Faria

Se acender a luz
Não morrerei sozinho.

Edward Hopper











      Intitulado Shirley: Visions of Reality, o filme de Gustav Deutsch traz à realidade 13 pinturas de Edward Hopper contando a história de um personagem fictício cujos pensamentos, emoções e contemplações nos permite observar uma era da história americana.
      As reconstruções levam as obras bidimensionais de Edward Hopper à realidade, mantendo, ao mesmo tempo, o nivelamento das pituras originais. O filme apresenta as obras mais destacadas de Hopper como "New York Movie" (1939), "Office at Night" (1940), "Hotel Lobby" (1943), "Morning Sun" (1952), "Woman in the Sun" (1961) e "Chair Car" (1965).

Pedro César Alcubilla

Troco
cem amanheceres
que guardo
no fundo
da bolsa
por um instante
com ela.
Porque é pouco
sempre.
Porque me transborda.

  Cambio
  cien amaneceres
  que guardo
  en el fondo
  de mi bolsa
  por un instante
  con ella.
  Porque siempre
  es poco.
  Porque me desborda.

     Os poemas simples não valem menos.

Hilda Hilst - Dez chamamentos ao amigo

Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais te ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta

E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido

Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro

Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.


    Dois, à procura da beleza.

Afifa Aleiby











      Afifa Aleiby (born 1952, Basra) grew up in a family devoted to culture and the arts where she painted from an early age. She studied at the Institute of Fine Arts in Baghdad and worked as an illustrator for the Iraqi press. In 1974, she left Iraq for the Soviet Union to study at the Surikov Institute in Moscow.
      In 1981, unable to return to Iraq due to the political situation, she moved to Italy and later to Yemen, where she taught at the Institute of Fine Arts in Aden. Aleiby has contributed to cultural activities in support of the Iraqi and international democratic movements, and in the struggle against terrorism, racism, war and dictatorship. She has participated in numerous art exhibitions, from Baghdad and Moscow to Yemen, Italy, Syria, Lebanon, England and the United States. Aleiby has been living and working in the Netherlands since the mid 1990s.

                                                 from, Courage in Creativity

João Luís Barreto Guimarães - As cadeiras

À aula de
quarta-feira assistiram 13 alunos e
27 cadeiras. Em resumo: a sala cheia.
Quando a
lição terminou os 13 alunos partiram e
acto contínuo contei 20 casais de cadeiras.
Às aulas que tenho dado nunca faltam
as cadeiras
ficam a ouvir-me caladas
(as costas muito direitas).
É bom de ver que as cadeiras entendem
tudo à primeira
parecem bem mais maduras (mais
pés
assentes na terra).

      O poeta nasceu a 3 de Junho de 1967, no Porto. Vive em Leça da Palmeira. Licenciado em medicina, é especialista em cirurgia plástica, reconstrutiva e estética no Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia. 
      Nos versos de João Luís Barreto Guimarães as coisas aparecem como se ali tivessem encalhado, presas de uma atenção meticulosa, de aranha, alimentando-se com uma paciência funesta. 

Alice Vieira

esperar que voltes é tão inútil como o
sorriso escancarado dos mortos na necrologia dos jornais

e no entanto de cada vez que
a noite se rasga em barulhos e
um telefone se debruça de
uma qualquer janela

sinto que ainda ficou uma
palavra minha esquecida na
tua boca e que
vais voltar
para
a
devolver

      O amor, Sra. Alice Vieira, tornou-se numa chatice.

The old Jack

A tela e a realidade



[foto @adrianscutariu]

"I never said that I was brave" Leonard Cohen

Francoise Hardy - Tante De Belles Choses




même s'il me faut lâcher ta main
sans pouvoir te dire "à demain"
rien ne défera jamais nos liens...
même s'il me faut aller plus loin
couper des ponts, changer de train
l'amour est plus fort que le chagrin...
l'amour qui fait battre nos coeurs
va sublimer cette douleur
transformer le plomb en or
tu as tant de belles choses à vivre encore...
tu verras au bout du tunnel
se dessiner un arc-en-ciel
et refleurir les lilas
tu as tant de belles choses devant toi...

même si je veille d'une autre rive
quoi que tu fasses, quoi qu'il t'arrive
je serai avec toi comme autrefois...
même si tu pars à la dérive
l'état de grâce, les forces vives
reviendront plus vite que tu ne crois...
dans l'espace qui lie ciel et terre
se cache le plus grand des mystères
comme la brume voilant l'aurore
il y a tant de belles choses que tu ignores
la foi qui abat les montagnes
la source blanche dans ton âme
penses-y quand tu t'endors
l'amour est plus fort que la mort...

dans le temps qui lie ciel et terre
se cache le plus beau des mystères
penses-y quand tu t'endors
l'amour est plus fort que la mort...

      Cette chanson testament à été écrite par Françoise Hardy à son fils Thomas, après que les médecins ne voyait plus d'issue à son lymphome. Ce sublime et bouleversant texte  universel, ne fait que grandir Françoise Hardy. Il touche au plus profond de nous ce que nous avons de plus profond. Merci Françoise pour ce moment au delà du temps!

      Opinion by BC95

Bénédicte Houart




com os direitos de autor
do meu primeiro livro de poesia
comprei um m&m amarelo
(amendoins cobertos de chocolate)
duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas
com tanto alarido

com os direitos do segundo
comprei dois m&ms
fiquei abundantemente contente e 
de queixo bem lambuzado
como convém

cada m&m lembrava-me o álvaro
que dizia, e passo a citar
come chocolates, pequena, e
eu, citando novamente,
comia chocolates, pequenos

com os do terceiro
que ainda não escrevi
já me cresce água na boca
reservei m&ms na mercearia
e pus a boca em pause
embora muito a contragosto

bem vejo como este poema é prosaico
as minhas desculpas
os direitos de autor não dão
para mais metáforas do que isto

(e, de resto, ele tinha razão, o álvaro
o mundo é uma gigantesca pastelaria
onde uns comem, outros veem comer)

    in, Aluimentos

      A escassez do pão devido.

Maria Ângela Alvim



As papoulas são estrelas que caíram de sono.
Elas têm o segredo.

Alice Vieira

eu gostava de poder dizer
que entrei no teu corpo como um pássaro
espreitando através de invisíveis ruínas
e que o som da tua voz bastava
para me salvar

mas de anda serve inventar palavras
quando as palavras que inventamos
não passam de frágeis lugares de exílio
dos gestos inventados fora de horas
delimitando o espaço de tantas mortes prematuras
de que jurámos ressuscitar um dia

- quando os deuses se lembrassem
de acordar ao nosso lado

Ella & Pitr - Sleeping Giants












      A roof art prova que ainda há algo novo debaixo do céu. Um duo francês, natural de Saint-Etienne, tem espalhado estes "massive works" ao longo dos últimos dois anos nos telhados de algumas cidades da Noruega, França e Canada. O resultado é este. 

George Harrison - Between The Devil & The Deep Blue Sea



      Escrever canções com guitarras e citaras que gentilmente choram, cantar Hare Khrisna e pedir que as cinzas do próprio corpo sejam lançadas nos rios Ganges e Yamuna é relevante num percurso especial.

Wisława Szymborska - Impressões do teatro

Para mim, o mais importante na tragédia é o sexto ato:
o ressuscitar no campo de batalha,
o agitar das perucas e dos trajes,
o arrancar da faca do peito,
o tirar da corda do pescoço,
o dispor-se na fileira entre os vivos
de cara voltada para o público.

As vénias individuais e coletivas:
a mão branca sobre a ferida no peito,
o reverenciar da suicida,
o acenar da cabeça cortada.

As vénias aos pares:
a fúria dando o braço à brandura,
a vítima trocando um olhar doce com o carrasco,
o rebelde sem rancor acertando o passo com o tirano.

O pisar da eternidade com a biqueira da botina dourada.
O escorraçar da moral com a aba do chapéu.
A incorrigível prontidão de recomeçar amanhã.

A entrada em fila indiana dos mortos
nos actos terceiro, quarto e nos entreatos.
O milagroso retorno dos desaparecidos sem notícia.

Pensar que esperavam pacientemente nos bastidores,
sem tirarem as vestes,
sem limparem a maquilhagem,
comove-me mais do que as tiradas trágicas.

Porém, o mais sublime é o cair do pano
e o que se avista através da fresta minguante.
Aqui, uma mão apressa-se para chegar às flores,
acolá, uma outra apanha a espada caída.
Por fim, uma terceira mão invisível
cumpre o seu dever:
aperta-me a garganta.

Czesław Miłosz e Wisława Szymborska  in, Alguns Gostam de Poesia

Adalberto Alves

sábia é a Criação:
escondeu uma estrela
no peito de um espantalho

in, No Vértice da Noite

Albano Martins

Só o luto corrompe.
De amoras
maduras não te falo - trago-te
o verão num cesto
de morangos e papoilas, um
candelabro de medronhos
para as pulsões do inverno.
Digo-te:
a morte não nos pertence.

Jean-Léon Gérôme



Grande Piscine de Brousse


Bathsheba


Diogenes


The Black Poet


Almehs playing Chess in a Café


Harem Women Feeding Pigeons in a Courtyard



Painting Breathes Life Into Sculpture


Pygmalion and Galatea



Phryne before the Areopagus


Pollice Verso (Thumbs down)


Bonaparte Before the Sphinx

      Um pintor e escultor notável. Expandiu a residência construindo num estábulo um estúdio de escultura em baixo e um estúdio de pintura no andar superior. A sua obra é um tesouro da cultura francesa e da humanidade.

Albano Martins

Falar do trigo e não dizer
o joio. Percorrer
em voo raso os campos
sem pousar
os pés no chão. Abrir
um fruto e sentir
no ar o cheiro
a alfazema. Pequenas coisas,
dirás, que nada
significam perante
esta outra, maior: dizer
o indizível. Ou esta:
entrar sem bússola
na floresta e não perder
o rumo. Ou essa outra, maior
que todas e cujo
nome por precaução
omites. Que é preciso,
às vezes,
não acordar o silêncio.

Albano Martins

Só o luto corrompe.
De amoras
maduras não te falo - trago-te
o verão num cesto
de morangos e papoilas, um
candelabro de medronhos
para as pulsões do inverno.
Digo-te:
a morte não nos pertence.

Albano Martins

Descem as pálpebras sobre
o sono vigilante.

É preciso, amor,
dar um nome a esse instante.

Al Berto

sabes
por vezes queria beijar-te
sei que consentirias
mas se nos tivéssemos dado um ao outro ter-nos-íamos separado
porque os beijos apagam o desejo quando consentidos
foi melhor sabermos quanto nos queríamos
sem ousarmos sequer tocar nossos corpos

hoje tenho pena
parto com essa ferida
tenho pena de não ter percorrido teu corpo
como percorro os mapas com os dedos teria viajado em ti
do pescoço às mão da boca ao sexo
tenho pena de nunca ter murmurado o teu nome no escuro
acordado
perto de ti as noites teriam sido de ouro
e as mãos teriam guardado o sabor do teu corpo
ah meu amigo
estou definitivamente só

      Se no fim da vida tivermos, ao menos, um amigo, já é muito bom.

Patrick Watson - The Great Escape




Bad day, looking for a way home,
looking for the great escape.
Gets in his car and drives away,
far from all the things that we are.
Puts on a smile and breathes it in
and breathes it out, he says,
bye bye bye to all of the noise.
Oh, he says, bye bye bye to all of the noise.
Doo doo doo doo doo noo noo
Doo doo doo doo doo noo noo noo noo
Doo doo doo doo doo doo doo
Doo doo doo doo doo doo noo noo noo
Hey child, things are looking down.
That's okay, you don't need to win anyways.
Don't be afraid, just eat up all the gray
and it will fade all away.
Don't let yourself fall down.
Bad day, looking for the great escape.
He says, bad day, looking for the great escape.
On a bad day, looking for the great escape,
the great escape.

A escola de Nick Drake que nos ensinava não a fugir mas a lidar com os dias maus. "Há que enfrentá-los!" dizem alguns, ele pensava num violoncelo triste.
Patrick Watson inspira, expira e vai pelo caminho a cantar Doo doo doo doo doo.

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