Edgar Lee Masters

Algumas almas benévolas pensavam que o meu génio
fora de algum modo prejudicado pela loja.
Mas não era verdade.
A verdade era só esta:
eu não tinha inteligência que chegasse.

in, Spoon River

Se vocês aí na vila acreditam que fiz bem
em ter fechado as tabernas, acabado com o jogo
e em ter arrastado a velha Daisy Fraser à presença do juiz Arnett,
entre tantas outras cruzadas para purgar os pecados do povo:
então, por que permitis que Dora, a filha da chapeleira,
mais o inútil do filho de Benjamin Pantier
venham à noite fazer de minha campa a sua ímpia almofada?

in, Spoon River

Se o comboio regional para Peoria
tivesse apenas descarrilado, talvez eu escapasse com vida;
e nesse caso escaparia deste sítio.
Mas como ardeu, eles confundiram-me
com John Allen, que foi enviado para o cemitério judeu
de Chicago, e confundiram o John comigo. Eis a razão por que estou aqui.
Já era mau gerir uma loja de roupa nesta cidade,
mas ser cá sepultado - que horror!

in, Spoon River

      Lee Masters dá-nos a conhecer uma extensa galeria de personagens de uma pequena cidade rural das margens do rio Spoon, retratos esses, porém, tomados sempre como epitáfios: é que é já enquanto mortos que as persona dos poemas falam das suas vidas, das suas ilusões, dos seus segredos, dos casos amorosos, dos seus crimes, das traições, dos seus conflitos, num tom de inevitabilidade tão lógica quanto absurda, tão humorística quanto filosófica.
      As traduções são de José Miguel Silva.

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