Aí por finais de Março
uma nuvem negra surgiu sobre o vale e os montes.
Uma nuvem suspensa pois
não andava nem para a frente nem para trás.
Por vezes redonda mas depois alongava-se
ao alto desenhando um tonel,
um palheiro ou uma serpente sem fim.
Ou então abria-se num leque tão leve
que todo o ar do céu parecia cheio de moscas.
Eu e meu irmão, tal como os outros
pensávamos que fossem estorninhos vindos da
Rússia.
De repente tomou a forma de uma bola escura,
pesada,
cor de chumbo e imprimiu uma sombra oval
sobre o prado. Começou a tocar a terra
mas logo subia e onde se apoiava
ficavam manchas claras, quase cinza depois do
fogo.
E assim, pouco a pouco, todo o vale
que era verde de erva, de folhas de trigo,
empalideceu como aqueles rostos amedrontados
até que a nuvem pulou para além dos montes
e nunca mais se viu.
Seriam gafanhotos?
in, O Mel
Trad. Mário Rui de Oliveira
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