Thomas Edwin Mostyn - The Sanctuary


    A luz do sol criou o novo amanhecer por entre a natureza que morre e a que renasce. O muro que separa espaços, abre um pórtico para a acolher feliz. No banco ainda com flores de maio, existe a oportunidade de um encontro connosco e com o absoluto para renovar a paz espiritual essencial à fé e à ética.

Henry Bacon

 
    Esta tela é uma escola: o trigo verde em breve será pão, o leite dará força ao trabalhador, o sol por trás da neblina surgirá e a paz manterá a frescura da manhã. 

Ernst Zündel

Abu - L - Qasim al - Shabbi - A estranha narrativa

Nós: rimo-nos do passado.
Amanhã o futuro rir-se-á
de nós.
Assim é o mundo, uma história urdida
por algum grande feiticeiro.
Os vivos desempenham o seu maravilhoso papel
como se já estivessem mortos.
O palco é triste
com a sua cortina de nevoeiro.
E por detrás do pano
os espectadores do futuro observam-nos, rindo.
Não se dão conta de que o argumento
vai tombando sobre as suas próprias mãos.


in, Do trapézio, sem rede

Edward Burne-Jones - The Golden Stairs

 
    The Golden Stairs insere-se na tradição clássica figurativa. Há quem não goste da tela e a ache apenas um somatório de figuras; na net há mesmo quem utilize a expressão 'figuras de lata'. Porém, se a dimensão simbólica das três pombas junto ao telhado funcionar como presença espiritual, a harmonia é graça que desce sobre as jovens e sobre o que vão tocar. Porque descem e não sobem? Primeiro o concerto, a ascensão virá depois.


Gonçalo M. Tavares - O Escritor

É um escritor ou então a mulher partiu com outro,
e o corpo não recuperou a vontade
de se preocupar com a roupa.
Espontâneo, vê-se; tudo o que traz vestido
apareceu-lhe à frente como numa colisão.
No entanto é discreto.
Tem a idade em que já não se desejam os olhares dos outros.
Branco, o cabelo transmite paz e
uma pequena desistência.
Tem cachimbo, óculos,
na mesa revistas francesas sobre a alma e os laboratórios que a
estudam;
pega numa folha e começa a escrever.
Tem ar sóbrio, o corpo não dança,
vê-se que há muito venceu o medo de não ser igual aos outros.
Escreve; passa a mão sobre a orelha.
É um escritor, em definitivo.
A luta não é com a solidão, vê-se que sabe usá-la,
percebe a sua natureza.


   A arte de encontrar os dons.

Manoel de Barros - Árvore

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus
seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul
E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se transformara,
envaidecia-se quando era nomeada para o entardecer dos pássaros
e tinha ciúmes da brancura que os lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com muitas borboletas.


   Ação de graças.

Para A.

 
    Feliz de ti porque acreditaste no valor de completar a vida e me ofereceste a ela. Então, foste embora. Eu fiquei a ler o conto onde se diz que "as fadas chegam ao jardim pelo amanhecer, abençoam as flores e partem". E tal como as flores do jardim eu não te explico.

Memória 4

    Aos seis anos as árvores integram a inocência. Com essa idade vivia com o meu pai e com as famílias de mais oito guardas fiscais, num posto de fronteira alentejano de nome Penalva perto de Aldeia Nova de São Bento. Era o ano de 1964. O lugar era o conjunto de 8 casas em linha, a casa do cabo, o poço, o forno e o posto da guarda, ermo no meio dos montes. A paisagem oferecia giestas, romãzeiras, azinheiras, sobreiras e carvalhos.
    Num fim de uma tarde de sábado, os guardas, que nesse dia tiveram pouco que fazer, resolveram fazer uma fritada. As pessoas juntaram-se em volta de três árvores carregadas de pássaros e de ninhos. Eu sentei-me a fazer desenhos com pedras de xisto numa laje maior. Os guardas carregaram as armas com balas de caçadeira e ao mesmo tempo dispararam.
    O chão ficou coberto de passaritos mortos ou a espernear e todos apanhavam para um cesto com as mãos cheias de sangue. E nunca mais fui o mesmo.

    António

Os cantos ucranianos



    Na terra do trigo e dos céus azul bebé, a roupa tradicional ucraniana tem motivos e cores específicos de cada lugar. Nos homens e nas mulheres pode ler-se no pano a idade, a situação afetiva, a profissão, os gostos, os desejos e os sonhos.



 
    É maravilhoso constatar que ucranianos de tantas origens, povos e credos possam viver em harmonia num lugar onde a diversidade é encorajada como virtude. O rio, as roupas, o canto, as batatas são interiores em nós. É pena o minuto e meio de cada vídeo ser apenas divulgação.

    Nota: No final do século  XIX, a Ucrânia era um país dividido, dominado e oprimido pelos czares russos ou pelos imperadores austro-húngaros. Eram proibidas publicações ou manifestações públicas em língua ucraniana. As manifestações políticas eram punidas. Nessa época, muitos ucranianos buscaram abrigo fora da Europa. Comunidades de ucranianos formaram-se na Austrália, Canadá, Estados Unidos, Argentina, Brasil e muitos outros.

Julia Bekhova


 
 
Юлия Бекхова (Julia Bekhova) Лютня, масло на панели (519x700, 292Kb)
 
Коллекция работ художницы Юлии Беховой

    Pintora russa, nascida no ano de 1964. As suas telas oferecem luz e cor a quem as contempla e sobretudo esta última, que tem titulo 'Maria Madalena na manhã da ressurreição'. O vaso de alabastro lá está, a luz é branca-alva e em breve irá encontrar-se com o espirito do homem que lhe fez mudar o rumo à vida. A transformação de trocar a maçã entre as mãos, por um vaso de perfume. Muito belo.


Sylvia Plath - O Espelho

Sou prata e exato. Não tenho preconceitos.
Tudo o que vejo me serve e sorvo
Tal qual é, sem nódoas de amor ou desgosto.
Não sou cruel, sou sincero –
O olho de um pequeno deus, quatro cantos.
A maior parte do tempo penso na parede em frente.
É rosa, mofada. Olho-a tanto que acho
Que já é parte do meu coração. Mas tem racha.
Faces e escuridão nos separam mais e mais.


Agora sou um lago. Uma mulher debruça-se sobre mim,
Busca nas minhas águas a sua face real.
Então vira-se para aqueles farsantes, as velas ou a lua.
Vejo-a de costas e reflito-a fielmente.
Ela retribui-me com lágrimas e com mãos agitadas.
Sou importante para ela. Ela vai e vem.
Todas as manhãs o seu rosto fica em vez da escuridão.
Em mim ela afogou uma menina, e em mim uma mulher velha
Luta para dentro dela dia após dia, como um peixe terrível.


   Original:

I am silver and exact. I have no preconceptions.
Whatever I see I swallow immediately
Just as it is, unmisted by love or dislike.
I am not cruel, only truthful ‚
The eye of a little god, four-cornered.
Most of the time I meditate on the opposite wall.
It is pink, with speckles. I have looked at it so long
I think it is part of my heart. But it flickers.
Faces and darkness separate us over and over.

Now I am a lake. A woman bends over me,
Searching my reaches for what she really is.
Then she turns to those liars, the candles or the moon.
I see her back, and reflect it faithfully.
She rewards me with tears and an agitation of hands.
I am important to her. She comes and goes.
Each morning it is her face that replaces the darkness.
In me she has drowned a young girl, and in me an old woman
Rises toward her day after day, like a terrible fish.


   Trata-se de quem se trata.

Recordar Anna Karina

    Jean-Luc Godard e a dinamarquesa Anna Karina casaram-se em 1961, ela tinha 21 ele 31, e durou até 1964. Fizeram juntos 7 longas-metragens inesquecíveis: Le Petit Soldat de 1960, Une Femme est une Femme de 1961, Vivre Sa Vie de 1962, Bande à Part de 1964, Pierrot le Fou de 1965, Alphaville de 1965 e Made in USA de 1966. Anna é a principal atriz da Nouvelle Vague do cinema francês.


 
 De Vivre sa Vie a cena que sugere dois tipos diferentes de solidão.
 

Mário Cesariny

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá a tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor - muito melhor! Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu que do espelho se vê.


Dizer apenas o que ilumina.

Beatriz Hierro Lopes

      Há janelas que esperam que lhes sacudas a paisagem do parapeito, que lhes laves das vidraças essa vã memória de terem havido roseiras no horizonte do seu olhar; que lhes soltes do peito os interiores, verões passados à sombra dos barcos que naufragam no meio do tecto. Exposições nunca antes vistas dos humores de violetas, deixadas secas, sob a robustez de uma secretária cega. Há portas que rangem, que pedem e pedem que lhes alivies das costas o choro quebrado das quedas. E, não me perguntes porquê, mas há tardes nos canapés que se prolongam noite adentro, numa ilusão de haver ainda pássaros que batam asas ao sol, como folhas de vento baloiçando-se entre as copas das árvores, de quando eu e tu adormecíamos a sesta em redes de linho. Que há campos de alfazema por correr e jardins secretos em que nos perderíamos ainda, se nisso achássemos tempo suficiente numa baga de uva. E, ouve-me: de todas as casas que te esperam, tu serás sempre a única desabitada.

       É dever activar a vida.

Karl-Ferdinand Sohn - Study for Disappointed Love


   O olhar e os lábios já não revelam inocência. A partir de agora é preciso esquecer ou não, e se for o segundo caso, o coração que ama tem de aceitar conviver com a situação.

Victor Oliveira Mateus

Nunca soube lançar o pião
como os rapazes no terreiro,
entre os contentores: aprendizes
de ladrões, de proxenetas,

arrumadores. Nunca soube
lançar o pião. Nem puxar-lhe
o cordel entre os dedos
ou içá-lo, rodopiante, na palma

a mão, acima do solo
conspurcado e mudo. Lancei
a minha vida, os meus
anseios. E foi tudo.


O pião da infância é maltratado no poema.

Maria Sousa

Chegas de novo a casa
e guardas do tempo a fuga
marcas outra vez os dias
para abrir feridas
.
como se viesse dos pássaros a acusação
de não saberes medir esquecimentos
.
respiras até à dor para não sentires mais nada.
.
in, Exercícios para endurecimento de lágrimas
 
A escritora é a autora do blogue There's only 1 Alice. Quanto ao poema, é mesmo um exercício para endurecer as lágrimas.

Sol Gabetta - Edward Elgar's Cello Concerto in E minor op. 85



    Jacqueline Mary du Pré, a violoncelista britânica que celebrizou este concerto de Edward Elgar podia ter vivido - morreu em 1987 -, para conhecer Sol Gabetta que nasceu um pouco antes em Córdoba, na Argentina em 1981. Mas, Deus não quis. Sol Gabetta de ascendência franco-russa, vive na Suíça e é uma das melhores solistas do nosso tempo. Oferece-nos uma emoção e uma energia em intensidade que lembra Du Pré.
    Hoje – graças a um empréstimo privado – Sol Gabetta toca um dos raros violoncelos, construídos por G.B. Guadagnini em 1759, é o Stradivarius dos violoncelos. O instrumento está avaliado em três milhões de euros. Sobre ele Gabetta diz  “Penso que eu sou a escolta do violoncelo. Viajo sempre com ele e tenho sempre de prestar atenção a qualquer coisa que possa acontecer. Mesmo estando cansada, porque viajo muito, às vezes até às quatro da madrugada, às vezes até muito mais tarde, de noite, depois dos concertos. E pode acontecer qualquer coisa, muito rapidamente, se o deixar para trás. Pode ficar esquecido em qualquer lugar, porque em dois minutos a mente pode viajar para outro sítio. Essa é a razão pela qual eu penso sempre nele, quando faz parte da minha bagagem, como se fosse um conjunto de miúdos. Para mim, quando viajo, ele é sempre uma criança”. Teme um acidente com o seu violoncelo que trata, cerimoniosamente, por Senhor Gabetta.
    Diz ainda “Eu tenho sempre um chocolate preto, como e, 10 minutos depois, estou como uma bomba. É estranho, mas é uma onda boa, sinto um poder interior. É bom”.





   The piece was composed during the summer of 1919 at Elgar's secluded cottage "Brinkwells" near Fittleworth, Sussex, where during previous years he had heard the sound of the artillery of World War I rumbling across the Channel at night from France. In 1918, Elgar underwent an operation in London to have an infected tonsil removed, a dangerous operation for a 61-year-old man. After regaining consciousness after sedation, he asked for pencil and paper, and wrote down the melody that would become the first theme from the concerto. He and his wife soon retired to the cottage in an attempt to recover from their health problems. In 1918, Elgar composed three chamber works, which his wife noted were already noticeably different from his previous compositions, and after their premieres in the spring of 1919, he began realising his idea of a cello concerto.
  1. Adagio — Moderato
  2. Lento — Allegro molto
  3. Adagio
  4. Allegro — Moderato — Allegro, ma non troppo — Poco più lento — Adagio.
   The first movement is in ternary form with introduction. It opens with a recitative in the solo cello, immediately followed by a short answer from the clarinets, bassoons and horn. Na ad lib modified scale played by the solo cello follows. The viola section then presents a rendition of the main theme in Moderato, then passes it to the solo cello who repeats it. The string section plays the theme a third time and then the solo cello modifies it into a fortissimo restatement. The orchestra reiterates, and the cello presents the theme a final time before moving directly into a lyrical E major middle section. This transitions into a similar repetition of the first section. This section omits the fortissimo modified theme in the solo cello. The slower first movement moves directly into the second movement.
 
   The second movement opens with a fast crescendo with pizzicate chords in the cello. Then, the solo cello plays what will be the main motive of the Allegro molto section. Pizzicato chords follow. A brief cadenza is played, and sixteenth-note motive and chords follow. Then a ritardando leads directly to a scherzo-like section which remains until the end.
 
   The slow third movement starts and ends with a lyrical melody, and one theme runs through the entire movement. The end flows directly into the finale (again with no pause).
 
   The fourth movement begins with another fast crescendo and ends at fortissimo. The solo cello follows with another recitative and cadenza. The movement's main theme is noble and stately, but with undertones and with many key-changes. Near the end of the piece, the tempo slows into a più lento section, in which a new set of themes appears. The tempo slows further, to the tempo of the third movement, and the theme from that movement is restated. This tempo continues to slow until it becomes stagnant, and the orchestra holds a chord. Then, at the very end of the piece, the recitative of the first movement is played again. This flows into a reiteration of the main theme of the fourth movement, with tension building until the final three chords, which close the piece.
 
From, Wikipedia

Fernando de Castro Branco - O último desejo

A noite queimando os versos, uma janela
fechada para sempre. Cotovias de ausência
piando na pele, Bob Dylan em fundo:
como se para morrer
fosse necessário
que alguém te fizesse feliz.


E nem mesmo o óleo no ferrolho.

Helena Schmid - a menina austríaca

precisava reinventar o assunto
dizer mais sobre os Alpes de Salzburgo
- que depois das batatas – causam fúria aos olhos
sempre dois lagos
a pele como as baixas terras do leste
aveia
naquela manhã tocou o telefone no parlamento
ela disse em Viena
quando beijou na boca
murmurando uma cantiga judaica
paralelo a tudo erguem-se montanhas
e talvez não se fala mais no sentido
gelado do que pode ser
o amor


Helena Schmid é uma jovem poetisa brasileira, nascida no extremo sul de Santa Catarina em setembro de 1985. O poema é um desafio, sobretudo pelos cortes narrativos. É uma poema de amor?

Miguel Torga - Cântico de Amor



Ama quem amas, como o vento
Ama as folhas de olmo
(Amor que lhes transmite movimento
E alegria.)
Asa que possa andar no firmamento
Só caminha no chão por cobardia.

Miguel Torga - No meu jardim


Helium Korzhev

 
 
   Este pintor russo (1925-2012) merece atenção. A primeira tela tem o titulo de 'O Decreto de El-rei' e a segunda 'Os Antepassados do outono'. Se a primeira se refere à relação do trabalhador com a autoridade a segunda mostra-nos Adão e Eva juntos a duas maçãs, a tentar sobreviver e à espera do inverno. O Éden tornou-se numa exploração agrícola.

António Lobo Antunes

   "Uma coisa para mim é clara: tenho de proteger os meus ovos, que são os meus livros. Se racionalizar as coisas, perco-as. Estaria a fechar portas a mim mesmo e a essas coisas, que não sei bem se me pertencem, e emergem com essa força. Nos momentos felizes, a mão anda sozinha. A cabeça está a ver ao longe e fica contente, porque são as palavras certas que a cabeça não encontraria. É a mão."

Há a musa que dita as palavras à mão.

David Mourão-Ferreira

Da curva de entretanto       à entrada do poço
De soletrar em mim       a ler       nas tuas mãos
como é rápido       e lento      e recto       e sinuoso
o percurso que vai do tempo ao coração.


Mais que rápido e lento, recto ou sinuoso, que seja puro.

Miguel Torga - Vida

Do que a vida é capaz!
A força dum alento verdadeiro!
O que um dedal de seiva faz
A rasgar o seu negro cativeiro!

Ser!
Parece uma renúncia que ali vai,
— E é um carvalho a nascer
Da bolota que cai!


Ser! Tão belo, Sr. Torga.

Veritatis splendor


   "There are two ways through life: the way of nature and the way of grace. You have to choose which one you'll follow. Grace doesn't try to please itself. Accepts being slighted, forgotten, disliked. Accepts insults and injuries. Nature only wants to please itself. Get others to please it too. Likes to lord it over them. To have its own way. It finds reasons to be unhappy when all the world is shining around it. And love is smiling through all things. The nuns taught us that no one who loves the way of grace ever comes to a bad end."

The Tree of Life 

Georges Dussaud na alma de Trás-os-Montes

 
 
   Em 1980, quando Trás-os-Montes era um país distante e agreste, Georges Dussaud descobriu as terras do Barroso. O poder da luz impõe-se à escuridão e destapa a beleza intima da vida rural.

Maria João Cantinho

Dois pássaros, ao cair da noite,
lutam a contraluz,
A vida por um fio,
é um combate contra a luz,
instantâneo, derradeiro.


A Darwin o que é de Darwin.

The Beatles - Piggies



Have you seen the little piggies
Crawling in the dirt?
And for all the little piggies
Life is getting worse
Always having dirt to play around in.


Tens visto os porquinhos
a chafurdar na imundice?
É que para todos esses porquinhos
a vida está cada vez pior
sempre com sujidade para poderem brincar.

Have you seen the bigger piggies
In their starched white shirts?
You will find the bigger piggies
Stirring up the dirt
Always have clean shirts to play around in.

Tens visto os porcos mais gordos
com as suas camisas engomadas?
Encontrarás esses porcos mais gordos
a remexer a imundice
sempre a brincar de camisas limpas.

In their sties with all their backing
They don't care what goes on around
In their eyes there's something lacking
What they need's a damn good whacking.

Nas suas pocilgas com todos os seus bens
Eles não se preocupam com o que se passa à sua volta
No seu olhar há qualquer coisa que falta
O que eles precisavam era de um bom estalo na cara.
.
Everywhere there's lots of piggies
Living piggy lives
You can see them out for dinner
With their piggy wives
Clutching forks and knives to eat their bacon.

Em toda a parte há muitos porquinhos
a viver como porcos
podes vê-los a jantar
com as suas porquitas esposas
com garfos e facas na mão para comerem os seus presuntos.
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   É o texto mais ideológico de todas as canções dos The Beatles. É sobretudo inesperado. Não vem no formato beatles-entertainment. Dir-se-ia que George Harrison fez uma visita a casa de Phil Ochs ou Pete Seeger e de lá trouxe o livro 1984 de Orwell, para escrever uma canção 'vermelha' como Brel tinha feito com 'Les Bourgeois', onde cantava 'Les bourgeois c'est comme les cochons'.

Siegfried Zademack

 
   A partir deste pintor alemão, nascido em Bremen, em 1952, é possível avaliar as mudanças na conceção espiritual da vida moderna. Nunca foi fácil qualificar o comportamento humano nem apresentar critérios para julgar a conduta humana, mas hoje a dificuldade vê-se aumentada porque se rejeita a fundamentação dos juízos éticos, teológicos, porque se perdeu o vínculo entre fé e moral.

Daniel Faria

Foi um tempo branco, repetidamente lavado nas próprias mãos
Desviando a transparência do rosto para a noite
Um tempo branco muito diferente da verdade
Muito diferente das estrelas que se apagam

Foi um tempo muito branco
Mais doloroso do que os olhos sempre abertos no escuro
Inimaginável quando pus de fora a cabeça, as mãos
— tendo deposto o que trazia nelas —
O corpo todo
E saí como um paralítico depois do milagre
Na forma de quem grita por socorro

Foi um tempo branco porque era mudo
E não havia nenhuma palavra que pudesse apagá-lo
Um tempo tão manso como um lobo que não morde
Um tempo tão branco
Tão raso

Saí como um coxo que caminha sobre o tempo tão liso
Tão branco
Que pensei que era um muro aquele tempo estar ali
E bati contra ele como uma badalada que demora

E era branco, um som que nunca ouvi.

in, Homens que São como Lugares Mal Situados

Béla Tarr



   "Believe me, there is nothing like finding one another when there is music that warms the heart, two hands clasped together one foot senses where the other will step and follows, no matter where the other leads, because one believes that every turn and swing will be like flying from now on."
 
from, Damnation

A valsa que faz suportar o estar quase sozinho. Com o outro a rodar um, dois, três, um, dois, três, o eu transforma-se num nós fundamental para que a vida tenha sentido. Onde é o baile?

Emanuel Jorge Botelho

quantos dias teus
estiveram de pousio,
no que foi o terceiro
dia de deus?

quantas sementes
colocaste de infusão
dentro do silo
onde se guarda o tempo?
a quantas árvores
deste o nome da terra?

quantas vezes a cor foi,
na tua mão,
a prece lavada
do silêncio do mundo?

o lume dos regressos,
esse estrondo de pétala
que põe claridade
na cinza do brilho,
esteve, sempre, dentro
dos teus olhos.

dizer da criação,
nunca te foi estranho,
como nenhum segredo branco
de uma ferida de luz.

que idade tinhas
quando a primeira árvore
te disse para subires?


Deus criou a oportunidade incompleta.

Nelson Mandela

 
    "Ninguém nasce a odiar outra pessoa porque a cor da pele é diferente, porque os laços de sangue não são os mesmos, ou porque professa outra religião. As pessoas aprendem a odiar. Mas se conseguem aprender a odiar, elas também podem ser ensinadas a amar, até porque o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto."
 
    Nelson Mandela

Júlio Dinis


Conceda-se uma lágrima a estas obscuras vítimas dos progressos materiais, lágrima que não importa uma ironia à civilização. Exalta-se embora a rápida carreira da locomotiva, que atravessa como meteoro, as povoações e os ermos, mas não seja isso motivo para condenar a compaixão pela violeta dos campos, que as rodas deixaram esmagadas à beira do carril. Inda quando um vencedor tem um papel providencial a cumprir e o seu triunfo seja uma obra de redenção, o vencido, desde que cai, tem direito a um olhar compassivo, a uma lágrima de saudade. Não tenteis louca empresa de aniquilar o sentimento, espíritos áridos que infundadamente o temeis, como coisa desconhecida à vossa alma seca e estéril. Quem deveras confia nos destinos da humanidade não tem medo das lágrimas. Pode-se triunfar com elas nos olhos.

in, A Morgadinha dos Canaviais

Ana Paula Tavares

Tão manso é o lago dos teus olhos
que temo avançar a mão

 
cortar as águas
e semear o espanto
na descoberta
da minha sede antiga.
 
in, Dizes-me coisas amargas como os frutos

Miguel Esteves Cardoso

 
   As pessoas que dizem que o tempo cura tudo sabem que não é assim tão fácil. Sabem que o tempo é apenas uma distância. Sabem que o tempo, quando se junta a um grande amor, faz outra coisa: aproxima. E é essa aproximação que transforma a dor da ausência na companhia eterna da saudade.
 
   É o tempo que nos volta a trazer a pessoa amada que partiu. E trá-la de uma forma que não sofre nem morre, portátil e interior, renovando-se dentro da alma como um feliz sossego que nada ou ninguém - nenhuma doença, nenhuma distância, nenhuma traição - pode atingir ou inquietar.
 
   O tempo cura porque aproxima o amor do amor. O tempo purifica a saudade, mas, ao mesmo tempo, dá-lhe vida. A pessoa que se perdeu encontra-se e reencontra-se, sempre diferente da última vez que se esteve com ela, nunca estática, nunca decadente, tão fluída e vívida e essencial como o sangue que nos corre nas veias.
 
in, Como é linda a puta da vida

Daniel Faria

As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo,
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados
Ao peso dos pássaros que se abrigam.
É à janela dos filhos que as mulheres respiram
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro
E geram continuamente. Transformam-se em pomares.
Elas arrumam a casa
Elas põem a mesa
Ao redor do coração.


   Conheci o poeta Daniel Faria (1971-1999) com a noticia da sua morte. O jovem aprendiz de monge beneditino começou então a viver dentro de mim e, poemas como este - apesar do conservadorismo católico -, encheram-me de beleza e de luz.

Amélie les crayons - Ta p'tite flamme



   Ainda é possível compor canções simples e bonitas com os velhos acordes La menor, Mi maior, Sol maior e Re menor. Depois de Donna Donna, Lili Marleen, Go Down Moses e tantas outras, há sempre mais uma. E algumas são como as primaveras que não conhecem as outras três estações.

Y'a quelque chose de la vie dans tes yeux qui rient
Y'a cette petite flamme qui crie qui brûle et qui brille
Juste un regard pour comprendre que c'est dans tes yeux
Que j'me sens le mieux juste un sourire pour te dire
Que j'ai besoin de toi reste et regarde moi.


Y'a quelque chose du bonheur dans ta voix qui vibre
La réponse de mon coeur c'est qu'il se sent libre

Libre d'être moi quando tu m'serre dans tes bras
Libre de vivre un amour qui m'apprend tous les jours
Quand j'suis loin de toi, J'pense à toi
A ta p'tite flamme, à tes yeux et je me sens mieux.

...et je me sens deux.

Y'a quelque chose d'universelle dans notre histoire
Une petite étincelle pour bien plus qu'un soir

Est-ce que tu veux me donner ta main?
Pour tout l'temps qu'on s'ra bien?
Est-ce que tu veux partager mon chemin?
Moi j'dis oui pour le tien.



Nota: É bonita a versão com o 'accordeon diatonique'.

Auguste Rodin

"A arte é a contemplação: é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que ela também tem uma alma. É a missão mais sublime do homem, pois é o exercício do pensamento que busca compreender o universo, e fazer com que os outros o compreendam."

Quando o Espirito não recusa a matéria e a fecunda.

Para A.


   Willie Berkers é um pintor holandês, nascido em 1950. A tela faz equilíbrio entre o que é sem tempo e a alvura do que é novo. E todas as cores estão ali.

António Franco Alexandre

acordar, mexer nos búzios, elucidar
o coração: são as mais dóceis
tarefas.

andamos enganados nestas portas
de veludo, ou nos velhos tapetes
das ombreiras.
quando dormes, há um búzio que mexe
no teu coração.


Lembro o dia em que os meninos perguntaram, como se tiram as princesas e as fadas das histórias.

Inês Lourenço - Consoantes átonas

Emudecer o afe[c]to português?
Amputar a consoante que anima
a vibração exa[c]ta
do abraço, a urgência

tá[c]til do beijo? Eu não nasci
nos trópicos; preciso desta interna
consoante para iluminar a névoa
do meu dile[c]to norte.


Para os que amam as velhas palavras, o novo significante não coincide com o velho significado. O signo vivia perfeito, sereno no coração e agora sente a falta das 'consoantes átonas'. A lei proibiu-as porque eram invisíveis. A lei é prática, racional, cega e acha o invisível uma maçada.

Jorge de Sousa Braga

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não

te coubesse no dedo.

É-nos tanto, quem amamos.

Marc Burckhardt

maria azenha

sei de uma mulher
que penteava os cabelos ao sol
porque tinha no pensamento uma flor

sei que os lavava ao luar
porque tinha no coração uma corola

com a boca mordia o ar
e prendia os vestidos ao vento

era uma mulher sentada numa pedra
coroada por um lírio salgado na fronte

um dia
cortou os cabelos
atirando-os um a um ao mar

e disse: tece-me

e o mar inclinou-se por dentro
para tecer

o poema.

José Luís Peixoto

 
o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.


No momento de olhar, o teu rosto não estava à minha espera, mas bastou olhar.

Fernando Guimarães

Procuramos o amor e a morte em cada rio
para que seja igual ao mar a nossa vida.

Felix Mendelssohn: Concerto para viola em Mi menor, op.64


    
    Alina Ibragimova e o gemido humano. Nasceu em 28 de setembro de 1985, na Rússia e desde que o pai foi convidado a tocar na London Symphony Orchestra, passou a viver no Reino Unido. É considerada uma das mais virtuosas violistas do nosso tempo. Questiona-se nesta sua interpretação "there are better ways to express individuality than abrupt tempo change". No que tenho lido, é forçado defender que a aceleração do tempo é a forma ideal de provar virtuosismo. O rigor e a sensibilidade de execução são impressionantes, com e sem orquestra. Atente-se no minuto 6.50.

Alberto Soares - 6 motivos para 1 cenário

O melro negro que, do mármore branco, vai para a chaminé.
Uma leitosa neblina sobre o rio.
A gaivota sobrevoando, alta.
Um fiozinho de música que vai pela manhã, como uma voz sem sílabas.
Alguém que se debruça na janela, para ver o rio.
O melro que levanta, em direção ao dia.

Ana Teresa Pereira

- Ouve, Kate. Pára de procurar. Alguns de nós têm a necessidade de ir embora. É essa a nossa natureza.
- "and I followed the smell of the panther" - disse ela baixinho.
- Há coisas que não deixamos para trás, o nosso cão, alguns livros. Mas deixamos tudo o resto.
- Mesmo aquilo que amamos?
- Em especial aquilo que amamos.
- Eras capaz de me deixar?
- Sim.
Ela fechou os olhos. Estava nela também, embora não gostasse de pensar nisso. Era a sua natureza.
- Não se eu te deixar primeiro.

in, A Pantera

Eugénio de Andrade

Sempre a água me cantou nas telhas.
Habito onde as suas bicas,
as suas bocas jorram.
As palavras que no cântaro
a noite recolhe e bebe
com agrado
sabem a terra por serem minhas.
Não sou daqui e não vos devo
nada, ninguém
poderá negar a evidência
de ser chama ou água,
fluir em lugar de ser pedra.
Perdoai-me a transparência.


O ser e as palavras limpas.

Master of the Magdalen Legend

 
    A Maria Madalena elaborada na Idade Média é a filha pródiga reencontrada, que passa do pecado ao arrependimento e deste à virtude. Exemplo humano de desconstrução e construção do sagrado.

Pedro Mexia - As gavetas

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.


Que faço com a chave?

Pedro Salinas

Tu vives sempre nos teus actos.
Com a ponta dos teus dedos
tomas o pulso ao mundo, arrancas-lhe
auroras, triunfos, cores,
alegrias: é a tua música.
A vida é o que tu tocas.

Dos teus olhos, apenas deles,
sai a luz que te guia
os passos. Andas
entre o que vês. Nada mais.

E se uma dúvida te faz
sinais a dez mil quilómetros,
deixas tudo, lanças-te
sobre proas, sobre asas,
estás já ali; com os beijos,
com os dentes desfazes-la:
já não é dúvida.
Tu nunca podes duvidar.

Porque viraste os mistérios
do avesso. E teus enigmas,
o que nunca entenderás,
são essas coisas tão claras:
a areia onde te estendes,
o movimento do teu relógio
e o terno corpo rosado
com que te encontras no espelho
cada dia ao despertar,
e é o teu. Os prodígios
que estão já decifrados.

E nunca te enganaste,
a não ser uma vez, uma noite
em que uma sombra te encaprichou
– a única de que alguma vez gostaste –.
Parecia uma sombra.
E quiseste abraçá-la.
E era eu.


in, La voz a ti debida


O amor exige completude na diferença. Se não for diferente não completa.

Joni Mitchell - Urge for Going



Joni Mitchell defende que os poemas mais belos não se escrevem e confessou que Urge for Going teria sido a única protest song da sua carreira... contra o inverno. O inverno da vida.

Lyrics:
 
I awoke today and found the frost perched on the town
It hovered in a frozen sky then it gobbled summer down
When the sun turns traitor cold
and all the trees are shivering in a naked row.

I get the urge for going but I never seem to go
I get the urge for going
When the meadow grass is turning brown
Summertime is falling down and winter is closing in

I had me a man in summertime he had summer-colored skin
And not another girl in town my darling's heart could win
But when the leaves fell on the ground
Bully winds came around pushed them face down in the snow.

He got the urge for going and I had to let him go
He got the urge for going
When the meadow grass was turning brown
Summertime was falling down and winter was closing in.

Now the warriors of winter they gave a cold triumphant shout
And all that stays is dying and all that lives is gettin' out
See the geese in chevron flight
Flapping and racing on before the snow.

They got the urge for going and they got the wings so they can go
They get the urge for going
When the meadow grass is turning brown
Summertime is falling down and winter is closing in.

I'll ply the fire with kindling now I'll pull the blankets up to my chin
I'll lock the vagrant winter out and I'll bolt my wanderings in
I'd like to call back summertime
Have her stay for just another month or so.

But she's got the urge for going so I guess she'll have to go
She gets the urge for going
When the meadow grass is turning brown
All her empire's falling down and winter's closing in.

Wilhelm Meister

 E seguem-na as perguntas das crianças, que reconhecem Mignon.
 
-Tu és um Anjo?
-Quem me dera, responde Mignon.
-Por que trazes um lírio?
-Se o meu coração fosse tão puro e sincero eu seria feliz.
-E as asas? Mostra lá!
-As mais belas são as que ainda não se abriram.

 Johann Wolfgang von Goethe

 Fausto diz ao discípulo Wagner:

"Só duma aspiração tens consciência;
Oh, não queiras jamais sentir a outra!
Duas almas habitam no meu peito,
Uma da outra separar-se anseiam:
Uma com órgãos materiais se aferra
Amorosa e ardente ao mundo físico;
Outra quer insofrida remontar-se 
De sua excelsa origem às Alturas".

 Johann Wolfgang von Goethe

Quint Buchholz


    Quint Buchholz é um pintor e ilustrador de origem alemã, nascido em 1957, na cidade de Stolberg. Segundo ele, quem completa os seus quadros é quem os observa.

Bénédicte Houart - morreu-se-me de mim

morreu-se-me de mim
bastante, mas não demasiado
que o pouco que ficasse
não desse a mão ao
muito que se foi e
recompusesse algo de
parecido comigo que
de novo a vida
se preparasse para morrer.


Viveu-se-me de mim tanto que não morreu.

Ana Moura - Desfado


 
Quer o destino que eu não creia no destino
E o meu fado é nem ter fado nenhum
Cantá-lo bem sem sequer o ter sentido
Senti-lo como ninguém mas não ter sentido algum.

Ai que tristeza, esta minha alegria
Ai que alegria, esta tão grande tristeza
Esperar que um dia eu não espere mais um dia
por aquele que nunca vem e aqui esteve presente.

Ai que saudade que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém que aqui está e não existe
Sentir-me triste só por me sentir tão bem
E alegre sentir-me bem só por eu andar tão triste.

Ai se eu pudesse não cantar "ai se eu pudesse",
e lamentasse não ter mais nenhum lamento
Talvez ouvisse no silêncio que fizesse
uma voz que fosse a minha a cantar alguém cá dentro.

Ai que desgraça, esta sorte que me assiste
Ai mas que sorte eu viver tão desgraçada
Na incerteza que nada mais certo existe
além da grande certeza de não estar certa de nada.
 
Pedro da Silva Martins, de Os Deolinda, é o autor dos versos e da melodia. Por certo, cansado de ouvir dizer que Amália Rodrigues "fez tudo o que ao fado diz respeito", tentou o que também em outras artes se faz: desconstruir. Des(fado) é um dos poucos regressos ao melhor de Portugal.

Alberto Augusto Miranda - Morrer à tua porta

O que eu desejava, realmente, era ir, esta noite, morrer à tua porta. 
Mas mora lá tanta gente que tu podias pensar que eu não tinha morrido à tua porta.
Se ao menos o teu quarto tivesse uma varanda.
Ou se praticasse a técnica da transferência e vivesse as imagens da substituição…
ou se sinceramente amasse a minha analista.
Não sublimo os desejos por incapacidade.
E recalco mais este.
Não posso, como desejava realmente, ir morrer à tua porta.
Fico a gemer.
Se, ao menos, tu morresses!


Se morresses continuava a ser 'para sempre'.

José Saramago

Poema à boca fechada 
Não direi: 
Que o silêncio me sufoca e amordaça. 
Calado estou, calado ficarei, 
Pois que a língua que falo é de outra raça. 
Palavras consumidas se acumulam, 
Se represam, cisterna de águas mortas, 
Ácidas mágoas em limos transformadas, 
Vaza de fundo em que há raízes tortas. 
Não direi: 
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, 
Palavras que não digam quanto sei 
Neste retiro em que me não conhecem. 
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, 
Nem só animais bóiam, mortos, medos, 
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam 
No negro poço de onde sobem dedos. 
Só direi, 
Crispadamente recolhido e mudo, 
Que quem se cala quando me calei 
Não poderá morrer sem dizer tudo.

A dor do que fica por dizer.

Hieronymus Bosch - Nau dos Loucos

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/a/a2/Jheronimus_Bosch_011.jpg

E a vida continua.

Antonio Gamoneda - Se uma rosa infinita me explodisse no peito

Se uma rosa infinita me explodisse no peito
e, ao chegar o crepúsculo, me florescesse nos lábios,
deixarias que fosse removendo as sombras
- porque vives nas sombras - com as minhas mãos sedentas,
com cavalos de insónia galopando à minha frente,
e a colocasse lentamente nos teus ombros nocturnos?

Se um ramo de fogo me brotasse da língua,
deixarias que fosse como um vento na noite
- essa noite que tens na tua voz e na tua casa -,
a dizer-te as palavras no dorso nu?


in, Oração fria
Tradução:  João Moita


A anima dos velhos versos condicionais.

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